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Críticas

Cineplayers

Ótimo drama do cinema nacional. O uso de atores inexperientes trouxe realismo ao filme.

9,0

Confesso! Confesso que deixei de ver Mutum no Festival do Rio por puro preconceito. Olhei o cartaz e alguma coisa me persuadiu a isso. No final das contas foi ele o grande vencedor. No entanto eu mantive meu ceticismo, porque como bem sabemos, algumas premiações são seriamente discutíveis.

Fui convidada então a participar de uma exibição de Mutum, seguida por um debate com a diretora Sandra Kogut, e fui. O filme é uma adaptação do livro Campos Gerais, de Guimarães Rosa. Digo isso de início para revelar que a amiga que me acompanhou à exibição é mineira, e me ajudou a compor a opinião que exponho aqui.

Na primeira tentativa da exibição era difícil ouvir o diálogo dos personagens e foi preciso mudar de sala. E isso é interessante, pois o sotaque dos atores era tão original que mesmo depois de mudarmos de sala de projeção eu imaginei como seria entender o filme em uma sala com equipamentos de som precários. E como disse a própria diretora, esse sotaque interiorano que ela quis preservar, procurando atores em cidades ao norte do Estado de Minas Gerais, podia lhe servir como diferencial ou ruína, e ela pagou pra ver.

Até agora continuo em dúvida se o que Sandra Kogut queria nessa busca era encontrar os atores ou os próprios personagens, já prontos, ali em seu ambiente natural. E ela frisou que gostaria de ouvir sobre como foi sortuda por encontrar pessoas que se encaixassem "tão bem" nas personagens, porque "sorte" foi algo muito diferente do que ela viveu em seu um ano e meio de busca e pesquisa.

Kogut escolheu trabalhar com não-atores, talvez por sua experiência em documentários, apesar de dizer que não diferencia muito documentarismo de ficção. Chamou a já conhecida Fátima Toledo para ajudar na preparação do elenco e testou cerca de 1000 garotos para, chegar a Thiago e todas as outras crianças, peões e donas-de-casa que precisava. E é impressionante perceber com que comodidade essas pessoas vestiram os personagens.

A história pertence a Thiago (como o personagem que, no livro, chama-se Miguilim) e seu mundo, um lugar chamado Mutum, no interior de MG. Lá ele vive em companhia da família: mãe, pai, irmãos, tio e avó. Cercado pelo sertão que parece sertanizar também as pessoas, tornando-as ensimesmadas, Thiago parece diferente. Como a própria mãe sentencia, "o menino tem sentimento"!

A fotografia nos faz entender a dimensão dos sentimentos que cabem em Thiago a cada um dos abraços aos quais somos carregados, como numa das cenas iniciais, em que o vemos desenhar um sorriso no rosto de sua mãe ou noutra em que, chorando, ele é afagado pelo tio.

Você deve estar se perguntando por quais músicas devem ser embalados esses afetos, mas terei que decepcioná-los. Ou surpreendê-los. O som de Mutum é o som do sertão: aves; vento; sol; as vozes das crianças; suas brincadeiras. Essa é a trilha. "Até testei pôr músicas. Mas tudo parecia over", diz a diretora. Do jeito que está, pareceu muito mais honesto à realidade de Mutum.

Convém avisar também aos fãs da literatura de Guimarães Rosa que, se forem ao cinema procurando uma transposição fielmente ilustrativa da obra, sofrerão um pouco. Kogut contou que nas adaptações que viu dos textos de Rosa a linguagem sertaneja, sendo reproduzida pelos atores soava mecânico. E todo o trabalho tinha sido feito priorizando a naturalidade. Seguir fielmente o texto seria comprometer o minucioso trabalho de adaptação à realidade de Mutum e de Thiago.

Aliás, um parêntese sobre ele: a diretora se viu naturalmente levada a chamar o garoto por seu próprio nome, ao invés de personificá-lo como Miguilim. A preparação do menino voltou-se para a exploração dos sentimentos em detrimento de um pragmatismo textual. Ela visitou diversas escolas rurais atrás de um menino sensível o suficiente para encarnar o personagem principal da história. E ganhou de brinde o único que não reclamava do ritmo das filmagens e que quando não estava em cena, carregava uma cadeira, mas não ficava parado. Mas ele disse que estava acostumado porque trabalha desde pequeno, sendo ele agora um jovem rapaz de oito anos.

A convivência entre todos parece tão natural que você é compelido a acreditar que todos são parentes de verdade, com exceção de João Miguel, né? Mais um engano. A tática para criar essa integração foi fazê-los morar por dois meses na mesma casa que serviu como cenário. E um belo dia, os irmãos já eram irmãos, e na hora do aperto era pro lado da mãe que eles corriam.

Por isso as palavras de Rosa, mesmo respeitadas, para Sandra Kogut precisavam ser subjetivadas em imagens. Em troca das extensas descrições que compõem o livro, aqueles não-atores trouxeram a sincera expressão da natureza humana daquele lugar. Era preciso entender o mundo pelos olhos míopes de Thiago. Por isso planos fechados, nos colocando em cima da linha que separa o "nós" do "eles". A metáfora é essa, da cena que entramos, até a cena em que nos despedimos de Mutum.

No mundo de Thiago (Thiago da Silva Mariz), seu irmão Felipe (Wallison Felipe Leal) é o melhor companheiro, aquele que lhe leva um copo d’água no castigo. Sua mãe, que é doce e dedicada – apesar de tudo – ocupa um bom pedaço desse mundo, sendo protegida por ele, na medida do possível. Seu tio, figura masculina a quem ele recorre mais do que ao pai (João Miguel), é quem lhe ensina, lhe diverte e lhe afaga. Nas distâncias com seu pai são travados os momentos mais duros do filme.

Thiago retorna a Mutum depois de alguns dias ausente e encontra todos em casa. De volta ao cotidiano, presencia uma grande briga entre os pais e o conseqüente afastamento do tio. Uma suposta relação entre a mãe e o tio (os dois únicos atores profissionais além de João Miguel) confunde Thiago, que fica dividido entre ajudá-los ou não. Enquanto isso o pai tenta uma aproximação, lhe mandando ir à roça levar o almoço. No entanto, o papagaio aprende seu nome. Mas a alegria dura pouco: um dia o papagaio voa. Todos tentam pegá-lo e um acidente acontece. Uma perda irreparável no mundo de Thiago, e o filme passa a desenhar o começo do fim. As tristezas começam a se acumular: brigas seguidas com o pai, a tristeza da perda e a saudade do tio o fazem ser mandado às vaquejadas, de onde ele retorna com o desaparecimento do pai.

Um dia eles recebem a visita de um médico, que dá nome àquilo que o fazia diferente, ou como o pai dizia "se achando melhor do que os outros": a miopia! Ela era a causa daquela necessidade de toque e tamanha distração. Os óculos são a passagem que levará Thiago para depois do filme, e para a cena em que ele enxerga a beleza de Mutum pela primeira e última vez. E como é bonito esse filme chamado Mutum.

Na conversa com Kogut o que transparece é a intuição. E a tranqüilidade de experimentar, arcando com as conseqüências dos sucessos ou enganos. Encoraja a produzir cinema de maneira comprometida com a sinceridade da mensagem. E como é bonito esse Mutum. Na próxima, vou lembrar a lição de hoje e tentar aguçar a intuição para não perder outro filme como esse.

Faltou só ir à estréia do filme, a primeira vez de Thiago no cinema, tanto como espectador, quanto como ator, sofrendo o choque duplo de ver e ver-se cinema.

Comentários (1)

Rosana de Almeida Machado | sábado, 27 de Julho de 2013 - 20:35

Linda crítica, tão linda qt o filme... resumo perfeito do que assiti...

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