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Críticas

Cineplayers

Renasce uma estrela, resgata-se um cinema.

9,0
Não é difícil entender porque Nasce uma estrela (A star is born, 2018) já é a terceira refilmagem a adaptar o clássico de William A. Wellman. O enredo, como o próprio filme reconhece, tem uma qualidade do atemporal, de uma história que se repete. Em parte, essa repetição está no caráter cíclico da fama — e é interessante perceber como cada um dos quatro Nasce uma estrela apresenta como protagonistas artistas de ramos ou gêneros diferentes. Em parte, está também em um tipo de arquétipo do casamento moderno, do conflito entre autonomia e autossacrifício. São todos, afinal, histórias que narram a queda em desgraça de um homem enquanto a mulher que o ama ascende à aclamação pública e ao reconhecimento.

Nesse ponto, nenhuma grande novidade é levada adiante pelo diretor Bradley Cooper e seus corroteiristas, Eric Roth e Will Fetters. O filme repete a sequência de acontecimentos das versões anteriores assumindo uma tipicidade mais usual do cinema clássico. Não há surpresas ou inversões; o texto se restringe a uma atualização do material, com alguns poucos desenvolvimentos novos na construção dos dois personagens. A Jackson Maine, astro do country rock interpretado por Bradley Cooper, acrescentou-se um drama familiar, elaborado a partir de sua relação com o irmão mais velho (Sam Elliott); a Ally, a estrela em ascensão do título, interpretada por Lady Gaga, também foi dado um contexto familiar, embora mais limitado à presença afetuosa de seu pai (Andrew Dice Clay).

Mais próximo, ainda em termos do texto, à versão de 1976, dirigida por Frank Pierson e estrelada por Barbra Streisand, o novo Nasce uma estrela traz mais uma vez personagens da indústria da música (ao contrário das duas primeiras versões, voltadas para o cinema), o que permite ao filme funcionar como um musical de diegese mais realista. Uma coisa interessante que o filme traz da versão de Pierson — evidentemente, a mais problemática das quatro —, é a negociação entre os gêneros musicais, que, no filme de Cooper, vai do country ao rock e à música pop. Isso permite que o conflito entre os protagonistas se desenvolva para além do texto, para além de uma contraposição entre o sucesso e o fracasso, e tome uma posição na forma fílmica, como um conflito entre duas concepções diferentes de criação artística e de performance. Enquanto Jackson Maine repete os gestos de John Norman Howard (o personagem de Kris Kristofferson na versão de 1976), um acervo do country e até uma reivindicação por autenticidade do gênero; Ally vai aos poucos rompendo com esse universo cênico e construindo uma performance sua, caminhando do pop chiclete, dançante, a um repertório das divas (inclusive divas como Streisand e Judy Garland), que busca algo além do pop — um tipo de performance mais difícil de ser vinculada a gêneros musicais específicos.

Quebrando com a narrativa mais alegórica do filme de 1976, Cooper leva seu Nasce uma estrela para o âmago da indústria musical contemporânea, buscando reproduzir contextos midiáticos que são parte integrante dos procedimentos da indústria, como uma apresentação no programa Saturday Night Live, um espaço muito desejado de visibilidade midiática dentro da indústria musical estadunidense. Não é a primeira vez também que uma premiação real, como o Grammy Awards, é posta em cena (todos os outros filmes fazem isso), mas é a primeira em que um dos filmes assume uma posição na direção que é muito próxima de como a própria premiação é filmada. Na sequência final, que funciona como a afirmação da personagem como uma estrela atemporal, livre das amarras dos gêneros musicais, assumindo seu lugar como diva na indústria, vincula-se a usual performance de homenagem em eventos solenes a um lugar autoral, autêntico e criativo. Cooper filma este último número como uma palavra final, pronunciada na fronteira entre o reconhecimento de uma geração e o da eternidade — como as últimas performances dos filmes de Streisand, não apenas em seu próprio Nasce uma estrela, mas também em Funny Girl (1968), encerrado com a apoteótica canção “My man”.

Por mais que o filme de Cooper procure desenvolver de forma mais detalhada o personagem de Jack Maine, o diretor coloca todo seu aparato cênico em favor da personagem e da atuação de Lady Gaga. A atriz, que segue um caminho mais próximo da primeira “estrela”, Janet Gaynor (deslumbrada e amorosa), é frequentemente filmada como se estivesse transcendendo o seu contexto e seu tempo. Na cena em que canta La vie en rose, uma das apresentações da personagem, seu olhar para Jackson Maine rasga a materialidade da tela do cinema: é um olhar dirigido a nós. Isso também faz parte de uma afiliação da construção de cena de Cooper a uma do cinema clássico — não há um plano mal calculado, uma única encenação à toa.

Nasce uma estrela consegue resgatar algo presente nas duas primeiras versões, um gesto do cinema clássico hollywoodiano, uma capacidade de generalização muito específica daquela época. Em sua atualização, o filme encontra o argumento atemporal que a versão anterior não alcança. É um belo filme, afinal. Simples, direto e eficaz no que se propõe a colocar em cena. Não podemos exigir da Hollywood contemporânea que seja mais como este filme (há que se respeitar uma tomada de direção mais complexa na narrativa dramática hollywoodiana). Mas o que se apresenta aqui ainda é uma boa indicação de caminho para a crise criativa de Hollywood, um retorno que se distancia da paródia e vai bem além do pastiche.

Comentários (2)

Mateus da Silva Frota | sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019 - 13:16 | Responder

Eu, pelo contrário, achei A Star Is Born completamente caricato e por algumas vezes, perdido. Bohemian Rhapsody, de conteúdo semelhante, e preso a uma "história real", conseguiu ser narrativamente muito superior.

Robson Oliveira | sexta-feira, 01 de Fevereiro de 2019 - 18:54 | Responder

Filme excelente! Amei assistir, mesmo com lágrimas nos olhos uma cena ou outra.

Nota merecida Cesar Castanha

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