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Críticas

Cineplayers

Faltou a energia de 'Chicago' e o romantismo de 'Moulin Rouge'.

4,0

Depois de Rob Marshall ter dirigido o premiado Chicago, criou-se um alvoroço em torno de Nine, seu próximo musical estrelado por alguns dos maiores nomes da Hollywood recente. Releitura do clássico de Fellini, deve-se deixar bem claro que esta referência é uma das poucas coisas que Nine tem de bom, e ao utilizar uma boa história já contada e piorá-la inserindo musicais fracos, sem inspiração, monótonos e nem um pouco marcantes, torna-se uma obra totalmente dispensável. Para se ter uma noção da gravidade da coisa, a melhor canção deste musical é uma música clássica que nem foi feita para o filme, e a canção que deveria ser tema, também chamada Nine, acabou sendo excluída antes do corte final.

A história de Nine confunde-se com sua própria produção: tendo seu roteiro sido interrompido pela greve de roteiristas, Rob Marshall parece muito com Guido, seu personagem principal. Ambos têm a responsabilidade de carregar uma grande produção à frente, mas parecem não saber muito bem como e nem o que fazer. Guido foi considerado certa vez uma grande promessa na Itália, com seus primeiros filmes fazendo imenso sucesso. Porém, o que é retratado no filme é a fase ruim do cineasta que, sem idéias para seus novos trabalhos, começa a filmar sem roteiros e dependendo de uma equipe fiel que tenta captar suas idéias soltas e fazer algo sem planejamento, torcendo para Guido gostar e usar em seus filmes, mesmo não tendo nenhuma idéia pré-estabelecida, seja nos figurinos, nos cenários, nas canções etc.

Esta confusão na criatividade de Guido reflete-se também em sua vida pessoal: casado com Luisa Contini, uma ex-estrela que abriu mão da fama e do sucesso para viver ao lado do diretor, Guido vive um eterno dilema com a monogamia, já que é louco por mulheres e tem inclusive uma amante fixa, Carla Albanese. Só que Guido realmente ama Luisa, e tenta mudar e ser mais fiel à esposa, mas será que ainda há esperança nessa relação, desgastada ao longo dos anos?

Nine não tem nem um pouco do romantismo trágico de Moulin Rouge - Amor em Vermelho e Rob Marshall não está aos pés de Federico Fellini. Então, mesmo que a história seja a mesma, não há porquê deixar o clássico de lado para ver esta releitura, já que o material original é bem melhor. E se Nine falha nesse sentido, os números musicais podem fazer tudo valer a pena, certo? Errado.

Apostando em seus números musicais para tentar diferenciar, Rob Marshall mais uma vez dá uma de Guido e demonstra estar com problemas de criatividade: 80% dos musicais do filme são passados no mesmo lugar, nos estúdios da Cinecittá, onde o filme de Guido deve ser rodado. Óbvio que, no conceito, a idéia é válida, afinal, aqueles estúdios representam o mundo de Guido; ali dentro, ele é o rei supremo, o universo, o Deus, e aquele cenário é a única coisa que ele tem de concreto do filme. Só que será que, na execução, apenas mudando luzes e atrizes, o resultado pode ser considerado positivo?

E já que falamos delas, nada mais justo do que traçar um paralelo entre as beldades escolhidas a dedo e seus números musicais: Luisa Contini é interpretada por Marion Cotillard, a eterna Piaf, uma das poucas que fazem um trabalho realmente bom no longa. Sofrida por saber das infidelidades de seu marido, mas ainda assim ter esperança de salvar o casamento, ela vive em semi-depressão por ter largado uma carreira promissora para viver a vida terrível que vem levando, sem a reciprocidade do marido. Já Penélope Cruz, que interpreta a amante Carla Albanese, novamente demonstra habilidade ao criar uma figura ao mesmo tempo cômica e trágica, pois sabe que vive de ilusões e que, por isso, nunca será feliz por completo, mesmo com a camada de sensualidade que praticamente esconde toda essa tristeza.

Kate Hudson participa no possível único número que presta, e que não é por menos que foi escolhido como carro chefe para a divulgação do longa-metragem. Ela interpreta Stephanie, uma repórter que fará de tudo para descobrir os detalhes e o porquê de tanto segredo em torno da próxima obra de Guido. Judi Dench vê todo o seu talento desperdiçado em um musical sem graça e uma personagem que é praticamente uma segunda mãe para Guido, nada além disso. Já Sophia Loren parece mais ser uma homenagem a ela mesma do que uma personagem realmente necessária ao filme, fora que seu musical é bastante constrangedor e suas participações desnecessárias perante a formação do homem que Guido se tornou. E Fergie, apesar de linda, sem dúvidas está lá apenas para fazer número e tornar-se o motivo do pecado na vida do nosso "pobre" diretor.

Todas essas atrizes fazem seus musicais no mesmo já citado cenário, mudando apenas luzes e figuração. Acredite: além de não terem boas letras e coreografias, falham ao não terem um pingo de energia, algo que Chicago esbanjava de sobra, para não ir muito longe em exemplos. E se Nicole Kidman faz o único musical vivido no mundo real, é óbvia também que esta escolha foi feita mais em homenagem à Fellini e sua fonte de A Doce Vida do que como uma cena realmente necessária, faltando apenas Kidman entrar na água. E mesmo sem fazer isso, disputa de forma acirrada com Sophia Loren o prêmio de pior apresentação.

E finalmente chegamos a Daniel Day-Lewis: possivelmente o melhor ator de sua geração e oscarizado recentemente por seu trabalho memorável em Sangue Negro, ele se esforça para alcançar uma tridimensionalidade em Guido, que por si só já é admirável, mas o papel é limitado a um mulherengo com bloqueio e que, do jeito que foi construído, não é possível perceber o porquê de tanto alarde em torno daquele homem. Se não consegue administrar nem a própria vida, como quer comandar uma produção gigantesca e milionária? Já que não conseguimos nos apegar a sua causa, ao seu drama, como poderemos torcer por ele? Guido sabe que não pode. Para fechar o caixão, seu número solo também é terrível, não diferenciando muito do casting feminino.

Nine é um lenga-lenga praticamente insuportável, girando em torno desse homem, que tenta, a todo custo, voltar ao sucesso, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Mas sua previsibilidade é tão grande que, mesmo tentando disfarçar nome, amante ou enganar produtores, o resultado é sempre previsível e conhecido por todos. Assim como Nine, que se sustenta muito mais em homenagens, aparências e nomes do que em algo original e de qualidade, pois quando tenta fazer algo por essa linha, falha vergonhosamente.

Comentários (1)

Wellington Conegundes da Silva | domingo, 16 de Dezembro de 2012 - 16:46 | Responder

Nao concordo com a crítica ao uso massivo do cenário, quanto a tudo que disse, acho válido, em especial sobre a previsibilidade. Tudo que me levou a pensar é "que cara idiota", e "acho que querem homenagear o Fellini".

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