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Noite dos Mortos-Vivos, A

(Night of the Living Dead, 1968)
7,8
Média
301 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

O preto e branco brutal do horror zumbi das antigas

10,0

Parte um da trilogia original de George A. Romero na temática zumbi, que serviu como introdutório popular ao tema, começando a estabelecer regras que seriam determinantes ao subgênero. O plot aqui prima pela simplicidade. Uma horda de figuras esquisitas passa a querer se alimentar de carne humana, onde se foca nalgum grupo que tenta resistir numa casa em pequena cidade do interior norte-americano.

Aqui mais um exemplo em que a precariedade é usada em prol do gênio criativo. Com uma grana mínima para fazer o longa (cerca de 115 mil dólares), Romero teve de suar sangue a fim de ver seu material pronto, tanto que assumiria diversas funções não creditadas, tais quais fotografia e montagem. Com o intuito de atingir seu objetivo, o diretor decide usar câmera na mão para movimentos a favor de uma tensão mais estraçalhadora. A construção do horror com planos em contra-plongée e com enquadramentos não-usuais ao padrão tradicional da época, com personagens mostrados em cena na diagonal cortando a tela ao meio num local fechado. Usando o espaço, criando uma atmosfera de tensão claustrofóbica preparada e muito bem calculada.

A trilha sonora macabra – feita por músicos variados e lançada no vinil somente no ano de 1982 pela Varèse Sarabande – propõe uma soma ao climão foda. Das melhores do gênero, essa trilha acompanha a fotografia no desespero dos personagens, não dando trégua e acachapando seu volume até o talo nos ensejos finais de cena. São planos fechando e a trilha aumentando. União de primeira qualidade. Isso só seria possibilitado com uma montagem inteligente. Escolha acertadíssima nos cortes, deixando o que é possível ser mostrado sem esconder nada e sem subterfúgios, o que até surpreendeu pela brutalidade, já que é datado de 1968. Um bom exemplo desta junção ocorre num ataque dos cadáveres à casa principal no primeiro terço do filme, onde os seres vão caindo e outros vindo por trás, com a imagem nas faces horrendas e uma edição esperta e ágil se aproveitando bem disso, entre planos gerais e seus contraplanos fechados, dando o tom de urgência brutal que é tão caro à fita.

O artifício narrativo da comunicação. Rádio e TV. Forma esperta, e ininterrupta até, de expor informações esparsas – não se expõe a real origem daquilo tudo – sobre as criaturas que estão atacando o país, aumentando a loucura. As ações, soltas ou objetivas, dos personagens são entrecortadas na narrativa radiofônica, e televisiva, dando o tom de tensionamento daquela situação forçando os mesmos a confabularem soluções para, primeiro, se posicionarem na casa e, segundo, se organizarem com a intenção de saírem de lá com toda a ameaça a espeita. Uma confusão controlada pelo Romero. Total domínio de situação.

Temos aqui um protagonista negro, Ben (Duane Jones). Aliás, os 3 primeiros filmes de Romero da saga têm personagens negros fortes e essenciais à trama. Bom lembrar que este fora lançado em 1968, no auge das lutas civis pelos direitos dos negros, com figuras como Malcolm X e Martin Luther King como líderes dos movimentos, e que haviam morrido pela causa nos últimos anos, King meses antes do filme estrear. Ora, se já não era comum o papel do negro ter tanto vulto, menos ainda o debate sobre racismo no cinema. Isto fica na pauta quando um personagem, açambarcando o estereótipo do redneck americano, começa a querer impor seus intentos e vontades à turma e, quando tem oportunidade, acusa Ben, e somente ele, de ser responsável por mortes e pela desordem instalada na casa. O importante é que a liderança de Ben se consagra através do acerto de decisões e riscos assumidos, com os planos sempre enaltecendo seu tamanho, físico e de liderança, em relação aos demais.

Essa liderança incomoda e o desastre é inevitável, mas não somente pelo racismo, mas sim pela incapacidade humana de se colocar no lugar do outro e de conseguir agir no grupo frente aos seus objetivos particulares. Ponto chave da obra de Romero são essas relações humanas e o que elas implicam, ainda mais quando as restrições moralmente estabelecidas, via de regra, estão suspensas, sejam nos tradicionalismos da competência humana básica, seja nas noções e regras de estado pré-estabelecidas. O instinto de sobrevivência frente à hecatombe tende a prevalecer. Que seja ele somado ao racismo e outras chagas sociais. A inevitabilidade da falha humana no coletivo diante da destruição é uma crítica ácida. Serve como pauta por excelência num período político tão conturbado, com a paranoia da Guerra Fria à espreita com suas nuances de pandemônio nuclear, tal qual uma infestação de zumbis, com os cidadãos enclausurados em suas casas esperando o Estado lhes dizer o que fazer. Romero mostra sua genialidade ao costurar todos estes elementos numa obra única, servindo como microcosmo social de um país envolto em perturbações geopolíticas, raciais e morais. Ainda contando com um final absolutamente cínico e pessimista.

Não tem conversa mole, a obra quer o incômodo contínuo, passando esta sensação ao espectador. Com humanos no eterno conflito independentemente da atrocidade que se aproxima. É um meio comum de ação por pegada extremada. O apocalipse. Como agir diante disso? Que resultado se pode obter? O coletivo equivale ao civilizatório de bons costumes e respeito – em teoria – mas, frente ao mal comum, o que persiste é a sobrevivência daquele que conseguir atirar primeiro. Não condeno. É humano. É nosso. É da galera.

Texto integrante do Especial Monstros no Halloween

Comentários (1)

KikãoKessler | quinta-feira, 11 de Novembro de 2021 - 19:44

Issaí, jovem, ótima crítica, tou contigo e não abro!!! Nota DEZ para este magnífico filme, O MELHOR FILME DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS (até pela precariedade de recursos!), empate técnico com outro filme do mesmo ano, extraordinária safra de 1968, atinente ao filme O BEBÊ DE ROSEMARY!!! NENHUM OUTRO CHEGA A ESTE PATAMAR!!!!

Ted Rafael Araujo Nogueira | segunda-feira, 22 de Novembro de 2021 - 19:32

Esse é massa demais. Feito na marra e com uma puta crítica social embutida.

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