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Noite em Miami, Uma

(One Night in Miami, 2020)
7,2
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Críticas

Cineplayers

Irmandade: do show à reflexão

7,0

Regina King, aclamada mundialmente pela sua inquestionável atuação recente na série Watchmen (2020), escolheu a dedo sua estreia em longas-metragens com um dos ensinamentos mais repetidos de Malcom X: a irmandade. Para isso, resolve convidar Kemp Powers — um dos roteiristas por trás de Soul (2020) — para adaptar seu One Night in Miami (2013) do teatro.

Powers relaciona alguns fatos reais e os reúne de forma fictícia num único ato teatral. O roteiro cinematográfico vai um pouco além disso e soma algumas outras camadas narrativas. Apesar da evidente curiosidade que filmes baseados em fatos reais geram no público, o importante aqui é colocar o pensamento de quatro gigantes da cultura americana num só lugar.

Tudo em Uma Noite em Miami (One Night in Miami, 2020) se dá na noite do dia 25 de fevereiro 1964, com a última luta de Cassius Clay (vivido por Eli Goree) antes de tornar-se Muhammad Ali. Depois da vitória, o pugilista encontra-se com o ativista Malcom X (Kingsley Bem-Adir), o cantor Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e o jogador de futebol americano Jim Brown (Aldis Hodge) — e o que antes parecia um grande ato festivo para comemorar o título mundial rapidamente ganha um contorno muito mais explosivo.

Todos imaginavam uma festa inesquecível tomada de mulheres, álcool e diversão. Entretanto, X os reúne num quarto de hotel regado a potes de sorvete de baunilha para discutir a situação do negro nos Estados Unidos naquele momento e pensar a posição social de cada um deles na luta contra o racismo. O missionário mulçumano enxergava nos companheiros figuras que já exerciam uma importante função social para o movimento negro, e, portanto, sua ascensão midiática deveria vir acompanhada de um engajamento cada vez mais profundo e preparado sobre a cultura afro-americana.

King usa muito bem o material que tem nas suas mãos. A premissa inicial meramente celebrativa gera uma natural curiosidade sobre as figuras roteirizadas, o que permite uma proximidade instantânea com o espectador. O carisma de Clay é o elo introdutório entre os personagens e do próprio relato com o público. Os diálogos pegam fogo, mesmo que se desconheça a biografia de cada um daqueles homens.

Em seu ápice, quando os quatro estão fechados num quarto de hotel, a obra revela momentos de virtuosismo da diretora em conseguir dinamizar os planos, mesmo quando tudo gira em torno apenas da discussão. Não apela para primeiros planos constantes ou pretensiosos; já que a base do discurso do filme é o coletivo, mantém-se coerente e cria profundidade espacial mesmo no espaço tão reduzido. A câmera flui de acordo com o fogo do debate, tudo simples e direto, mas longe de vazio. A ideia de união registra-se no pensamento dos protagonistas, na fotografia e, claro, nos diálogos. Malcolm quase sempre é dono de uma posição mais radical, algumas vezes o embate registra-se visualmente com planos mais solitários deste em embate principalmente com Cooke, enquanto Clay, o mais jovem do grupo, tal qual o seu estilo de luta, vai sempre circular entre os planos para agregar a formação de um quadro de fato coletivo — sendo assim ajudado por Brown, com a sabedoria de um corredor da NFL que olha apenas ao objetivo final, custe o que custar.

É fato, por outro lado, que falta à direção de Uma Noite em Miami um maior equilíbrio na condução de toda a narrativa. Talvez pelo texto teatral centrar-se justamente num único espaço e priorizar o embate discursivo entre os quatro protagonistas, tenha faltado uma mão mais pesada à la Hitchcok em Festim Diabólico (Rope, 1948) para manter-se num único cenário, ou para uma escolha mais sóbria e menos artificial das sequências que antecedem o vibrante e óbvio (nem por isso previsível) clímax. O filme demora a engatar, e toma força no momento em que todos já esperavam; portanto, a sensação que fica é que tudo que vem antes ou depois do encontro é inacabado, dispensável.

O maior trunfo de King é, portanto, partir do argumento de Powers para explorar a linha central de Malcom X em pensar a posição do negro bem-sucedido na sociedade americana. Discussão recorrente no movimento negro, afinal, durante toda a História, convivemos com o sucesso de pessoas negras no showbusiness, tanto nos esportes como nas artes, e sempre foi um desafio tomar posições negras num mercado dominado economicamente por brancos.

Mesmo com as inconstâncias registradas, Uma Noite em Miami é feliz no seu propósito. A estética escolhida consegue conduzir o público a olhar aos líderes do passado e refletir sobre os caminhos do futuro a partir das próprias palavras de um dos ativistas mais importantes da história da humanidade. A obra, assim, afirma que não há total igualdade, mas, sim, deve-se preservar a irmandade para encontrar um caminho comum.

Partícipe do Especial Cinemas Negros

Comentários (2)

Herbert Engels | quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021 - 11:47

Faltou o ritmo de um Ma Rainey Black Bottom. A cenografia as vezes dá certo, e as vezes limita o filme de ser algo além.
Melhor filme sobre conflitos raciais do ano ainda continua sendo Judas e o Messias Negro.

Igor Guimarães Vasconcellos | sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021 - 05:23

Grande Herbert, nem curti tanto assim também O Ma Rainey, mas de fato tem um ritmo mais pulsante que esse filme.
Ainda assim, como mostro no texto, na hora do debate paulera entre os quatro entra num bom ritmo.
Ainda não vi o Judas, vou ver, tentar escrever, e ai a gente debate, beleza?
Muito cedo para apontar melhor do ano, estamos em fevereiro!

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021 - 18:50

Excelente texto meu chapa Igor. Revela o crescimento do material como cinema onde tu escreve como os personagens são posicionados frente a câmera da King, sem esquecer do espectro político central do debate. Aloprou.

Igor Guimarães Vasconcellos | sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021 - 05:26

Não dá pra deixar de citar isso, meu mano. A King escolhe um filme coletivo , sobre irmandade, e na hora de escolher os planos isso também entra em jogo. Grande sacada. Espero por ver mais dela!

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021 - 14:36

Maravilha. Mostra que a mulher já estou com segurança e entendendo do riscado. Joia demais.

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