Saltar para o conteúdo

Nosferatu no Brasil

(Nosferato no Brasil, 1970)
6,5
Média
7 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

O curta viçoso e avacalhado do vampirismo nacional

7,5

Aqui o desbunde do terrir divertido para um caramba que seria base do estilo do Ivan Cardoso. Num material experimental em Super 8. A jeito de todo tipo de improvisação e esmolambo para criar o seu trabalho. O diretor já demonstrava aqui o seu humor escrachado até o talo e usava-o como operacional de comunicação cultural iconômaca. Desde suas vestes obscuras e trejeitos exagerados – algo crasso no udigrúdi – este personagem demonstra o que seu diretor quis fazer do seu cinema uma putaria divertida que tem como mote a cooptação de um mito estrangeiro para o nosso bolso. Para a nossa cópia. Avacalhando a própria obra original em prol da plena curtição. Isto seria levado a cabo por diversas vezes dali em diante, principalmente na boca do lixo. A exemplo cito o Bacalhau ou Bacs (1975) de Adriano Stuart, que plagia descaradamente o Tubarão (Jaws, 1975) do Spielberg. Além do material de peças como Tony Vieira, que metia elementos avulsos de cinema policial estrangeiro em suas fitas com o intuito de ajudar a vendê-las. O nosso avacalho é amplamente cara de pau.

Em Nosferato (com "O" mesmo), no Brasil temos um chupador de sangue a conhecer o território nacional em busca de incautas marotas que participem de seu ritual de caça. Um vampirizamento à brasileira. O horror chegando ao Brasil. Nosferato charlando na praia tomando água de coco. Misturando-se na perambulação praieira a verificar suas possíveis vítimas. Quer safadeza audiovisual mais peba que essa? Este é o cinema do Ivan. Ataque de sanguessuga comendo e música Roberto Carlos rolando. Romantismo às avessas e muita fuleiragem. Um esculacho cultural pela podreira marmotosa de um vampirismo de improviso.

“Onde se vê dia
Veja-se noite.”

A marginalia do horror e da esculhambação do avacalho dos pobres. Ivan aprendeu bem com o mestre Zé. A citação acima corrobora a cara de pau marota que justifica o orçamento nulo da obra, principalmente por ser uma obra sem som direto e toda com luz natural. É um curta-metragem underground cacete. E dum cara na primeira viagem. Claro que não tem porra nenhuma. Indo numa pescaria fílmica da maneira mais marginal possível. Com lança de pau e atirando no escuro. O vampirismo chupinhado e adaptado tanto pelo sarro quanto pela necessidade de afirmação cinematográfica nacional, porque mesmo que o troço seja esculhambado, ele representa resistência e existência tácita desse cinema bagaceiro. Orgulhosamente uma putaria. É a transgressão necessária que sempre afirmo. Isto existe pela própria essência da obra. Incidentalmente acanalhada? Não interessa. O sentimento de esculacho é de uma presença que traz a reboque um inconformismo. Por isso o terror carregado de um humor asqueroso serve de forma contumaz a este intento. Além de transgredir ele se auto-ridiculariza. Principalmente quando aponta para todos os lados funcionando como uma metralhadora de imagens e trilha clamando pela contemplação de si mesmo. A zuada tem a sua vez.

Entre coisas outras a fita grita: “Sem sangue não se faz história.” Afirma uma cartela pobre da obra. Ah, com toda certeza. Nem se faz história e nem se faz cinema. Sangue diegético ou não. Sangue de tripas na tela (nada disso tem isso no filme, que mal tem orçamento pra meter uma luz decente) ou daquele que vem das glândulas sudoríparas de fora dela. O suor vermelho que o cinema necessita. Da vontade de se fazer fitas. Bagaceiras, sujas, cabeludas, inconsequentes, imbecis, bregas, escrotas, abjetas, ruins e sensacionais.

“Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isto lhe trouxer saudades minhas
A culpa é sua”

Canção de Erasmo Carlos e Roberto Carlos,
e instrumentalizada no vocal do último. 

E esta música na trilha do filme? Lembra da fuleiragem? Aí está ela. Vívida e solta. A aleatoriedade não aleatória de um curta que se propõe ao escarnecimento. Os ataques morcegosos seguindo a lógica pelo avesso de tudo. O cabeludo sacana e vagabundo é o protagonista. Romanceia e mata. A frescura. E se o filme não tiver nada do que eu disse até aqui presente? Interessa o que então? Assistir ao mesmo para se ter a certeza disso. E também porque já estou ficando sem ter o que escrever.

E sobre a aleatoriedade, o cabeludo do Nosferato – conhecido do lado de fora como Torquato Neto – permanece andando, correndo e sendo besta pelos matos de uma suposta Europa, filmada em algum descampado do sudeste brasileiro. Então ele vai frescar no Rio de Janeiro. Todos riem, se divertem. E assistem. Riem de si e por si. Deste avacalho que verte sangue numa estória de terror copiado e altamente original. Ou não. Que beleza é o contraditório. Que maravilha são os filmes sem futuro. Aqueles que possuem somente uma pretensão: VIÇAR.

 Crítica pertencente ao especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

Comentários (0)

Faça login para comentar.