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Nove Rainhas

(Nueve Reinas, 2000)
8,0
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186 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Descuidistas

8,0

Esse texto é absolutamente pessoal, como todos os outros.

Eu, malandragens, perseguições e o primeiro passo no cinema latino

Na minha experiência cinéfila, Nueve Reinas (2000) ocupa um espaço muito importante. Muito tempo depois de seu lançamento, e reconhecido êxito mundial no começo do milênio, eis que este que os escreve, andava em sua adolescência pelo falecido Orkut numa comunidade denominada “Filmes Latinos” lá havia um fórum especial para debater sobre o filme, e um comentário me chamou a atenção: “Se já viu Amores Brutos (Amores perros, 2000) não vai se arrepender”. Eu vinha de morar um ano México, em 2007, e sim, fiquei encantando com o outro lado do nosso continente – até então desconhecido para mim – e claro, com a obra de Alejandro González Iñarritu. Não deu outra, fui de locadora em locadora, até finalmente encontrar, e entender a razão de todo o alvoroço. Imagino que todos naquela comunidade, de alguma maneira, procuravam afastar-se da mesmice dos lançamentos blockbusters nas prateleiras e ampliar um pouco o horizonte da Sessão da Tarde. Pensando em todas as decisões que tomei, e para onde foi o meu caminho cinéfilo, é fácil afirmar que o longa de estreia de Fabián Bielinsky mudou a minha forma de ver o cinema.

Ambientado na efervescência da capital argentina de final de século XX, conhecemos em um “kiosco” do Microcentro, Juan (Gastón Pauls) em pleno golpe contra uma caixa, a tentativa parece não funcionar bem, ao lado, comendo um “panchito”, Marcos (Ricardo Darín), observa a situação atento. A princípio parece ir contra Juan, e a favor da moral, mas logo revela-se outro estafador interessado em compartilhar com o novo amigo, o negócio das possibilidades diante do descuido alheio. Numa introdução fantástica ao “trabalho” e ao seu estilo, Marcos, já experiente, define-se como uma espécie de Maestro do “descuidismo” ao aprendiz.

Os primeiros minutos da obra apontam tudo o que os meus 16 anos gostariam de ver num filme, outro idioma que não fosse inglês, outra cidade que não fosse Nova York, e possibilidades desconhecidas dentro de um roteiro. Bielinsky constrói um conceito de narratividade, coloca-o na obra, e dá a um de seus protagonistas a função de descreve-lo alegoricamente no contexto da estafaria. Um plot twist inicial abre o olhar do espectador para um mundo de possibilidades, prende-o na cadeira logo de início, e não conseguimos sair do furacão portenho.

Alguns anos e bons filmes depois, entendi que as suas características, encaixavam-no num gênero cinematográfico, ou subgênero, que na Argentina é notório: películas de estafaría. Muito marcado e influenciado primeiro pelos noir clássicos, até a New Wave americana dos anos 70, indo até os policiais explosivos dos 90, mas também no próprio cinema argentino, cineastas como Daniel Tinarye, Fernando Ayala, Carlos Hugo Christensen e Leopoldo Torres Nilson. Essa assumida mistura referencial toma um ponto fundamental do gênero na construção: o erro humano. Isto é, o que seria de Relíquia Macabra (Maltese Falcon, The,1941) sem a dubiedade de Sam (Humphrey Bogart), ou pensemos no excesso emocional e o sentimento de culpa de Michael (Cliff Robertson) em Trágica Obsessão (Obsession, 1976), ou mesmo a paixão desenfreada de Neil (Robert De Niro) no meio de um arriscado assalto em Fogo contra Fogo (Heat, 1995), talvez estariam hoje os dois juntos abraçados no Caribe. Filmes como estes, não são feitos para dar certo, para ter um final feliz, o fator humano é o que transforma as grandes ações desses personagens, em grandes filmes. Portanto, um dos grandes acertos da obra é conseguir criar condições para transformar os erros humanos dos protagonistas em algo absolutamente portenho.

Buenos Aires e o mito 

A construção proposta de uma Buenos Aires distante das europeizações tão clichês no nosso imaginário deixa o frio dos sobretudos da Recoleta, e passa pelo calor da Avenida Corrientes, o horário de pico no el Once, até chegar a Calle Florida e finalmente ao Puerto Madero. Escalada geográfica que mimetiza as ilusões de grandeza tão típicas da “menos europeia das capitais latinas”. Marcas de uma classe média de aparências, que viveu sob a falácia do dólar a um peso, e paga essa conta até hoje, tudo para não perder seus privilégios, ou o disfarce bem vestido com ternos de linho no calor escaldante de uma cidade subtropical.

Nesse contexto, surge então a figura prototípica do argentino, personificada, ou criada por outro mito: Ricardo Darín. Por mais que a sua carreira não tenha se iniciado aqui, é em Nueve Reinas que Darín parece chegar ao seu auge, a atuação do ator cria um efeito similar ao de Gabriel Figueroa nos filmes dirigido por Emíllio “Índio” Fernandez no México. Em diversas entrevistas, o próprio realizador afirmara que não havia um México antes dos filmes dele. Ou seja, o que vem primeiro: a imagem ou a construção da imagem por algum indivíduo? Para ser mais específico, o portenho de classe média frustrado, ou a imagem que Ricardo Darín deu a esses personagens e a tantos outros a posteriori? Confesso que não sei. O que é certo, é que não há exageros quando alguns críticos apontam um antes e depois do cinema argentino marcado nessa obra. Boa parte disso, sem dúvida, deve-se a forma que Ricardo Darín deu vida a um Marcos que parece ter nascido, crescido e vivido para sempre naquele universo de “trampas” terceiro-mundistas vestido de advogado francês, alimentando-se de cachorros-quentes baratos.

A direção opta por colocar esses elementos tão bem orquestrados num ritmo alucinante de câmeras. Os planos em 360 graus por exemplo, colocam os protagonistas num reflexo de seus pensamentos, aparentemente contra tudo o que está afora. Como sua função social é sempre cuidar dos descuidos alheios, parece que eles mesmos são inalcançáveis ao imponderável. Há muito além dos dois numa cidade absolutamente lotado de estórias e pessoas tentando sobreviver aos desafios do acaso.

Toda essa erupção de acontecimentos tenta ser equilibrada pela edição, esta muitas vezes inconstante quanto tenta estabelecer um pêndulo entre a pulsão já explicitada, e com os dramas mais pessoais dos personagens. O desenvolver das relações humanas que circulam os personagens não é muito interessante, e muitas vezes previsível. A câmera que tenta dar pistas dos possíveis plot twists que vão aparecer na trama, também evidencia o pior dos defeitos do filme, o que há de mais profundo nas escolhas que Marcos e Juan fazem é frágil. A partir da metade da obra, Bielinsky precisa encontrar motivações que vão além do prazer pelo trambique, e precisa tempo para desenvolve-las. Essa escolha por mais acertada e necessária deixa o resultado final com um ritmo instável.

Esse texto por mais que se derreta pela obra, entendendo sua importância a este que o escreve, e ao que é o cinema argentino atual, tem plena consciência de sua irregularidade. Imperfeito, talvez por isso tão latino e tão encantador. Afinal, cinema bom é feito de pessoas.

Fábian Bielinksy é um dos caras que veio ao mundo das artes, deixou uma marca, mas a vida não o deixou completar sua obra. Em 2006, antes mesmo de eu saber de sua existência, aos 47 anos, falecia em São Paulo. Fica o evidente agradecimento tanto por essa obra, como pelo trabalho posterior em El Aura (El Aura, 2005), e por abrir os meus olhos ao cinema argentino, mas também aquela velha pergunta descuidada de bar: o que teríamos conseguido aproveitar de seu cinema se ainda estivesse conosco?

 

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