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Críticas

Cineplayers

No meio do caminho.

6,0
Logo em seu debut como diretor em Margin Call - O Dia Antes do Fim (2011), o diretor J.C. Chandor tocou em um tema espinhoso recente, a crise financeira de 2008, e como as ações dos investidores afetaram o americano comum. Após isso veio a aventura de sobrevivência Até o Fim (2013), onde Robert Redford interpreta um homem sem nome que, em uma obra quase sem diálogos, tenta sobreviver às interpéries do sozinho em um navio. O cunho social voltaria em O Ano Mais Violento (2014), onde um imigrante e sua esposa tentam sobreviver à violência e corrupção da Nova York e prosperar sem sucesso nos negócios. E agora, em Operação Fronteira, as duas vertentes do seu cinema parecem encontrar uma intercessão. 

Dessa vez, Chandor escreveu seu novo filme ao lado do jornalista, produtor e roteirista Mark Boal, que trabalhou bastante com Kathryn Bigelow em seus filmes Guerra ao Terror (2008), A Hora Mais Escura (2012) e Detroit em Rebelião (2017). A primeira mulher a vencer o Oscar de direção também entrou como produtora executiva neste suspense de ação sobre o soldado Santiago “Pope” Garcia (Oscar Isaac), que ao descobrir a localização do megatraficante Lorea no meio da selva colombiana, reúne os ex-colegas William “Ironhead” Miller (Charlie Hunnam), Francisco “Catfish” Morales (Pedro Pacal), Ben Miller (Garrett Hedlund) e o especialista em estratégia Tom “Redly” Davis (Ben Affleck) para assaltar a mansão fortemente protegida, assassinar o criminoso e ficar com seu dinheiro.

Operação Fronteira é um filme que segue fielmente a cartilha do cinema de assalto. Como já vimos nos clássicos Rififi (1955) e O Grande Golpe (1956), a história arquetípica gira ao redor da composição e execução de um plano elaborado e, como não poderia deixar de ser, as consequências do mesmo plano. Logo, a fuga apresenta problemas quando “Redfly” é dominado pela ganância e acaba obrigando o grupo a levar mais dinheiro do que realmente conseguem carregar com um helicóptero militar russo. Não demora para que as coisas comecem a dar errado e, como é habitual, as falhas morais dos protagonistas acabam sendo também sua ruína - além do dificílimo ambiente que tem de atravessar, com a selva colombiana e a Cordilheira dos Andes mostrando-se como desafios adicionais. 

Chandor está menos interessado em questionar e desconstruir o gênero e está mais interessado em dar sua abordagem frontal do assunto, retratando os militares que praticam o assalto como pessoas ressentidas com o seu próprio país, servindo por ele e matando por ele e nada recebendo em volta, e acabam extravasando seus problemas da pior forma possível, com a câmera detalhando uma violência seca e impiedosa que irrompem de planos silenciosos, rapidamente minando a construção inicial baseada na “camaradagem” masculina entre protagonistas, que acabam dando espaço para a atração incontornável dos protagonistas em direção à violência - vivem por ela, nascem por ela, são moldados por ela.

Ainda assim, o filme não se eleva muito para além de repetir os consagrados clichês do gênero, com um uso óbvio de músicas famosas (como Fade To Black, do Metallica e Masters of War, do Bob Dylan) que reforçam ao lado de inúmeros diálogos expositivos a abordagem do filme sobre soldados tornados bastardos em sua própria nação, voltando do Iraque sem as glórias militares prometidas e tendo que trabalhar em empregos que consideram humilhantes. O prólogo que tenta introduzir todos os personagens é desnecessariamente longo, já que poucos personagens compensam o investimento com o desenrolar do filme e o que nos resta é acompanhar a jornada violenta pelo interior da América do Sul. 

Aliás, os três atos - apresentação, assalto e consequência - não conversam muito entre si. A camaradagem do primeiro ato deságua em um sombrio segundo ato onde os piores instintos afloram e então deságua em um corre-corre sobrevivencialista que ora pisam no freio com contemplação e explanação, ora aceleram com a ação com manobras bem-produzidas e piadas “fanfarronas”, onde Chandor parece um tanto indeciso se pretendia desconstruir a persona dos soldados ou simplesmente reproduzir o que se esperaria desse tipo de filme. Inclusive a última cena, perdida entre drama e humor, reforça esse caráter. Com um tom definido e maior lapidação, poderíamos ter uma interessante atualização do gênero.

Comentários (1)

Carlos Eduardo | sábado, 23 de Março de 2019 - 17:40 | Responder

Achei interessante o filme, praticamente um Tesouro de Sierra Madre repaginado por Mark Boal e Chandor. Concordo que é um pouco desequilibrado mas ainda acho acima da média.

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