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Pagamento Final, O

(Carlito's Way, 1993)
8,7
Média
602 votos
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Críticas

Cineplayers

O suspiro final do gângster no cinema

9,0

Na história recente do cinema policial, O Pagamento Final é um marco. Se foi pretendido ou não por De Palma, vá saber. Mas, assim que Carlito Brigante desliza em uma maca para sua a morte, temos a nítida impressão de que, junto com ele, caminham tantos outros anti-heróis fora-da-lei em rumo de um final inevitável. Em suma, todos os mafiosos e gângsteres vividos em priscas eras por ícones do cinema americano como Humphrey Bogart, James Cagney e Paul Muni – personagens tipicamente românticos protagonistas de dramas profundamente individuais, histórias de amor trágicas e esperanças frustradas de dias melhores.

Tal qual o protagonista Roy Earle em Seu Último Refúgio, de Raoul Walsh, o personagem de Al Pacino já tomou algumas porradas na vida que já haviam tornado a sua vivência a de um homem cínico, perdido entre a esperança de ser bem sucedido e a de sobreviver de um jeito minimamente humano em um mundo impiedoso. A escolha de ator já não poderia ser mais acertada, já que ele à época era responsável pela criação de dois personagens responsáveis por imprimir uma nova ótica nesse tipo de cinema – o implacável e frio destruído através dos anos Michael Corleone, da trilogia O Poderoso Chefão, e o totalmente vilanesco e seguidor de um código de ética pra lá de invidual e peculiar Tony Montana, na releitura de Brian para o clássico Scarface.

Como a maioria desses anti-heróis, Carlito também espera que um dia que os fantasmas do passado – que ainda estão vivos e com poder de fogo incomensurável – parem de persegui-lo. Como todos já sabemos, uma vã ilusão, pois é esse é o tipo de vida que uma vez escolhido predestina a pessoa. Prenunciando tal tipo de sensação desde o início o filme abre com uma fotografia roxa desfalecida e mortuária; como uma espécie de sépia invertido. Ao invés de objetivar lembranças, nostalgia e, enfim, pretérito, a opção pela fotografia é escolhida para um momento presente, conferindo um importante valor narrativo ao filme. Todo o passado se mostra nas vívidas cores tão típicas do cinema do diretor. A vida de Carlito Brigante, então, passa diante dos seus olhos, e o espectador é convidado a testemunhar o homem que, segundo ele mesmo, “brinca de Humphrey Bogart”.

E esse gângster clássico é confrontado a todo momento com uma nova geração, sádica e niilista – que só se importa com os lucros e caga e anda para a visão que o cinema americano erigiu sobre os criminosos –, figura esta encontrada no engomadinho e rancoroso Benny Blanco que, por mais que lhe falte a malícia e calculismo de seus antecessores, não lhe falta crueldade e passionalismo para cometer qualquer absurdo que seja necessário. Como o próprio Carlito considera a certo ponto do filme, “Mi barrio ya no existe”. Pária de um mundo onde já foi rei, mas expatriado durante tantos anos do mesmo, tornou-se pouco além  de um velho coiote sem vigor para disputar carne com lobos.

Dito isto, é de se entender a grande dimensão do filme, a câmera viajante e deslizante de Brian e a desconstrução contínua da figura clássica desde a primeira lembrança filmada: são os últimos suspiros de um cinema que decaiu, foi substituído e, anos depois, foi novamente analisado pelos sucessores, seja matando o estereótipo clássico de bandido transformando-o em uma figura escrota em Scarface, seja fazendo um filme policial ao contrário em Os Intocáveis – mostrando a ascensão e declínio dos agentes da lei ao invés de Al Capone, e mostrando que eles seguem a lei mesmo sem concordar com ela (como quando Elliott Ness declara, quando a Lei Seca pela qual batalhou e arriscou para que continuasse predominante acaba, que vai tomar um copo, agora que era legalizada novamente).

A partir disso, o filme fecha a tampa do caixão abrindo espaço para bandidos contemporâneos desprovidos de grandes ideais, dramas ou amores, apenas, como diria Frank White no clássico underground de Abel Ferrara O Rei de Nova York, “simples negociantes”. A não ser com propósitos revisionistas, esta talvez tenha sido a última vez
que esse tipo de bandido seria levado às telas. Pela última vez, o bandido memorável tentaria escapar de si mesmo e falharia; pela última vez morreria nos braços da amada; e mais uma vez, dias melhores não viriam.

Em O Pagamento Final, De Palma reverencia e se despede de uma fileira de gerações antecedentes; e abraça e abre alas para o policial moderno, transformando o inconsciente coletivo cinematográfico definitivamente – e mais uma vez.

Comentários (1)

Gabriel Queiroz | sábado, 10 de Outubro de 2020 - 13:34

Trairagem em cima de trairagem. O "romântico" e calculista Carlito é o oposto do escroto e descontrolado Tony Montana.

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