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Pânico

(Scream, 2022)
6,3
Média
50 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O limite de reaproveitamento de uma fórmula de sucesso

4,0

Já estamos em um momento em que a distância dos anos é o suficiente para colocar Pânico (Scream, 1996) em um lugar canônico na história do cinema de horror, tendo gerado uma franquia que modernizou e redefiniu os moldes do chamado slasher, dando novo fôlego e reapresentando as tradições do gênero para uma nova geração já não tão familiarizada com clássicos como Halloween - A Noite do Terror (Halloween, 1978). O interessante é como suas sequências ao mesmo tempo se moldaram às mudanças geracionais e foram mantendo bom diálogo com o público jovem, de maneira a preservar alguns legados, modernizar outros e até mesmo criar seus próprios. Seu aparente encerramento há mais de uma década, com Pânico 4 (Scream 4, 2011), lidava com temas já muito diferentes daqueles dos anos 1990 e ainda assim equilibrava por outro lado uma identidade muito forte da franquia. Reavivar essa história e esses personagens para a geração Z vem como um próximo passo natural dentro dessa tradição que vem mantendo, dessa vez na intenção de um híbrido de reboot com continuação; não como Pânico 5, como era de se esperar, mas sim zerado como homônimo do original de 1996 – apenas Pânico (Scream, 2022).

O receio maior está na ausência de Wes Craven, diretor genial dos 4 filmes anteriores, que, junto do roteirista Kevin Williamson, deu uma identidade visual e temática muito forte à franquia. Falecido em 2015, Craven é um desses nomes que fazem falta no cinema de terror. Williamson, por sua vez, é parte tão importante quanto ele, tanto que sua ausência no terceiro filme é muito sentida. No atual Pânico, pela primeira vez, nenhum dos dois criadores originais está diretamente envolvido – embora ativo na produção executiva, Williamson teve pouca participação na criação do enredo. Quem assume a responsabilidade são dois diretores menos conhecidos, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que não por acaso são fãs da franquia. Reside aqui nessa escalação o maior problema: Se Pânico 3 (Scream 3, 2000) já funcionava muito deficiente na falta de um de seus pais, o Pânico de 2022 se parece um filho abandonado aos cuidados de um irmão mais velho irresponsável e desatento. Ainda que seja injusto esperar uma direção nível Wes Craven, um mínimo poderia vir de alguma dupla mais talentosa.

Arrisco sugerir que a proximidade quase idólatra de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett com os filmes anteriores seja o maior dos problemas, pois Pânico soa o tempo todo como uma fanfiction – aquele tipo de narrativa criada por fãs baseada em histórias já existentes, geralmente contaminada pelas preferências subjetivas e algo forçadas de um criador reverente que age muito mais pela nostalgia e diversão de manipular seus personagens preferidos do que dentro de uma lógica mais objetiva e funcional. Dessa forma, o novo episódio dessa franquia soa quase o tempo todo como uma brincadeira espertinha e com algumas boas sacadas, mas jamais escapa da sombra dos antecessores, uma vez que lhe falta brilho e energia próprios. Tudo soa pasteurizado, sem identidade e sem a mesma destreza de uma mente realmente criativa e original.

Pânico sempre tratou da relação do jovem com o novo, do conflito geracional, da tragédia de uma geração servir de piada para a próxima, de modo que sempre foi muito engraçado e interessante assistir as reflexões de Craven e Williamson sobre como o cinema de gênero tem esse poder de comunicação com as massas e como sua reciclagem o mantém popular e atemporal. A metalinguagem que empregavam englobava o ato de criar, a irreverência de reciclar, a picaretagem de sempre contar a mesma história com os mesmos clichês dentro de uma nova roupagem capaz de atrair novos públicos. Bettinelli-Olpin e Gillett até tentam emular isso, trazendo para a roda discussões interessantes, como a onda de críticos que aclamam o tal do pós-horror, ou aquele tipo de terror mais sofisticado que alguns confundem como sendo necessariamente superior ao terror de gênero tradicional, ou a eterna questão dos reboots e refilmagens que tanto desgastam a imagem e conceito de títulos famosos (como os próprios fazem neste filme). Ainda que sejam temas válidos, o simples fato de colocá-los em pauta não significa um bom desenvolvimento e em pouco tempo são esquecidos pelo roteiro.

É impossível não se frustrar com a falta de aproveitamento de tantas situações. Citando apenas um exemplo, a franquia Pânico sempre se destacou pelas perseguições de Ghostface. Mais do que as mortes em si, as fugas das vítimas inspiravam Craven em vários malabarismos técnicos e inteligentes aproveitamentos de espaços e movimentos, em um insano e bem orquestrado jogo de pique-esconde. Craven entendia que a tensão não reside na morte em si, mas em tudo que é construído antes de ela finalmente chegar – o medo se mantém enquanto a vítima permanece viva, e o timing para matá-la deve ser exato e bem alinhado com o clímax visual da cena. Indo na contramão disso, as mortes desse novo Pânico são metódicas, sem inspiração e quase nunca precedidas de algum bom momento de perseguição ou diálogo metalinguístico ao telefone. Além disso, o grupo de personagens – tanto novos quanto os originais – não inspira qualquer empatia. Se parte do charme da franquia sempre foram os coadjuvantes memoráveis – Randy Meeks, Gale Weathers, Dewey Riley, Kirby Reed, Judy Hicks, Billy Loomis, Tatum Riley, Cotton Weary, Jill Roberts, Stu Macher, Jennifer Jolie, Cici Cooper, Casey Becker – aqui nenhum se destaca e o público tampouco se comove com suas mortes. Nem mesmo a eterna protagonista Sidney Prescott é valorizada.

Pânico (2022) mira em reascender a chama da franquia, numa passagem de coroa do trio original para uma nova geração de protagonistas, mas acaba acertando na conclusão de que mesmo algumas fórmulas bem-sucedidas parecem ter um limite máximo de aproveitamento. Se a metalinguagem aplicada por Craven e Williamson ao longo dos anos sempre surpreendeu ao se manter interessante, divertida e moderna, aqui ela retorna cansada, derivativa e pouco empolgante. O terror comercial no cinema americano vive na base de criar algo minimamente diferente e aproveitar isso até o tutano, até o público perder o interesse – seja em um único filme, seja ao longo de uma franquia que consiga se manter por décadas. Mas o momento de esgotamento sempre chega. Talvez seja mais válido para a dupla Bettinelli-Olpin e Gillett reconhecer que a melhor forma de se honrar o legado de Pânico seja deixando-o descansar em paz ao lado de Wes Craven.

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