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Críticas

Cineplayers

Refletindo uma lembrança de cinema.

8,5

Há várias maneiras de um cinema prestar homenagem a outro cinema. Muitas vezes, o que é trazido de outras escolas e movimentos diversos nem é tão consciente, como o próprio material de inspiração poderia não ser. O cinema não se separa espontaneamente em grupos e épocas e depois volta a eles como parte de um processo mecânico, quem faz isso é a crítica.

Estamos o tempo todo cercado de textos sobre como Sniper Americano, de Clint Eastwood, ou os filmes de Todd Haynes, que compete no Festival de Cannes 2015 com Carol, trazem de volta o cinema clássico americano. E é muito doce perceber num filme pequeno como o de Gregg Araki um honesto resgate do drama, do exagero e da cor da Hollywood em crise de 1950.

Pássaro Branco na Nevasca não é Longe do Paraíso. Não traz de volta Douglas Sirk como um capricho cinéfilo (sempre bem-vindo), mas antes compartilha de uma linguagem da época que talvez esteja até mais clara nos filmes “ruins” de então. Lembra pérolas como Mulher Maldita e Depois da Tormenta, que foram desaparecendo da memória coletiva, mas ainda com um toque da tradição coming of age da década de 1980, jogando um olhar de afeto e melancolia para a classe média suburbana.

Esse encontro é organizado muito delicadamente pelo filme de Araki. Está na trilha sonora saudosista, de New Order, Depeche Mode, Talk Talk e The Cure (esse compromisso com certo “resgate musical” é um traço de estilo muito forte no cinema adolescente de época que tem feito sucesso nos últimos anos, como As Vantagens de Ser Invisível), no lirismo visual dos sonhos e na dor dos personagens.

O filme se sustenta esteticamente num espaço perdido entre a geração de Eve (Eva Green) e a de Kat (Shailene Woodley). Mãe e filha, sendo que a primeira, com exceção de uma cena final atrapalhada, só existe quando lembrada, imaginada e sonhada pela segunda. Pássaro Branco na Nevasca é uma adaptação do romance de Laura Kasischke, mas Araki consegue fazê-lo um filme de memória, de uma adolescência gay que contempla distante e temerosa o boom da AIDS, assim como é seu filme mais aclamado, a também adaptação Mistérios da Carne.

Como a existência real de Eve já não é mais possível devido a seu desaparecimento, só resta à personagem ser representada na memória de Kat e no filme de Araki. Eve, como o tempo do qual faz parte, passou, e agora essas são suas únicas possibilidades de existência. Em breve, nem a memória restará, só a representação. É a partir dela que se sustenta a atuação de Green e Woodley. Nenhuma das duas viveu suas personagens ou o momento delas, mas o cinema cerca-as de imagens que permitem construí-las.

A boneca russa de representações é inerente a qualquer narrativa de época, tendo mais camadas quanto maior a distância entre o tempo real e a menção feita a ele. Em Pássaro Branco na Nevasca, no entanto, há um curioso conflito entre as imagens resgatadas. Assim, eis que, entrecortando a construção de cena oitentista e a partir da memória da Molly Ringwald interpretada por Woodley está a Jane Wyman de Green: o exagero, as caras e bocas há muito rejeitadas por Hollywood como overacting. E, ainda, como cenário para a personagem, Kat e Araki constroem uma trama de melodrama noir sobre o marido reprimido e a esposa insatisfeita. São dois filmes em um. Duas referências dentro de uma cronologia que nenhuma autoridade tem sobre a lembrança do cinema como uma entidade maior e conjunta.

O título do filme evoca a imagem de uma imensidão branca. O vazio, no entanto, nunca é parte dele. Pássaro Branco na Nevasca é cheio de ideias, imagens e sons dramaticamente ativos. Talvez, então, o nome tenha a intenção de falar menos da cor e mais da não distinção de um sujeito em relação a seu ambiente ou talvez não tenha intenção alguma, apenas seja essa imagem branca no início do filme e, no fim, o reflexo de todas as cores.

Comentários (1)

Francisco Bandeira | terça-feira, 02 de Junho de 2015 - 18:58 | Responder

Espero que sim. Apesar de achar a Lawrence talentosa (e é sim, independente de Oscar), a Woodley vem seguindo uma carreira bem sólida, mesmo em filmes ruins é elogiada (tipo esse, que só dei um 7.0 por conta dela e da Eva Green).

Em The Spectacular Now, ela está simplesmente perfeita. Além de ter outras duas belas atrizes lá que também são bem esquecidas: Brie Larson e Mary Elizabeth Winstead.

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