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Perversão - Estupro!

(Perversão - Estupro!, 1979)
5,5
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Críticas

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Gambiarra sincera e perversa dum exploitation brega.

8,0

“A Sílvia não é mais aquela.

Arrancaram a teta dela”

Ordinários da rua.

Agora temos um exploitation vingançoso do Zé do Caixão José Mojica Marins. Versa sobre a farra duma classe abastada e seus excessos. Captados por alguns maneirismos usuais desse diretor. Fazendo desta parada uma obra desconjuntada, estranha, apelativa e curiosa. E com singular vingança surpresa por trás dos esculachos que o filme inventa. E tome bebida e erotismo barato.

Silvia passando mal e, ao se aproveitar dela, o que dizes? “Beba Silvia, beba. ”

A farra da alta-roda com direito ao protagonista fela da gaita do Comendador Vitório Palestrina, que curte as festas regadas a whisky em copo de goiabada. A nata social da aristocracia fajuta, tal qual uma classe abjeta e grotesca, tem no próprio comendador sua representatividade suja e visceral. Mojica não é cara de conversa mole e nem de fuleiragens delicadas, e aqui a parada segue o mesmo esquema escroto. Busca impor seus personagens de maneira primitiva mesmo. É o esquema de ação dele. Aquilo que sabia fazer. O seu protagonista é um hedonista miserável e abusador das mulheres? Sim. Então o cara guarda o mamilo arrancado na marra – numa noite de volúpia em que ele ataca uma incauta e mutila seu peito –  e mostra a uma plateia a aplaudi-lo. O animal sujismundo é o maldito mesmo. É a forma do mestre Zé demonstrar o caráter abjeto da figura. Nos faz ter asco do cara. No mais absoluto exagero existencialista. A grossura dum exploitation do Zé.

E o mamilo mostrado como troféu? “É o sinal da evolução do mundo.”

Montagem bruta e sem organicidade. Com alguns jumpcuts. Neste caso se denota a falta de planos de composição da produção mediante seu orçamento tampinha e problemas internos outros. Mas dentro daquilo que podia fazer aqui, Mojica aposta no seu habitual alopramento das relações e criações de cenas em festejos e putarias. Estas sempre com um tom de auto-importância porco expelido por aquela turba dos detestáveis. A aspereza da montagem acaba por corroborar despropositadamente com a falta de brandura do roteiro seboso e na maledicência dos seus tipos. Cheios das certezas absolutas e absurdas que vomitam e resvalam no repugnante a todo instante. Mas hilariantes é claro. O riso de nervoso. E sem jamais soltarem os copos de requeijão, obviamente.

E o herói? “Eu não sou desumano. Pensei até em oferecer uma ajuda à mãe da moça.”

E o estilo de imagem da fita do chefe? Remete aos planos fechados de sempre em sua filmografia. Sem o brilho e a audácia no trato genial das obras anteriores, é verdade, mas ainda na intencionalidade do choque. Mesmo nas escolhas e práticas bagaceiras. Uma delas é a visão escabrosa da mão com longas unhas do comendador a perambular pelas bundas femininas. Isto traz o velho Mojica de volta. O horror à espreita. Grosso modo, sua objetividade se agarra na perturbação do seu protagonista, o mostrando em auges esculhambatórios. Por isso os planos de câmera o cobrem de bebidas e closes dum rosto a gargalhar permanentemente. O mostra como centro das atenções. Um microcosmo daquela raça de carniças.

Dica para uma mulher após o sexo. “Ouça. Você quer um conselho? Para de choramingar.”

Música exagerada, com edição descompassada. Uma canção em cima da outra para ver se dá certo, e com escolhas de gosto asqueroso, quando não curiosas. Isto é joia. Atuações canhestras, canalhas e canastronas. Maravilha. Causa um efeito de breguice duma fidalguia glutona que vive a putariar na mais pura vagabundagem. As caras e bocas das peças envolvidas encaixam na proposta. Frases soltas por ignorantes afirmando que o dinheiro é tudo, e o resto que se lasque. E gargalham. Não deixa de ter sua verdade. Ora é um mundo absurdo pelo exagero, então desde quando o fino bem-ajambrado iria ser condição sine qua non para a permanência desta fita?

O assediador ficou impune? “Você ainda não entendeu que dinheiro é a mola mestra do mundo? ”

Zé trabalhava com o que tinha em mãos. Então se era elite ordinária que ele queria mostrar e, nas condições que dispunha, a teria com o agridoce sabor de personagens fuleiros. Onde o único objetivo deles era encher a tela com frases de efeito desconexas ou não (conectadas ao modo Mojica), e tomando Whisky em copo de geleia – Mojica lisão aqui. E tal coisa não deixa de fazer graça pelo tipo de elitização absurda e podre escolhida. No fim das contas a pobreza orçamentária deste negócio vislumbra um visual brega da aristocracia peba que encaixa perfeitamente – canalhice minha –  com o discurso dela.  Acidentalmente, o copo de goiabada teve o que dizer.

Mulher a proferir sobre outro bonitão. “Pode não ser coisa boa, mas é cheio da nota. ”

Aposta-se aqui no formulaico da boca do lixo para sobreviver. Simplicidade à primeira vista, e brutalidade devassa no resultado final. Sem roteiro do Luchetti, é bom lembrar, já que era habitual chapa nos escritos. A responsabilidade desse texto ficara a cargo do próprio diretor com diálogos de cena de seu filho Crounel Marins. Bem modificados na pós-produção, algo bem usual não só no cinema da boca, mas nos vários materiais do próprio Zé. Ele mesmo afirmava que haviam filmes que eram completamente modificados na montagem e dublagem. Ou seja, era uma parada em eterna construção e esculacho. Onde para se encaixar uma coerência interna mínima era necessário aloprar. As dificuldades de uma manufatura marginal.

E sobre o ataque – reiterando – aos mamilos? “Realmente não é um ato de moral...”

E o material fala do que Mojica conhece e daquilo nunca conheceu – comunidade do cinema e a elite. Mais um antagonismo. Involuntário? Programado? Como habitualmente, um cinema abusado por contraditórios dentro e fora da tela. Por isso diverte ver os absurdos proferidos pelos ricaços enquanto olham mamilos arrancados e tergiversam sobre futuras produções de cinema aqui e ali e dão pitacos estapafúrdios sobre sociedade e economia. O caricaturesco hilariante duns imorais desocupados, cujo objetivo é impactar e que venhamos a desprezá-los em direção ao que representa o miserável Comendador Vitorio Palestrina.  

Arranca mamilo de mulher e o que isso merece? “Este seu triunfo daria uma fita.”

A intelectualidade dos estribados é emulada onde o pós-farra vem seguido dum teatro. Como é esse negócio bicho? O teatro é visto como uma finura superior. Alta arte para a alta-roda. Principalmente por ser um espetáculo escravagista macabro e violento. Circo dos horrores. Mais uma faceta dos escrotinhos. Mesmo com alguns a reclamarem da pataquada, a peça é aplaudida. Os ricaços do Mojicão amam a violência – principalmente se for vilipendiando um outrem inferior na cabeça deles –  e como tal, permanecem com a cólera o tempo todo. Escrúpulo é um negócio que não usam. Apesar de terem bons corações, segundo eles próprios. Afirmam isto do Comendador.

O digno dos amigos. “É Vitorio, ninguém pode reclamar do seu senso de humanidade.”

Esta elite é tratada como entidade viva, escrota e orgânica. Preocupada no prazer de arrombar os outros. A base para o caminhar do comendador e sua trupe dos mentalmente famigerados-abastados. Mojica fresca até mesmo com sua silhueta. Expõe bem sua proeminente barriga conforme algo seboso a se verificar e acusar. Mais um elemento de nojo transmutado para seu monstro da elite, em mais uma escolha sagazmente bizarra da direção. Tudo em prol do destroço. É a frontalidade duma arte que existe pela força da aspereza. A intenção de uma mensagem passada a qualquer custo exige este esforço. Esse era o cinema do Mojicão da massa.

Alguns são críticos com o comendador. “Como ele é ridículo com aquela barriga.”

O romance bregoso com Verônica. No começo uma amiga, da parte dela. Ele quer abarcar. Vitório deixa a fêmea na faculdade. A câmera segue a mulher num zoom-in, demonstrando que vai dar mais atenção a esta figura em certo ponto da narrativa. Quem diabos é ela? Cursa medicina. Oportunamente, como seu final vai ensejar. Mais daqueles planos fechadões. Estes com caráter acusatório. A dona perguntando sobre hemorragias e a câmera se aproximando. A delicadeza do mestre é uma metralhadora para matar calangos. Serve para duas coisas. Causar desconfiança no expectador e manter a personagem mais forte para o flerte erótico que porventura viesse.

Uma pretendente fala. “Ela estava atrás do dinheiro dele. Recebeu o que merecia.”

Alongamento dos planos e sequências – festas e o maldito romance – para a busca do fechamento dum longa-metragem. Algo bem usual na segunda metade dos anos setenta do Mojica. Driblando a falta de roteiro e grana. O estiramento do todo explica tantas frases feitas e festividades quaisquer. Uma demonstração para a existência da falta de caráter das suas criaturas tanto quanto a vontade, e necessidade, em atingir os 90 minutos de metragem. Escapando e sobrevivendo pela gambiarra e gaiatice.

E a moça vai embora? “Vá pro inferno. Prostituta de circuito fechado da sociedade. ”  

Uma fita de perambulações românticas cafonas. Pelo visto o comendador gosta de ficar viçando e passeando – de carro e de pés – o tempo todo deslumbrado pela própria existência e de sua fortuna. E atrás de agarrar Verônica, pela qual se apaixonara. E com uns lances contraditórios maravilhosos nesse interim. Como o fato dele ser dispensado por Verônica enquanto uma música alegre toca ao fundo. Mas a extensão acentuada deste romance é o principal defeito da fita. Mesmo sabendo que a compridez existe para aumentar o impacto do final acachapante. É também a marotice em encher linguiça. O filme cansa. Onde antes havia a diversão do sarro duma elite absurdamente grossa e farsesca com toques violentos numa pura seboseira social, caminha para um romance fuleiro que se repete por demais. Até ali sabemos, a princípio, o que ambos querem, e a reincidência da coisa quebra o clima que se quer criar. Não evolui praticamente nada até o desfecho da obra. 

Vamos vangloriar o carniceiro? “Eu poderia fazer muito melhor. Traria os seios da moça inteiros até aqui.”

A mulher dispensa Vitorio. Quer porra nenhuma. O abrupto do cinema. E depois, de lapada, vai lá atrás do corno. A boa concupiscência soft porn. O erotismo reaparece. Voltam os peitos e bundas prometidos. Outro ponto bem oferecido pela boca do lixo. Com gosto. Sem tantos devaneios nos corpos. Sem muitos passeios. Mostrados naturalmente. Corpos em sedução. Mas aí vem o desenlace. Do nada, a mulher despiroca completamente no fim do terceiro ato. Algo a se desconfiar pelas negativas iniciais e o brusco tesão consequenciado. O mamilo da primeira vítima é usado a jeito de elemento tesudo para o encaixe final da putaria. A pedido de Verônica. O mongo do mal com a gata. No crescer do agarramento temos a música-hino da libidinagem. “Je t’aime... Moi non Plus ” do Serge Gainsbourg. Não poderia faltar esta pérola dos cabarés. Tudo pronto. Barraca armada. Armadilha armada. A perseguida da vingança.

E a arrancada de mamilo? Ela diz. “O caso me excita. ”

Vingança rápida. Duma vez. De lapada. De supetão. A navalhada no pinto do abestado. Merecido. Brutal. Flashbacks explicam – e embaçam de começo o ritmo – a relação de Verônica e a vítima da desmamilização. O que a motivou a planejar todo um simulacro que culminasse na facada peniana. Faz parte da surpresa. Clímax de planos reiterados ad infinitum na gritaria do comendador. Se sustenta. Final direto e grosso, fazendo mais do que jus ao que fora apresentado até ali. Antes prepara a galera e de certa forma os engabela, mesmo que a desconfiança esteja a perambular desde a sequência da faculdade, e apresenta o destino final de um estuprador e aproveitador canalha. Zé não brinca nem nos seus trabalhos menores. Bestialidade sempre na pista. Pinto cortado. Chocante, ótimo e divertido. Verônica suja de sangue e nua após sua vingança – cínica – e faz uma fralda no comendador Vitorio Palestrina, e ainda pergunta porque ele tanto grita. Ora marrapaz. Marréclaro. A delícia da frieza feminina.

Ela, afinal, pega o telefone. “Alô? É do hospital? Preciso de uma ambulância.”

Comentários (1)

Gian Couto | domingo, 26 de Julho de 2020 - 16:20

Texto sensacional, parabéns. Só faltou mencionar os encontros da high society em churrascarias de beira de estrada. A cena final eu acho realmente muito boa e a fuleiragem do resto diverte demais.

Ted Rafael Araujo Nogueira | terça-feira, 28 de Julho de 2020 - 10:43

Valeu mestre. O exagero de breguice via escolhas e falta de verba serve bem direitinho à sujeirada que é esta elite do filme. Intencional e não, acaba compondo bem a esculhambação. A cena final é foda.

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