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Poço, O

(El Hoyo , 2019)
6,9
Média
158 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um bom apetite

7,0

Tem-se visto diversas manifestações de opinião sobre O Poço, filme que vem rendendo fervorosas discussões nas redes sociais com distintas interpretações, opondo detratores furiosos e fãs empolgados, entre teorias mirabolantes. Com certeza não estamos diante de uma obra-prima, mas não há vergonha alguma em admitir seus êxitos de produção e narrativos. Sendo uma realização da Netflix aberta a todos que acessam o streaming e ainda figurando em seu Top 10, é preciso ressaltar a coragem de jogar no colo do público, especialmente neste duro período de confinamento devido ao Coronavírus, um trabalho nada convencional que exigirá um pouco mais de atenção sobre suas discussões. E talvez um remédio para náuseas.

Certamente é pretensioso como qualquer ideia autoral pode parecer ser. O fato é que o diretor estreante em longas, Galder Gaztelu-Urrutia, se apropriou muito bem de seu conteúdo e construiu uma situação extrema, jogando seus personagens em uma prisão, dando a eles um único objeto para levar e uma única companhia – talvez a pior coisa que ele pudesse oferecer.

A geografia distópica do local: os prisioneiros ficam em um espaço minimalista, alto e estreito. No centro, uma fenda vertical que se estende até incontáveis níveis. Em certo instante, uma plataforma ascensora plana desce com um banquete, parando em um curto espaço de tempo em cada andar para que a dupla residente se alimente. Conforme desce, o alimento vai desaparecendo, rendendo poucas migalhas aos ocupantes dos andares inferiores. Mês a mês, a dupla troca de “cela”, torcendo para estarem entre as com pelo menos dois dígitos.

A medida que avança, seguimos a relação de Goreng (o bom ator Ivan Massagué, que manifesta variadas emoções aqui) com aquele local, expondo seu ponto de vista e depreciado pelas observações sobre mudanças de hábitos e desigualdade. Ele critica as relações constituídas ali e como cada ocupante da imensa prisão lida um com o outro. Com a experiência, o altruísmo desvanece, mas a ideia persevera e se mantém ao longo de todo o tempo. Tem quem traduza essa linha como esperança. Não se trata de um plano de fuga, mas de sobrevivência coletiva, de paridade entre os condenados. Há quem possa recordar de Cubo (1997) – o cárcere incomum e a coletividade –, já outros lembrarão de Oldboy (2003) – o gás sonífero, o indivíduo e a punição. Goreng resiste ao caos, mas e quando a fome castigar? O que será do outro?

Daí, uma série de conflitos que perpassa filosofia de botequim até importantes discussões morais, despertando interesse de profissionais da área de humanas, sobretudo no campo da psicologia. Afinal, quando possível, vai do espectador tirar o que de melhor a obra oferece. As situações dramáticas e de horror radical metaforizam relações políticas e sociais, armando o filme com a obviedade dos fatos: o desequilíbrio entre as classes. Para além da história, alguém pode lembrar da Bíblia, de Dom Quixote, de Capitalismo ou Comunismo, sem que necessariamente estejam errados. Aparentemente o filme sobrevive bem após os créditos finais.

Enquanto cinema, o visual é singular e instigante, com o desenho de produção conveniente a sensação de clausura, e a arte mínima tornando o contexto simples, levando a atenção do espectador aos dilemas tratados nos diálogos e ações de cada um dos obscuros personagens. Já a dramaturgia é definitivamente pobre e o roteiro não é tão bem estruturado. O que nos mantém presos ao sofá são as condições propostas pelos roteiristas, que geram fáceis assimilações até o ponto que extrapolam as obviedades proferidas por um insistente personagem: óbvio, como a fome ou como a morte.  

O sexo. O sangue. A carne. Um bom apetite.
Elucidações pouco interessam.
O meio justifica o fim.
O espectador que se resolva com o finalmente. O cinema tem disso.  

Comentários (3)

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 03 de Abril de 2020 - 22:33

Vale pelo interesse popular no processo. Ora, muitos filmes querem vender mais profundidade (supostamente) e ficam no limbo onde a academia debate o material e suas possíveis influências. Esse conseguiu expor a putaria toda e conseguir público. Esperteza da Netflix lançando agora. No mais, diverte pela ideia e por algum sadismo leve e cinismo, mas poderia ter ido mais fundo na sujeira. Mas aí o impacto em número poderia ser menor

Robson Oliveira | quinta-feira, 09 de Abril de 2020 - 22:56

Uma reflexão diferenciada, mas não menos real do caráter humano, que mesmo sendo apresentado de uma maneira bem agressiva, ainda sim é um resultado favorável. Confesso que não esperava muito, mas achei extremamente interessante o filme.

mateus silva | domingo, 12 de Abril de 2020 - 00:50

como grande fan do cinema alternativo fiquei muito feliz pela posposta, porem o filme é fraco não vi nada de inovador tive as mesmas impressões da visão social quando assisti expresso do amanha e diria que até mesmo em jogos vorazes.

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