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Pontes de Madison, As

(Bridges of Madison County, The, 1995)
8,3
Média
406 votos
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Sua nota

Críticas

Usuários

Razão e sensibilidade

9,0

A narrativa central de As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995) se desenrola de um ponto de partida que por si só já deixa evidente o caráter subjetivo e intimista que o diretor Clint Eastwood escolheu para contar seu romance: a leitura de uma carta. Após perderem a mãe, dois irmãos retornam à casa em que foram criados e se deparam com as memórias de um caso extraconjugal da matriarca registradas por escrito. Surpresos diante desse segredo e desse lado errante que jamais perceberam nela, resta a eles enxergar o mundo pelos olhos de uma dona de casa que um dia se descobriu apaixonada por outro homem.

Se sempre foi próprio do cinema de Eastwood o retrato das instituições de formação da identidade político-social da América, aqui ele repousa o olhar sobre a ideia do casamento, a base familiar e seio de sustentação da sociedade e civilização. E ao mesmo tempo em que trata as fragilidades do tema, não o faz o com um intuito cínico ou subversivo de expor hipocrisias, mas sim com o carinho e a desilusão de quem de fato acredita na tradição da família e lamenta quando ela é ameaçada. O amor que nasce tão natural e fácil entre Francesca (Meryl Streep) e o fotógrafo Robert Kincaid (Clint Eastwood) não vem carregado de lascívia, luxúria, malícia, como muitas vezes o adultério costuma ser tratado, mas sim como um sentimento muito límpido, primitivo, incontrolável e, de uma maneira muito particular, inocente.

Eastwood parte de um princípio que rege os maiores romances e melodramas do cinema, que veio de David Lean e Douglas Sirk, em filmes como Desencanto (Brief Encounter, 1945) e Tudo que o Céu Permite (All That Heaven Allows, 1955), e que foi adotado e verbalizado em tantos trabalhos de outros aprendizes, como Woody Allen: só um amor incompleto pode ser romântico. A ideia-base dos grandes romances é o seu caráter inatingível, no topo do pedestal das ilusões que estão além da possibilidade de alcance dos personagens apaixonados. A começar pela própria configuração familiar na qual se encontra a personagem de Meryl Streep (em seu melhor papel e desempenho): uma típica dona de casa, que cumpre o papel de mãe de família e esposa, mas que raramente é enxergada como alguém ainda capaz de romper esse arquétipo, ou como alguém capaz de já na meia idade ousar olhar para outro homem, se deixar levar pelo coração e não pela razão.

Ao mesmo tempo em que abraça essa raiz sofrida do melodrama rasgado, Eastwood é um cineasta de detalhes, de sutilezas, que refletem sua personalidade impávida, porém repleta de sentimentalismos. São as pequenezas que formam juntas a grandeza de As Pontes de Madison, os olhares se encontrando por acaso, as palavras que Francesca engole, mas que ficam tão evidentes em sua postura, o momento em que ela distraidamente ajeita o colarinho da camisa dele enquanto fala ao telefone, sem se aperceber da intimidade matrimonial do gesto, o plano-sequência que a persegue pelos corredores da casa atrás do carro dele, tarde demais para alcança-lo, ou a chuva que reflete as lágrimas que ela não pode derramar quando está ao lado do marido e avista Robert pela última vez.

Injustamente criticado, o núcleo dos filhos oferece uma perspectiva moderna na visão de outras gerações sobre a tradição da família: passa a ideia de ciclos que se repetem e reforça, nas montagens paralelas, o idílio isolado do mundo que Francesca e Robert mantiveram durante aqueles quatro dias perdidos no tempo, assim como assimila a percepção feminina e masculina sobre a infidelidade da mãe. Enquanto a filha, também em crise conjugal, se mostra capaz de compreender a mãe, o filho questiona a honra maculada do pai e da família. O julgamento já não preocupa mais Francesca no fim de sua vida e a mesma reconhece que, embora não possa ter realizado seus sonhos, se reconforta em ao menos poder tê-los. Clint conclui sua obra-prima avaliando o casamento, a família, seus laços inquebrantáveis, mas também reconhecendo a individualidade dos membros que a formam para além do papel que desempenham, seus sentimentos, seus sonhos, suas culpas, sua inadequações e as memórias da vida que tiveram e da vida que poderiam/desejaram ter vivido.

Comentários (4)

Augusto Barbosa | quarta-feira, 19 de Agosto de 2020 - 20:26

Que texto fantástico. Sucinto, direto, mira no maior alvo de críticas que o filme sofre para desdobrar a análise e dialoga com o resto da obra de Clint e suas preocupações temáticas. Um dos melhores do site e o meu preferido sobre o filme. Parabéns, 'Tor!

Heitor Romero | quinta-feira, 20 de Agosto de 2020 - 15:03

Obrigado, meninos ♥

Silvio Pilau | segunda-feira, 24 de Agosto de 2020 - 15:53

Belo texto. Mas aquelas cenas com os filhos...

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