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Praias de Agnès, As

(Plages d'Agnès, Les, 2008)
8,0
Média
40 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Fazer filmes e conversar com espelhos

10,0

Na primeira vez que vi As Praias de Agnès (2008), me senti sendo abraçada pelo filme. Talvez uma das sensações mais deliciosas do cinema é terminar um filme sentindo que alguma coisa dentro da gente acordou. Pois Agnès Varda sabe fazer isso como poucos.

Digo isso porque assistir a um filme de Varda é muitas vezes acompanhar o percurso de uma vida, de um trabalho e tudo que acontece ao redor disso. No caso de As Praias de Agnès, autobiografia e documentário elaboram um filme-ensaio sobre Varda, que conta pessoalmente desde peculiaridades que lhe instigam a sua trajetória de fotógrafa a cineasta.

As primeiras imagens do filme são numa praia, onde Varda inicia uma conversa direta com o espectador supondo que, caso abrissem as pessoas e encontrassem paisagens, ao abrirem ela encontrariam praias. A praia que define Varda é composta por um cenário onírico, ocupada por espelhos de todos os tipos, posicionados e ângulos diversos.

Os espelhos são aqui o lugar em que Varda se coloca neste filme: a reprodução do que foi capaz de capturar ao longo de toda vida. Conversar com seus espelhos é, portanto, o que elabora o percurso de As Praias de Agnès, que me parece uma declaração de amor sobre viver e fazer filmes.

Acompanhamos a cineasta contar sobre sentimentos e anseios de uma vida disposta a observar tudo e todos que lhe cruzam o caminho. Ao contar sobre si, o que vemos são outros rostos, pessoas com as quais trabalha e trabalhou, familiares, vizinhos, desconhecidos, animais de estimação, colegas de trabalho, lugares. Nestas apresentações, Varda deixa claro que falar de si é principalmente olhar para os outros, e talvez estas sejam suas grandes forças enquanto cineasta: observação e empatia.

Sua fala sobre a vida encontra o momento da produção dos seus diversos filmes feitos. La Pointe Courte (1955), Cléo das 5 à 7 (1962), Salut les Cubain (1964), Daguerreótipo (1976) e Os Renegados (1985) são apenas alguns dos muitos filmes citados. Ao relatar tais produções, é inevitável para Varda comentar suas motivações, circunstâncias da vida pessoal e resultados afetivos (muitas vezes inesperados) da feitura dos filmes.

Muito frequente nos filmes de Varda, o documentário em questão mistura imagens de arquivos, realidade e ficção. Esse encontro de opostos ocorre também quando trata com o mesmo afeto suas relações com amigos próximos e desconhecidos, o privado e o público, aquilo que fala sobre o particular e o coletivo.

Sob este aspecto, vemos uma Varda que toma a si como ponto de partida para o envolvimento com temas políticos (sem serem panfletários), presentes em muitos dos seus filmes. Trata-se, pois, de uma militância que diferencia, inclusive, os seus filmes dos colegas da Nouvelle Vague no mesmo período.

As Praias de Agnès é, portanto, a apresentação de uma trajetória, mas seu encanto se deve ao modo particular de fazer filme da cineasta. Varda desenvolve uma proximidade com o espectador ao lhe direcionar a palavra durante todo o filme. A espontaneidade acompanha tanto a sua fala quanto o modo de filmar, por vezes com câmeras digitais compactas, noutras intensificando a metalinguagem que acompanha As Praias de Agnès ao filmar aqueles que filmam e as cenas filmadas, além de explicar o modo como filmou cenas para filmes anteriores.

Talvez o grande encanto em ver As Praias de Agnès seja a doçura com que Varda fala sobre encontros, lugares, objetos, sensações e tudo aquilo que lhe compõe enquanto indivíduo. Se por um lado acompanhamos a produção da cineasta contada pela mesma, o que nos toca é seu modo de ver o mundo e de reconstruí-lo em filme com ternura e encanto.

Comentários (1)

Igor Guimarães | quarta-feira, 03 de Fevereiro de 2021 - 05:36

Lindo texto. Mandou bem Luiza! Esse filme é uma abertura. Mesmo que uma leitura de uma cineasta de sua própria obra, não há nem um grãozinho de soberba. O teu texto, tal qual o filme, leva-nos a essa paisagem.
Parabéns pela estreia!

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