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Prima Sofia, A

(Une fille facile, 2019)
6,5
Média
14 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Verão de descobertas

7,0

De Cannes, saem filmes bastante repercutidos, sobretudo aqueles premiados com a Palma. Mas o tradicionalíssimo festival também tem seus prêmios menores e consagra, às vezes com justiça, como com este filme da Zlotowski, longas menores, rodados com menos pompa. É o caso de A Prima Sofia, que chama atenção por um olhar bem preciso para os despertares da juventude. A cineasta francesa responsável pelo projeto carrega no olhar que joga sobre a adolescência um pouco de Ozon, Rohmer e até Woody Allen. Embora o resultado alcançado nunca iguale a potência máxima que esses cineastas já atingiram em suas filmografias, há um bom saldo.

Gosto como a diretora parte de um cenário solar para contar sua história. Embora os espaços aqui sejam inundados pela luz do sol em uma Cannes pitoresca, a protagonista passará por uma fase de aurora, em que a luz ainda não se exteriorizou. Para a personagem central, tudo à volta parece já amadurecido, já tomado pelos raios que a tudo iluminam, enquanto ela se sente ainda em “processo de”. De mudança, descobertas e desilusões. Afinal, acaba de completar 16 anos quando seu oposto chega para passar o verão. A tal Sofia. Sofia, ou aquela que irá tensionar a vida de Naima, a garota a desabrochar nesse microcosmos litorâneo concebido pela Zlotowski, de ricaços adultos, em busca do prazer com suas lanchas.

O texto, da própria Zlotowski, se acerta muito visualmente na primeira metade da narrativa, especialmente pela habilidade da diretora em decupar sequências como aquela noturna em que Naima e Sofia adentram a lancha de Andres. Ali, percebe-se a câmera captando o sutil muito bem. A sutileza no olhar de um garçom, na expressão do sócio de Andres e na reação de cada uma das primas. Uma com olhar mais deslumbrado e ao mesmo tempo admirado com a sensualidade da prima mais velha, outra com perspectiva mais maliciosa e sedutora.

Rebecca explora muito sua história, como se esta fosse de signos opostos, mas também objetivando o contraste entre a inocência e a experiência. Embora o trabalho não seja só sobre esses dois pólos, havendo tons de cinza nesse painel em preto em branco. A diretora até explora isso em rima visual, na sequência em que Naima tatua “carpe diem” em suas costas, imitando Sofia, o que revela o quanto Naima quer ser como sua prima. Naima, portanto, não é tão e somente inocente, vez que nela há um desejo ardente, por ora latente, mas louco para despertar.

A Prima Sofia, em síntese, é um filme sobre isso, sobre incêndios internos, que não se veem, mas se sentem. É sobre um espelhamento gradativo entre uma garota de 16 e uma de 22 ou, ao menos, sobre uma tentativa de se espelhar. Naima tenta copiar a desenvoltura que Sofia tem com os homens e tenta demonstrar a mesma sensualidade. Tenta ser como Sofia que, em um lindo diálogo filmado por Zlotowski, revela para Naima o quanto ela é mais de aventuras e sensações e menos de momentos românticos. Nessa mesma sequência, Sofia e Naima são ofendidas por homens na praia e Sofia dá de ombros, pra indignação de sua prima mais nova. A partir daí, vemos Naima tentando ser despreocupada, forte e entregue à carne como Sofia, mas falhando miseravelmente.

Zlotwoski então, certeira novamente, em outro momento bem decupado, entrega a cena de Naima sozinha com o personagem Philippe no barco, em que a garota tenta dar em cima do homem muito mais velho que ela na tentativa de ser o que sua projeção Sofia é, mas a ambição de Naima desmonta como a areia que ambienta o filme quando molhada.

O filme da diretora então se pauta nisso, nesse jogo de extremos da libido. E também no início de processo de fusão desses pontos distantes um do outro. É como se, naquele verão, Naima desse início a esse processo para se tornar mais uma mulher, dona de desejos ardentes, a fim de se aproximar de Sofia, e menos uma garota. “Quando eclode o prazer”, então, poderia ser o título deste filme, já que reflete o que nele acontece em termos de descobrimento dos prazeres corpóreos. Bem verdade que de maneira bem silenciosa e cadenciada, às vezes numa morosidade que irrita. É um filme, no entanto, em que Zlotwoski olha precisamente por uma lente bem cristalina as transformações, além das físicas, de uma mente ainda adolescente observando uma outra, adulta, em corpo voluptuoso. Porém, a diretora assim procede, nunca mostrando nas minúcias essa pequena jornada de Naima, tentando trilhar o caminho da prima. O pavio do eros nunca é aceso explicitamente no filme. Está aí o grande mérito de Zlotowski. Ela faz de seu filme uma combustão bem sutil e silenciosa de sentimentos, às vezes prejudicando o ritmo com o alongamento pra além do necessário de algumas cenas, mas consegue no todo ser contundente.

A cineasta nunca mostra Naima conseguindo atingir seu objetivo, consumando assim uma relação com outro homem, mas sim a sua constante e inicial inclinação pra ser uma mulher afeita ao prazer das relações, embora ainda com 16 anos. Sutilmente, Naima vai se transformando, sempre tendo como norte da bússola a figura-guia de Sofia, personagem que Zlotowski coloca como representativa de um grande ideal de liberdade e de mulher satisfeita, bem resolvida com o próprio corpo e que já tem todo o caminho das pedras para se envolver carnalmente com outro homem. Uma mulher livre, que se permite a prazeres momentâneos com os homens a seu redor, e que não se ilude com namoros movidos por uma empolgação platônica. Em suma, uma mulher, como mesma diz, de aventuras e sensações – o oposto de sua prima Naima. Zlotowski traduz isso através de uma agradável narrativa, que lentamente vai revelando tudo e que, embora não traga a mesma profundidade às personagens como no cinema de Rohmer, cineasta francês que trabalhara muito bem seus personagens através de ricos diálogos, e nem mesmo uma mise-en-scène mais uniforme, traz um jogo de opostos dos mais interessantes sob uma montagem e fotografia das mais condizentes e potencializadoras da proposta, capaz de refletir, pra muito além da superfície, sobre a passagem pra vida adulta em uma verão tão quente quanto o interior desses corpos que se abrem para o regozijo carnal.

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