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Princesa Prometida, A

(Princess Bride, The, 1987)
7,4
Média
133 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Reiner e o poder da narrativa nos contos de fada

6,0

O ato de contar histórias exige imaginação. O principal e mais básico requisito para tal tarefa é este, o de imaginar algo ou o que abrange este algo, como um universo. Rob Reiner o faz através de uma outra poderosa ferramenta, além da escrita e da oralidade, o cinema. Sua câmera começa por registrar um avô disposto a proceder com a leitura de um livro para seu neto. Nele, consta a história clássica dos idos medievais, com príncipes, princesas, monstros e lutas de espada. Os olhos do garoto lentamente vão ganhando brilho e logo ele está imerso na jornada, tal como nós, espectadores.

É um momento inicial que evidencia uma das coisas mais frescas e acertadas do filme, essa sua metalinguagem bem dosada. O narrar do personagem do avô dentro de um narrar ainda maior, o fílmico. Eis que aparecem as primeiras soluções imagéticas de Reiner, apresentando seus personagens, como se saltasse para dentro das páginas do livro, em uma ambientação bem solar e distinta de algumas ideias acerca da época, que pintavam-na como período de trevas. Reiner evoca bem, através de suas escolhas visuais – algumas já datadas, é verdade – tudo que se espera desse período medieval idealizado, onde tudo terminava bem, especialmente pelo beijo salvador. O amor a libertar, sobretudo quando materializado no encontro de lábios com uma trilha melódica ao fundo.

Essa é a tônica básica de A Princesa Prometida, filme que no geral nunca escorrega feio pra fora dessa sua redoma idílica. Reiner modula bem a inocência que permeia o filme e o contraste a ela a partir das figuras mais caricatas, visualizadas nos personagens Fezzik e Vizzini. O casting é, inclusive, certeiro na escolha do ator André Roussimoff, de 2,24 metros de altura. Ele sabe trabalhar a corporalidade como um legítimo gigante das histórias fantásticas, embora sua abordagem caricata eventualmente ultrapasse o limite do bom senso, acabando por irritar. Aliás, os coadjuvantes do filme e até um pouco o próprio Cary Elwes com seu Westley são ou inexpressivos, ou simplesmente chatos, com pouca função na trama.

As melhores passagens com as personagens secundárias passam pelos embates com espada, que são envoltos de uma caracterização até cafona, mas concomitantemente funcional e com diálogos bastante espirituosos, num verdadeiro duelo retórico com o qual o filme sabe brincar. As frases de efeito nesses momentos funcionam e nem mesmo a oscilante trilha de Mark Knopfler, que tem seus muitos momentos de vale e breguice quando falamos em qualidade, atrapalha. Por outras vezes, esse tom teatral na música e no tom geral de algumas falas dos personagens dão uma arrefecida na narrativa. Eles soam exagerados, mesmo dentro de um pacote que se propõe exacerbado nessa abordagem subversiva dos fairy tales, algo que Shrek faria muito bem – e até melhor – anos depois.

Até aprecio o filme abraçar essa caracterização da época e essa ironia aos tons solenes, aliada a uma simplicidade na condução de tudo (as coisas vão direto ao ponto), mas parece faltar uma melhor tecitura no geral. Momentos isolados, como as lutas e o contracenar da princesa Buttercup com Westley, tudo flui, mas em grande parte a narrativa se perde em momentos de correria, com os dois se encontrando e logo se desencontrando novamente. O longa acaba se perdendo e cai em ritmo quebrado quando passa, em seu miolo, pelas sequências da Gruta do Desespero ou do pântano de fogo.

E nesse ir de A para B, alguns entram e saem de cena sem a devida profundidade, como o Príncipe Humperdinck e Inigo Montoya (do ator Mandy Patinkin), personagem cheio de frases de pompa que busca vingança contra um homem de seis dedos que lhe tirou um ente querido. O ritmo do filme consequentemente patina em sua metade final, quando justamente esses personagens sem tanto estofo ganham destaque, ofuscando o que há de mais aprazível na história, que é Westley e Buttercup, tão e somente esses dois. Essa dinâmica deles, entre o mocinho e a mocinha indefesa, da busca de um pelo outro, funciona quando a jornada é menos histriônica e mais sentimental. Inclusive, o tom geral, meio que de galhofa, não cola muito comigo. Tenta-se algo próximo do que Monty Python fazia, mas não se obtém algo sequer rente à força que o grupo britânico obtivera.

Entendo que os exageros fazem parte do “pacote fábula” proposto, mas às vezes eles ultrapassam essa própria embalagem e nem mais aceitos como próprios de um “era uma vez” eles são, por não soarem genuínos dentro da proposta. Entretanto, mesmo com uma tosquice aqui e ali e com uma narrativa que nitidamente empalideceu de 87 pra cá – o desgaste é visível - alguns clichês trabalhados por Rob Reiner simplesmente não perderam o pique, por serem basicamente irresistíveis e resistentes à prova dos anos. Difícil não se encantar com cavaleiros, castelos, criaturas fantásticas e piratas. Não é como se esses elementos fossem indiferentes ao imaginário de cada um de nós. Eles são próprios de uma memória afetiva que não deve ser relegada. Reiner entende esse espírito aqui e no macro do filme consegue imprimí-lo, ainda que superficialmente e em um tom de comédia sem graça que só empobrece e raramente refresca o longa. O refinamento no texto e nas piadas é pouco sentido.

Fica num algo aborrecido, tal como a fotografia que, mesmo pra época, me parece um pouco aquém. E embora numa odisseia de ritmo bastante oscilante, é a partir desses elementos próprios do gênero fantástico, alguns deles já com as marcas do tempo, que o trabalho de diretor se desenvolve. A narrativa, bastante trôpega, creio que resista, muito pelo batente da força visual e imaginativa desses elementos. Por si só eles engajam, de tão estabelecidos em filmes como o próprio A História Sem Fim, de Wolfgang Petersen e da mesma década de A Princesa Prometida. É bater o olho nesses elementos de conto de fada e o engajamento é natural. Decerto aquele a assistir pela primeira vez ao filme se sentirá criança por alguns minutos, e isso é sim um mérito de Reiner, que desperta a sensação por sua decupagem que até certo ponto é acima da média.

A Princesa Prometida, no entanto, está longe da alcunha de grande filme que muitos insistem em utilizar com base em uma memória de Sessão da Tarde. Tem suas defasagens narrativas e imagéticas (alguns cenários, especialmente, mostram-se de uma direção de arte pobre, por exemplo), mas seu apelo-mor, o do amor que permanece, esse não desbota nunca. A narrativa não perde de vista esse sentimento que urge. A mensagem é clara, seja você Buttercup, seja você Westley. A paixão que é genuína atravessa montanhas e não sucumbe jamais, nem mesmo à rajada de fogo do mais poderoso dragão.

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