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Punhos de Campeão

(The Set-Up, 1949)
8,2
Média
32 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A perspicácia de Wise

9,0

Robert Wise deve ser um dos diretores mais subestimados na história do cinema estadunidense. Uma figura de habilidade notável, mas que não se encaixa nas expectativas limitadas da teoria do autor, o cineasta apresenta uma filmografia impressionante, ainda que discreta, da qual se destaca possivelmente sua única obra canônica, A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965). É verdade que Wise consegue desaparecer no mundo de seus filmes, nas exigências formais e nas construções temáticas de cada gênero cinematográfico com que se envolveu, entregando inclusive uma das mais fiéis e dignas adaptações de Jornada nas Estrelas para o cinema até hoje. Mas aqui falo de um filme que passa mais despercebido por dentro dessa filmografia e ainda um dos mais originais de seu gênero, Punhos de Campeão (The Set-up, 1949).

Um drama de lutador, Punhos de Campeão se apresenta como um ponto fora da curva do melodrama hollywoodiano desde a sua estrutura, organizada em torno de uma noite na vida de seus dois principais personagens. Bill Thompson, ou Stoker, (Robert Ryan), é um boxeador de 35 anos que tem perdido uma sequência de lutas quando seu empresário, sem combinar com ele, negocia a sua derrota no próximo ringue. E Julie (Audrey Totter) é a esposa de Bill, que já não suporta assistir às sofridas derrotas do marido e clama para que ele se aposente. O que o texto e a direção fazem com esses dois personagens típicos, no entanto, escapa à familiaridade dessa narrativa.

Nessa única noite que vislumbramos dos personagens, muito do tempo narrativo que o filme organiza é um tempo de espera. Bill espera a sua luta, e Julie, que se recusa a comparecer, espera o retorno de Bill. Existe uma aceitação do tempo aqui que não é comum para o cinema clássico estadunidense. A maior parte das cenas consiste de interações fragmentadas no vestiário dos lutadores, personagens entram e saem daquela sala, e nosso protagonista é particularmente silencioso por todo esse processo. E talvez seja até mais surpreendente a jornada de Julie, que perambula silenciosa pelas ruas ainda muitos anos antes das caminhadas sem rumo de Jeanne Moreau no cinema moderno europeu de filmes como Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud, 1958) e A Noite (La Notte, 1961).

Essas duas jornadas, esses dois processos paralelos de espera, são articulados para construir uma permanente sensação de melancolia através do filme. Mesmo a cena da luta, quando ela finalmente acontece, não poderia muito bem ser descrita como uma sequência de ação. Naquele ringue, no impacto entre dois corpos, nós descobrimos um personagem contemplando o próprio envelhecimento. Até mesmo a sua vitória não produz tanto uma sensação de glória quanto de uma aceitação. E a traição que se segue expõe novamente o personagem à fragilidade e precariedade daquela vida.

O drama de lutador tende a se formular como um melodrama masculino ou um melodrama sobre a masculinidade, isso não é novo. Mas enquanto a maior parte dos filmes do gênero busca por uma sensibilidade oculta em um espaço de brutalidade, Punhos de Campeão recusa essa procura. Os personagens sabem o que aquele universo reserva para eles, e não há nada de muito positivo pra se tirar disso além do dinheiro e da sobrevivência por si mesma. Este não é um filme sobre um lutador e sua honra, mas sobre a precariedade, o envelhecimento e o medo.

Robert Wise pode ter sido um diretor que nos deixou muito pouco como “autor”, mas a sua compreensão do cinema, dos gêneros, dos dramas e das formulações internas de cada narrativa nos deixa uma série de belos filmes e composições habilidosas. É preciso uma dada medida de perspicácia para subverter um gênero enquanto articula uma narrativa dentro de sua fórmula, para sugerir com sutileza uma estrutura até então raramente vista dentro do sistema de estúdios. E esta, aqui e em outros filmes, é a perspicácia de Wise.

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