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Críticas

Cineplayers

Efeito sem causa.

7,5

Em Trabalhar Cansa (idem, 2011), o diretor paulistano Marcos Dutra realizou a complicada tarefa de transitar em tempo integral em uma zona obscura e abstrata que intermeia a realidade e a fantasia. É aquele terreno transitório onde é possível reconhecer as estruturas da realidade e ao mesmo tempo se perder em meio a insights que indicam uma força oculta além de nossa compreensão carnal. Ao mesmo tempo em que traçava um retrato fiel e pé no chão da vida da classe média do brasileiro, ele se aventurava em um plano fantástico que contrastava bela e sutilmente com o tom realista da trama. O grande trunfo da obra, no fim das contas, foi conseguir se manter nesse meio sem hora ou outra se firmar nem para o lado da razão nem para o lado paranormal – um feito dificílimo.

E foi graças a essa primeira experiência bem sucedida que o diretor parece ter conseguido a confiança para encarar um filme complexo como seu novo Quando Eu Era Vivo (idem, 2014), baseado no romance de Lourenço Mutarelli, A Arte de Produzir Efeito Sem Causa. Se em Trabalhar Cansa a exploração do território extra-sensorial se mostra mais sutil, aqui há uma proximidade muito mais ampliada do horror. A trama gira em torno de Júnior (Marat Descartes), um homem desempregado e sem rumo que volta a morar com seu pai, Sênior (Antônio Fagundes), e desenvolve uma atração pela inquilina do prédio, Bruna (Sandy Leah), uma estudante de música que agora ocupa seu antigo quarto. Após encontrar objetos que pertenciam à sua mãe, como fitas de vídeo, Júnior mergulha em um espiral de lembranças e traumas e aos poucos vai perdendo a noção do delírio e da realidade.

O título do romance original sugere uma quebra na teoria de causa e efeito, propagada por algumas doutrinas que ensinam, resumidamente, que a reação vem a partir da ação, ou tudo que vai, volta. No caso de Quando Eu Era Vivo essa noção é rompida quando notamos que Júnior passa a sofrer assombrações e delírios (os efeitos) a partir do nada. Como se só uma constante da fórmula estivesse ativa, isso gera uma fenda não somente na teoria original, como na estrutura de realidade da obra, e nisso Dutra volta a transitar com eficiência naquela já mencionada zona morta, entre realidade e pesadelo.

Por ser um terreno de atmosfera sinistra e de uma textura inconsistente, os cenários e tempos parecem ganhar vida e se mutacionam, se mesclam, e já não sabemos, a certa altura do campeonato, se estamos diante da realidade, do sonho, do delírio, do presente ou do passado. Tudo o que nos é apresentado a princípio se dissolve em seu próprio eixo, para depois ir se redesenhando e ganhando um contorno familiar, porém de alguma forma diferente dos traços iniciais. Evoca as ideias de A Hora do Lobo (Vargtimmen, 1968), de Ingmar Bergman, principalmente no que diz respeito à ‘hora em que a maioria das pessoas morre, e a maioria nasce. Nesta hora, os pesadelos nos invadem...”.

E para construir essa atmosfera angustiante, o diretor recorre às velhas convenções do gênero de terror, que ainda funcionam quando bem aplicadas. O barulho de uma porta batendo, o uivo do vento entrando pela janela, um louco gritando na rua, a potencialização de pequenos sons cotidianos e banais, como o ranger da madeira indicando a aproximação lenta de algum estranho. Tudo colabora para a ideia de alguma ameaça, que jamais se materializa, pois o filme tem um pé no realismo que jamais o permite concretizar qualquer conceito fantasioso demais. Por outro lado, é essa veia realista que nos permite enxergar claramente as fissuras, fragilidades e enlaces íntimos nas relações dos personagens, mesmo aqueles que somente são mencionados (como a mãe).

A música ganhará uma atenção especial do diretor e justificará, a princípio, a controversa escalação de Sandy para o papel de Bruna. Mas não se deixem enganar por preconceitos bobos, pois a presença da cantora é peça essencial na engrenagem e uma das razões mais fortes para o resultado final extasiante da obra. Descartes segue como um dos atores (se não o principal) mais importantes do (bom) cinema nacional recente e salva o personagem de se tornar um lunático trash tão comum em composições para filmes desse estilo, enquanto Fagundes se encaixa  perfeitamente para a plena sintonia do trio.

Nada em especial merece o crédito de uma obra original, mas em algum lugar e em algum momento do filme nasce algo de muito intuitivo, forte e perene, embora não seja possível (pelo menos para mim) dizer exatamente o que é. Talvez seja parte do charme da obra de Marcos Dutra brincar com a nossa percepção assim como brinca com a lógica de seus protagonistas, e esse caos causado pela ruptura da ligação entre causa e efeito nos eleve também ao terreno das incertezas, onde nada nem ninguém é capaz de distinguir o que é real e o que não é.

Comentários (16)

Diogo Serafim | terça-feira, 04 de Fevereiro de 2014 - 23:58 | Responder

Ótimo filme. A atuação da Sandy em nada compromete o filme, arrisco concordar com o Heitor e exaltar a sua presença como uma das qualidades da obra.

Felipe Ishac | quarta-feira, 30 de Julho de 2014 - 03:46 | Responder

Sandy desqualifica a obra sim! O filme é bom mas tem cenas que da uma certa vergonha da atuação dela, principalmente quando ela começa a cantar. A cantoria final foi boa, mas porque ela estava acompanhada da voz do cara. A cena em que ela canta na mesa é ridícula!

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