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Críticas

Cineplayers

Vida real.

8,0

Digam o que quiserem, mas gostando ou não de Clube da Luta (Fight Club, 1999), o filme maldito e ao mesmo tempo mais popular de David Fincher, não deixava de ser, quando lançado, o epílogo de uma década, com o aspecto seminal dentro de sua época, na loucura e indefinição dos tempos pós-yuppie. Onze anos mais tarde, muita coisa mudou, e A Rede Social (The Social Network, 2010) chega ocupando (ao menos de acordo com a sua recepção em certos setores da crítica americana) uma posição semelhante ao antigo filme de Fincher, no sentido de representar uma década, de definir o seu tempo.

Saem os graduados trabalhadores das grandes companhias, os neoliberais, para quem a única coisa urgente era fechar o negócio que tinham a fechar (satirizados no filme de 1999), e entram em cena os nerds de plantão, em voga desde que o termo sofreu uma transformação positiva, e passaram eles a triunfar como indivíduos populares e bem-sucedidos, e não mais como alvos de playboys atléticos e mais fortes (como o estereotipado num cinema não muito longe de nossa época). Ainda que a maioria das críticas ao filme ressalte que não se trata de uma obra sobre o Facebook, o filme de Fincher não deixa de ser sobre uma uniformização do mundo, em tempos de intimidades compartilhadas em rede, de massificação virtual.

Da mesma maneira que em Clube da Luta o cineasta encarava com sarcasmo a subversão proposta pelo narrador tanto quanto ao sistema contra o qual o protagonista se rebela, e era o primeiro a apontar as suas conseqüências protofascistas, em A Rede Social ele observa com grande curiosidade o seu universo, mas sem qualquer complacência com os personagens. E o que seria a rede social criada pelo Zuckerberg de Jesse Eisenberg se não uma versão bem mais sofisticada (e não mais secreta) dos fights clubs que se expandem a partir da primeira luta do protagonista (ou mesmo dos grupos de auto-ajuda, aqueles famosos grupos de '”Anônimos'”, do começo do filme) em Clube da Luta? Os personagens de Fincher saem dos porões da clandestinidade para tomarem de assalto as redes sociais de todo o mundo, agora não mais movidos a um tipo mais 'primordial' de existência, nem tampouco determinados a uma tarefa fadada ao fracasso.

Fincher também mudou nesses anos todos, e A Rede Social opera via metodologia – e sensibilidade – bem diferente dos seus primeiros trabalhos (marcados por um virtuosismo técnico-narrativo que muitos enxergavam como afetação estética). O filme começa e termina com Zuckerberg e sua ex-namorada e o personagem finalmente a sós com a sua invenção, e nesse meio-tempo A Rede Social transcorre numa série de pequenas ilustrações que formam em blocos o mosaico que compõem o protagonista e as figuras que o rodeiam, a sua ascensão a partir de uma idéia roubada de quem antes por pertencer a uma classe mais privilegiada sempre se dera bem na vida (os gêmeos Winklevoss), o êxito crescente e perda do melhor amigo, e os processos judiciais que sofre e a consequente solidão, ainda que numa situação confortável. Apesar da narrativa como que em vinhetas, a estrutura do filme de Fincher consegue ser bastante coesa, muito por conta de um belo escoamento do fluxo de imagens a partir de uma ação contínua (quase sempre algo de importante ocorrendo na tela) e pela fluência dos diálogos. Os seus ótimos atores compõem um cast óbvio e bastante eficiente, Jesse Eisenberg confirmando a condição de ator-símbolo de uma época (pelo menos para quem viu e gostou de Férias Frustradas de Verão [Adventureland, 2009] e Zumbilândia [Zombieland, 2009]), compondo um personagem que é uma série de imitações de tipos populares e mais experientes que lhe são próximos (os colegas mais bem-sucedidos de Harvard, ou mais adiante Sean Park, já uma celebridade virtual, etc.), quase que uma versão próxima da realidade do narrador de Clube da Luta que (também como reação a um sentimento de inutilidade perante o mundo) toma como modelo uma figura imaginária que representa tudo que ele poderia ser.

Ainda na comparação com o filme anterior, no seu lançamento houve quem dissesse que a grande moral de Clube da Luta era que o seu protagonista precisava se reencontrar sim, mas para aprender a conviver com as mulheres, e o mesmo pode ser dito sobre A Rede Social. Algo que soaria piegas se naquele filme (e em A Rede Social também) Fincher não despistasse o espectador fazendo com que a história de amor e relação de desencontros entre o narrador e Marla Singer fosse engolida por outras preocupações, emergindo apenas no final com a tomada de consciência do personagem em relação à Marla (no inicio do filme ─ que começa pelo fim ─ o narrador já adverte que tudo que acontecera com ele tinha relação com uma garota chamada Marla Singer, mas esse detalhe passa despercebido ao público ao longo da projeção). Fincher sempre se sentiu mais a vontade com personagens masculinos, tendendo a uma quase explícita misoginia, sendo a ação dos filmes um assunto de homens, geralmente não escorando uma parte substancial da dramaticidade de suas obras principais nos papéis femininos ─ com exceção da segunda metade de O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), onde a presença constante demais de Cate Blanchett acarretava em certo desequilíbrio na sua estrutura, e na Marla Singer de Clube da Luta, que servia como contraponto ao universo predominantemente masculino do filme, questionando e colocando a sua misoginia em crise. Em A Rede Social, o centro também é uma guerra de meninos, que já não desferem socos uns aos outros, mas que dominam e controlam as ferramentas que possuem em mãos, porém com a instância do feminino marcando presença o tempo todo (“garotas querem sair com caras de Harvard”), especialmente no insight final e irônico a là “Rosebud”, ao som de "Baby You're A Rich Man", dos Beatles (aliás, Fincher com esse e o de Clube da Luta vem se especializando em alguns dos finais românticos menos convencionais de que se tem noticia).

De fato, a música em Fincher sempre foi utilizada de modo criterioso, não apenas na escolha da trilha certa para cada momento, mas de conferir uma nova perspectiva ao gesto humano ou a ação em cena: "Where Is My Mind", dos Pixies, comentando o estado mental do personagem no final de Clube da Luta ou a abertura de Zodíaco (Zodiac, 2007), com aquele carro dobrando a esquina ao som de "Hurdy Gurdy Man", de Donovan (que também toca no desfecho), além do já citado final de A Rede Social, etc. São poucos os cineastas contemporâneos que utilizam a música com igual pertinência (um outro exemplo seria Quentin Tarantino, basta lembrar de "Cat People" na transformação da personagem de Mélanie Laurent em Bastardos Inglórios [Inglourious Basterds, 2009]), enquanto que muitos acreditam que basta jogar uma canção bastante conhecida por parte do público num contexto qualquer para deixá-lo mais cool e estabelecer uma referencia imediata no espectador (exemplos desse tipo infelizmente tornaram-se comuns no cinema brasileiro).

A Rede Social é um filme sobre nerds, mas não exatamente um filme nerd, e essa diferença é bastante significativa. Desde Três é Demais (Rushmore, 1998), de Wes Anderson, e Eleição (Election, 1999), de Alexander Payne, e lá se vai mais uma década, que não tínhamos um estudo de personagens tão sério e inteligente em volta de figuras nerds. Mais do que isso, e sem o desejo de dizer uma grande verdade, mas apenas de estabelecer algumas considerações, o filme de David Fincher termina por ilustrar um pouco do que foram os primeiros dez anos do século XXI, sobre estar conectado grande parte do tempo, a necessidade de se impor em torno de uma ferramenta virtual e de pessoas que ficam tentando impressionar umas às outras. Não é difícil se identificar com o Zuckerberg de Eisenberg ou com muito que o filme espelha, daí o porquê do entusiasmo com que A Rede Social foi recebido.

Comentários (2)

Gabriela Almeida | terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012 - 14:23

Superestimado. Cadê o Fincher de Clube da Luta, Zodíaco e Seven? 😠 Melhor do filme foi o fim, não só porque acabou, mas porque terminou com baby, you're a rich man dos Beatles.

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