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Relíquia Macabra

(Relic, 2020)
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Atmosfera na veia

7,0

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Se o Cinema contemporâneo, nos últimos anos (ou mesmo nas últimas décadas) parece estar indo por caminhos nem sempre muito agradáveis, com excessos de filmes ruins, produções pouco cuidadosas e com efeitos especiais fracos (percepção aumentada pelo disparo da oferta de filmes via streaming, formato que parece diminuir a arte), o gênero de terror consegue se reinventar e se renovar. Bom, talvez essas sejam palavras fortes e otimistas demais, mas há boas opções nesse gênero saindo com certa regularidade. E o que Relíquia Macabra (Relic, 2020) tem a ver com isso? Esta é uma dessas obras.

Ao notar que abre mão absoluta dos jump scares (cenas de susto que, geralmente, vêm acompanhadas de um efeito sonoro alto e, em sua maioria, são previsíveis e irritantes para quem já é espectador regular do gênero), nota-se um cuidado da diretora-e-roteirista Natalie James que poucos autores costumam entregar, principalmente tão no começo da carreira. É cedo para dizer, mas podemos ter uma nova jovem talento vindo por aí. E sua obra, Relíquia Macabra, é um trabalho principalmente sobre atmosfera.

Sua história funciona em níveis diferentes, entregando a possibilidade de interpretações múltiplas, principalmente com relação ao que envolve o clímax que é, pelo menos, surpreendente e interessante. Não diria que é uma obra que necessita ser assistida mais de uma vez para ser inteiramente degustada, como ocorreu com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999). Mas, ainda assim, é uma obra cheia de nuances, de comportamentos ambíguos e de pequenos segredos que podem ser apreciados com, no mínimo, um estudo ou uma análise pós-sessão.

Como obra atmosférica, diria sem medo de causar hipérbole que fica no mesmo nível de sucessos recentes de Ari Aster (Hereditário, de 2018) e o atual queridinho de Hollywood, Jordan Peele (Corra!, de 2017). Um misto de (1) direção de arte, com o casarão da avó e a mata ao redor como cenários muito bem explorados, com (2) bons enquadramentos que, por si só, são o suficiente para causar a tensão tão adorada pelos amantes do gênero. Basta mostrar as personagens de costas para planos de fundo levemente destacados (uma porta, um canto escurecido), que já roemos as unhas esperando alguma espécie de aparição ou acontecimento assustador. E funciona quase sempre, tão bem como nos filmes citados anteriormente. Absolutamente, não há necessidade de apelar para jump scares – grande Natalie.

E temos também a interação entre as três personagens principais, que é um ponto muito positivo, graças ao roteiro redondinho. O comportamento das mulheres de três gerações diferentes (avó, mãe e filha) não é linear, é sempre imprevisível, fazendo com que o aspecto humano caminhe para a construção da atmosfera ao lado do aspecto sobrenatural. Cenas esporádicas fora daquele ambiente pesado da casa da avó, com bastante luz do dia (como a ida da mãe a Melbourne), ajudam a dar um descanso que talvez algumas mentes precisem, para que a ambientação não fique muito repetitiva e com o clima demasiadamente pesado o tempo todo.

Relíquia Macabra é mais um caso de sucesso que justifica uma impressão positiva do Cinema atual para esse gênero tão rico e cheio de possibilidades. Não, nada nele é de fato inovador, e não precisa ser (imagine se precisasse – aí sim o Cinema como arte já teria falido há muito tempo), apenas o conjunto harmonioso entre imagem e som para causar sensações agoniantes no espectador já são mais que um presente para quem se dispôr a viver essa pequena história de relacionamentos familiares com elementos sobrenaturais. Um bom conto de fantasmas – e até mesmo algo a mais!

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