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Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City

(Resident Evil: Welcome to Raccoon City, 2021)
4,6
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Críticas

Cineplayers

A volta dos que não foram

3,0

Há uma espécie de busca do cálice sagrado dos filmes de videogame em Hollywood. É fácil entender o porquê: o mercado de games não só vem expandindo em cifras, como os jovens de ontem que cresceram com ele hoje têm poder aquisitivo para torrar nessa área, além do próprio público cinematográfico estar no movimento inverso, em queda.

Não é à toa que empresas em alta como a Netflix têm cada vez mais abraçado esse tipo de conteúdo e entregado peças que nem sempre acertam, mas já quebraram a barreira do “obra baseada em games é ruim” há muito tempo - começou com Terror em Silent Hill, mas assistam a Arcane, série baseada em League of Legends. Não precisa ter jogado para entender e é bem bacana.

É engraçado notar que os jogos de videogame absorveram muito melhor as narrativas cinematográficas do que os filmes sugaram o que os jogos têm de bom. São mídias muito diferentes, falta interatividade aos filmes. Então, uma obra como Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City aposta mais na fidelidade visual ao jogo de origem do que a série de sucesso estrelada por Milla Jovovich, que era bem divertida, mas de RE só tinha zumbi e alguns nomes. Ainda assim, falha feio.

Essa preocupação com a fidelidade é o que há de melhor nesse novo RE: além das recriações mais óbvias, como a delegacia, a mansão e até mesmo alguns momentos icônicos, como o virar do zumbi (Belo?) do primeiro jogo ou a explosão do caminhão-tanque, há diversos pequenos detalhes que presenteiam aqueles que jogaram os jogos. Até mesmo os puzzles, algo totalmente interligado com a jogabilidade, fazem presença de maneira orgânica para quem sabe o que é aquilo - Wesker no piano, por exemplo.

Só que isso é apenas um consolo para os fãs, pois tudo está interligado por uma narrativa que acaba se perdendo por tentar abraçar o mundo. Ok, há eventos relativos aos dois primeiros jogos da franquia, mas suas principais ligações são os personagens, alguns acontecimentos e a cidade, que é tratada como elemento principal ao invés de servir apenas como cenário para a ação.

O filme tem dois arcos: a busca na mansão (RE1) e a fuga da delegacia (RE2). Só que eles simplesmente não funcionam juntos. Nos jogos, as histórias são completamente diferentes - e todas as surpresas que as envolvem também.

Claire tem um passado na cidade com seu irmão Chris e essa acaba sendo a linha principal do filme, enquanto a busca na mansão é pura encheção de linguiça. Ela desconfia da Umbrella após receber um vídeo de um dos cientistas locais, denunciando as atividades da empresa. Na busca pelo irmão, ela encontra o jovem Leon, que está tendo o pior primeiro dia de trabalho da sua vida ao ver o desabar de Raccoon City.

Fica clara a predileção por Claire: ela tem flashbacks e rouba a narrativa, forçando um vilão que aparece do nada, justamente porque o filme foca demais num todo (a cidade) do que em uma história em si.

Não falamos ainda do arco da mansão, né? Pois é, porque não tem importância, e aí é um dos primeiros grandes furos do filme. Uma história influencia em zero na outra. Ele poderia ter adaptado apenas RE2 (que é realmente uma história mais popular) do que tentar abraçar tudo. Toda a surpresa em torno do Wesker é jogada fora e até mesmo Jill, uma das melhores heroínas dos videogames, é reduzida e uma personagem caricata coadjuvante, desinteressante. RE1 deveria ter ficado para depois. Claro que um filme é também uma adaptação, não uma recriação fiel. O problema vai bem além disso.

Dá até para pensar: ‘bom, os RE nunca foram muito longos, né? Se souber o que fazer e for direto nos objetivos, correndo, dá para terminar o jogo em uma hora e meia’. É verdade. Mas juntar duas histórias desconexas em uma não deixou a coisa muito melhor não...

Olha que RE nunca teve uma história altamente refinada e nem diálogos mirabolantes, mas no cinema isso fica ainda mais evidente. Sempre houve o flerte quase namoro da série com os filmes B, mas nem isso se salva: o gore é deixado de lado, pois a câmera sempre desvia, ou está escuro demais, para vermos algo assim acontecer. Aparece sangue aqui ou ali, mas não consegue agradar nem um público e nem o outro.

As cenas de ação são totalmente sem inspiração, muitas vezes resumidas a "atire no zumbi até ele ser destruído". Apesar da maquiagem deles ser bem boa, na maioria das vezes são meros alvos - aliás, quanta munição, hein? Nos RE, principalmente os primeiros, as balas eram muito raras. A galhofa é tanta que o zumbi chega a escrever, com o próprio sangue, que está coçando em um dos vidros. Só que tentando se levar a sério…

Os efeitos especiais sofrem principalmente quando há alguma iluminação maior em tela, como explosões ou tiros. Dá para ver com muita convicção que o filme não teve todo o investimento nesse quesito. O final, quando sabemos o destino de Raccoon City, buscou ser tão fiel que parece mesmo gráfico das CGs de PS1… (ok, é exagero meu; parece com PS2).

É muito triste pensar que um filme que surgiu com a esperança de ser verdadeiramente o que a série Resident Evil merecia, ainda mais no ano de aniversário de 25 anos da franquia, tenha saído tão torto. Falta tudo: efeitos decentes, personagens minimamente desenvolvidos e que não sejam desperdiçados, uma história que tenha pelo menos coerência, um vilão que não tenha sido jogado do nada apenas para dizer que há algo a ser enfrentado… Quase nada funciona em Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City.

Olha que boa vontade minha não faltou. Quem me acompanha no Twitter ou no Reloading sabe que eu tava bem esperançoso com ele, mas a sequência, como a cena pós-crédito tentou adiantar, nunca deve ver a luz do dia...

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