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Rocky Horror Picture Show

(The Rocky Horror Picture Show, 1975)
7,4
Média
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Críticas

Cineplayers

Os rapazes da banda

8,5

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Algo que hoje se tornou pauta obrigatória para a geração pós-moderna e vem aos poucos reivindicando espaço, visibilidade representatividade dentro do cinema e que pode parecer muito transgressor por ainda incomodar muita gente, a cultura queer já formava não somente o enredo do musical The Rocky Picture Horror Show (idem, 1975) lá nos anos 1970, como o fazia da maneira mais explícita e nem um pouco sutil possível. É interessante perceber que o público LGBTQIA+ já tinha em sua história esse filme tão representativo antes mesmo de existir essa noção comunitária e identitária que hoje segue amplamente divulgada na mídia como algo que, mais de quatro décadas depois, ainda é tido como novo. Parte de uma geração que estimulava a revolução sexual como veículo de imposição política e social, o cult de Jim Sharman na verdade não propunha nenhuma novidade em seu conteúdo: apenas reforçava a ideia atemporal de que a identidade e a natureza do ser humano enquanto indivíduo nunca foi abrangida em sua totalidade pelos rótulos e preceitos sociais.

O que mascarou parte dessa mensagem que segue incomodando é, curiosamente, o mesmo que a colocou em evidência em uma escala chocante: o uso dos artifícios do cinema de gênero. Ao mesmo tempo muito politizado e anárquico, The Rocky Picture Horror Show está todo estruturado em cima de uma sátira muito eloquente e cômica do terror, da ficção-científica, da comédia e do musical. A sobreposição de ritmos, cores, influências, tradições, fora o cruzamento de épocas e estilos que vão dos anos 1940 aos 1970, se condensa em um quadro em que não há nenhum senso de equilíbrio ou ordem. Com ares de Frankenstein, a história assimila essa ideia de uma criação parida do horror e do absurdo, uma colcha de retalhos que reúne em si não somente os fundamentos e tradições de gêneros, não somente um apanhado estético e narrativo do cinema até ali, mas também noções expandidas de sexualidade e identidade de gênero.

Ainda que a criatura seja Rocky (Peter Hinwood), é seu criador o próprio Frankenstein simbólico da obra: o Dr Frank-N-Furter, vivido em inesquecível composição de Tim Curry. Figura do cientista maluco, ele se apropria de um visual essencialmente feminino enquanto apresenta um comportamento de dominação masculina viril. Sem rótulos, ele vai transitar como um espírito livre nos papéis de homem, mulher, gay, hétero, travesti, transexual, intersexual, enquanto sua aparência e sua performance são capaze de englobar um apanhado de tudo isso dentro de figurinos, maquiagens e penteados que transmitem aquela moda andrógina do glam rock próprio da cultura inglesa dos anos 1970.

Vale lembrar que, enquanto musical, The Rocky Picture Horror Show surge em um cenário no qual o gênero ainda passava por uma crise a nível mundial. A comédia inglesa da paródia rasgada, ao estilo Monty Python, está de alguma forma ali incorporada nos exageros visuais e em gags que afrontam o conservadorismo, a religião, a História e a política, enquanto o terror e a ficção-científica estão em claras configurações de galhofa saudosista que evoca clássicos da Hammer e outros filmes B. Já o conteúdo musical não segue exatamente uma moda ou tradição da indústria inglesa, ainda que seja uma adaptação da peça teatral homônima de Richard O’Brien. Mas diferente de títulos, digamos, mais comportados e formais como Os Sapatinhos Vemelhos (The Red Shoes, 1948) ou Mary Poppins (idem, 1964), este se vale da música como uma ferramenta de imposição social, reivindicação de reconhecimento. Se a música sempre permitiu essa via de manifestações pessoais, nos anos 1970 ela explodia em temas, letras e ritmos muito mais frenéticos e anárquicos, o que acaba dinamitando o filme, que assimila esse poder para colocar em evidência as classes até então mais marginalizadas.

Claro que um filme como esse está fadado à incompreensão. A princípio um fracasso nas bilheterias, ele foi aos poucos ganhando o status de cult ao ser reconhecido por um público que logo identificou por trás daquela anarquia toda um espaço para identificação e aceitação não do novo, mas do diferente. Afinal, a grande sacada de toda a produção é justamente se valer do absurdo permitido pelos gêneros para se guiar em uma história onde o diferente é normal, o absurdo é aceito. Na linha tênue em que fantasia e realidade se encontram, músicas como Don’t Dream It Be It incentivam a aceitação da própria natureza e identidade, e celebram a riqueza da diversidade ao mesmo tempo em que expõem a hipocrisia dos que condenam a liberdade alheia. A conclusão a que chega o icônico personagem do criminalista (vivido por Charles Gray) não poderia ser outra senão comparar a raça humana a insetos rastejantes, tão perdida entre seus preconceitos e diversidades inerentes.

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