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Críticas

Cineplayers

A arte de imortalizar a simplicidade.

8,5

O Cinema de Eduardo Coutinho está longe de se limitar a uma esfera meramente informativa, limitação esta que é tão própria de maus documentaristas que aparecem somente para encher as telas de cinema (isso quando não se restringem à linguagem televisiva) com imagens e palavras que, em muitos casos, pouco dão suporte para que as obras encontrem poder relevante em si mesmas. Isso porque Coutinho entendia o Cinema como uma forma observar o curso do universo pelos seus elementos mais simples, que recebem a devida atenção a partir de uma linguagem artística tão própria e utilizada de forma tão particular, algo que pôde ser testemunhado como um soco na cara quando o mesmo realizou uma de suas melhores obras em 1978: Theodorico, o Imperador do Sertão (idem, 1978), documentário rodado para a TV Globo. Isso porque lá nos anos 80 ele marcou uma fala em Cabra Marcado para Morrer (idem, 1985): “Isso é Cinema. Parece televisão, mas é Cinema!” É importante ter essas imagens em mente ao refletir sobre o que Os Romeiros do Padre Cícero (idem, 1994) coloca em jogo.

Os Romeiros do Padre Cícero trata de alegria, de festa, de fé. Trata de coisas positivas. Mas é muito mais que isso: é todo o sorriso de um povo que conhece e convive muito bem com a dor, dando espaço para a esperança. Há quem diga que Os Romeiros do Padre Cícero fuja dos costumeiros padrões de seu diretor pelo fato de ser narrado em off, mas isso não é verdade: Coutinho apreciava adotar esse recurso; o diferencial sempre se deu pelo fato de que sua voz representa em sua obra um personagem que observa e infere sobre o que sua câmera capta. Chega a ser motivo para abrir um sorriso no rosto ouvir sua voz expondo fatos e levemente abrindo lacunas a serem preenchidas pelo espectador. Coutinho não interfere diretamente, mas também, experiente, não é e nem tenta ser imparcial (é bom falar isso, sendo que nenhum discurso é neutro); a partir do próprio ponto de partida de sua obra, fazendo questão de utilizar o fator temporal como um importante elemento, a informação é modificada de sua superficial forma didática.

O homem deixa bem claro: a data é 24 de março de 1994, e iremos tomar esse ponto de partida para acompanhar toda uma trajetória histórica de fé. Ao destacar a data, Coutinho faz algo que é comum ao seu estilo: reflete a ação do tempo para justamente imortalizar seu trabalho e todas as pessoas ali contidas, bebendo de toda a humanidade presente, congelando em uma cápsula do tempo. É a magia de filmar algo e deixar aquilo lá, deixando claro que o tempo passará, aquelas pessoas morrerão e suas imagens permanecerão – por isso que o conceito de algo “datado” torna-se impraticável. Isso, em sua filmografia, ficou ainda mais explícito anos mais tarde, quando Babilônia 2000 (idem, 1999) foi rodado a fim de observar as reações de pessoas comuns perante uma transformação temporal marcante, batendo ano, século e milênio. Essa “simplicidade” em seu Cinema é o elemento visceral para o seu alto nível; aliás, é justamente o ato de subverter padrões, tratar o simples como algo importante – como de fato o é. Os Romeiros do Padre Cícero, especificamente, filma aquelas pessoas cheias de rugas pelo sol nordestino, pessoas que demonstram a dor em rosto e tentam compensar com o espírito por meio da fé.

Essa imortalidade a que se compromete Eduardo Coutinho é uma característica essencial do Cinema em si como objeto artístico, e mesmo que os personagens de Os Romeiros do Padre Cícero não tenham palavras certas para articular tal conhecimento, fica visível que têm consciência de que estão sendo inseridos em uma ferramenta histórica: a imagem deles indo embora no pau-de-arara, acenando para a câmera com a maior alegria do mundo; simplesmente pela presença da câmera, que está ali registrando toda uma cultura de um povo esquecido. Há um momento em que um homem barbado, um dos peregrinos, grita “Padinho Cícero é o dono de Juazeiro! Ele é o dono do mundo!”; cena importante para o filme, pois sintetiza bem a fé cega daquele povo, cujo único mundo que de fato conhece é aquele – ou não, pois, como bem fica visível em uma feira-livre, entre imagens de santos, LPs de artistas internacionais e revistas eróticas, o profano divide lugar com o sagrado.

É um importante elemento de uma filmografia em constante diálogo consigo mesma, com o tempo e com o infinito.

Comentários (4)

Victor Ramos | quarta-feira, 04 de Março de 2015 - 13:59 | Responder

Esse é tão complicado que foi difícil até para achar imagem para a crítica, foi então que o Cunha e eu percebemos que nem cadastrado no imdb o filme está, rs A quem interessar, dá para conferir aqui, bem como muitos outros do cara: https://www.youtube.com/watch?v=TM72YpLC7hQ

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