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Críticas

Cineplayers

O cinema vital de Rogério Sganzerla.

9,0

Sem Essa, Aranha (idem, 1970) é o turbilhão de choque estético de Sganzerla: a antiestética do cinema assim batizado de “marginal” alcançava um dos ápices aqui, desmanchando quaisquer compromissos narrativos e didáticos para a construção da expressão desenfreada e enfurecida do diretor. Seus personagens são aberrações que felizmente padecem da completude tradicional dramatúrgica para berrar, avacalhar, vomitar e provocar a desordem total e absoluta. A união de Sganzerla com Jorge Loredo, o eterno Zé Bonitinho (que é a persona do banqueiro Aranha), resultou em uma das obras mais livres e anárquicas de nosso cinema – a recusa do diretor com o regime de imagem tradicional é absoluta e radical.

Sganzerla filma grandes blocos de imagem, planos-sequência onde seus personagens interagem com figurantes, interagem com a câmera, a equipe interage com os atores e Loredo, Helena Ignez e Maria Gladys, em suas performances caricaturais e fanfarronas, desempenhando as sequências de grande movimentação fora e dentro de quadro e grande perturbação sensorial, levam à tela as vísceras de um Brasil que, como diria Darcy Ribeiro, é um país em ser, impedido de sê-lo. A colônia liberta e devassa, a república independente vivendo os anos de chumbo da ditadura; a identidade plural muitas vezes sem consciência de si, dos capitalistas eurocêntricos, do baião de Luiz Gonzaga e do samba de Moreira da Silva; da cultura cristã apaixonada e da galhofa descrente. Todos em Sem Essa, Aranha acreditam e não acreditam, ou melhor, não sabem exatamente no que acreditar. Sganzerla baseia seu filme no puro antagonismo temático e estético, da miséria se chocando com a burguesia, do cinema de sucata batendo de frente com o cinema industrial.

O pesadelo intelectual escrachado de O Bandido da Luz Vermelha (idem, 1968) – O Demônio das Onze Horas (Pierrot le fou, 1965) dos trópicos -, que ameaçava que “O terceiro mundo vai explodir” e “quem não pode fazer nada avacalha e se esculhamba”, agora é mais aberto em sua abordagem, mas é paradoxalmente tão simbólico: as interações com a aranha de plástico exercendo influência no campo diegético, o trio de protagonistas descendo o morro com Aranha performando seus trejeitos enquanto Gladys grita repetidamente e de forma desagradável “eu tô com fome”, a equipe vista com o elenco dentro do mesmo espelho, Ignez, a pura explosão de energia dentro de uma janela de filme interagindo com Luiz Gonzaga nunca cessando de cantar: apesar do número de imagens tão variadas que abusam do grotesco, da progressão inconsciente e desgovernada, é difícil ignorar sobre o que Sem Essa, Aranha fala: de um Brasil que você não sabe definir ou identificar o espírito, você sente. A libertinagem, a desordem, a truculência de uma selvageria pouco clara em palavras mas que, significado dentro do campo da imagem em movimento, sabe-se até demais – mais do que se gostaria de saber.

O projeto estético dessa turma que saltou dos gibis, do cinema policial bom e barato e da boca do lixo foram responsáveis por uma geração de filmes que trabalharam com uma dissolução de pactos pré-datados e para um país que tentava reagir e se expressar através das instituições totalitárias que mantinham a coleira curta: com maior e menor rigor formal, a política desse movimento era representar, como certeza vez disse Reichenbach, não a subversão, mas a transgressão; não desestruturar as estruturas de poder como faria o cinema novo, mas apontar a câmera para os párias; tanto no diálogo com Mélies em Bang Bang (o cinema só podendo avançar feito da maneira rústica e livre que era feito) quanto da piração imprevisível de Sganzerla (o caminho do cinema através da paródia, da sacanagem e da sucata; a liberdade de movimento de câmera e personagem, da criação textual, da anti-progressão, dos blocos que se relacionam mais por uma fúria unitária que por qualquer outra coisa),  o cinema marginal é um cinema que sempre transpirou e, daqui a décadas, transpirará conflito. Quem parar morre, e o filme como uma unidade de movimento não pode estar em paz. Quem se satisfazer ou acomodar, “ficar de sapato”, é deixado para trás. O epíteto “marginal”, por mais que não desejado, nunca fez tanto sentido: ser “à margem” pela simples impossibilidade de poder compactuar com os monstros ideológicos que tinham de driblar.

Sem Essa, Aranha não foi feito para ser polido ou agradar os pactos estéticos  que tanto aprisionaram o cinema; foi feito para propositadamente ser desagradável, para ser ridículo, para falar do Brasil que a classe dominante não gosta, odeia, despreza, tem medo, repulsa e asco. Sganzerla cuspia na cara do Brasil inventado, do Brasil tricampeão, dos noventa milhões em ação e do ufanismo doentio. Anos mais tarde, Sganzerla, ao fazer um documentário sobre o documentário É Tudo Verdade (It's All True, 1993), de Orson Welles, chamou-o de É tudo Brasil. Enquanto o americano libertava o cinema do peso da verdade e o devolvia ao campo das mentiras, da imaginação e dos sonhos, o “Brasil verdadeiro” de Sganzerla era essa expressão pessoal que Sem Essa, Aranha transpira: a liberdade sacana, irônica e galhofeira que não tem nada a ver com o quadrado, com o sisudo, com o Estado, com o conservadorismo que se traveste de estética – um Brasil vital.

Comentários (8)

Victor Ramos | quarta-feira, 30 de Abril de 2014 - 21:24

\"Tentei a magia branca e não deu certo... Precisei apelar para a magina negra!\"

Polastri | quarta-feira, 30 de Abril de 2014 - 21:34

Aquele plano-sequência com o Loredo descendo o morro e a molecada olhando pra câmera periga ser o maior de todo o cinema brasileiro.

João Elias Neves Ayupe | sábado, 03 de Maio de 2014 - 18:22

os filmes brasileiros eram pra ter um acesso mais fácil em DVD, com catalogo sempre disponível e a preço baixo, não a 44,90 como Vidas Secas...

o incentivo a nossa cultura é zero...

Bernardo D.I. Brum | quarta-feira, 14 de Maio de 2014 - 23:22

João, não priemos cânico, tem vários inteiros no youtube (inclusive Vidas Secas), hahaha.

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