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Críticas

Cineplayers

Horrores no clã Shaft

2,0

Lá se vão quase 50 anos do primeiro Shaft... e quase 20 do segundo Shaft. A julgar pelo resultado dessa terceira empreitada, como teria sido bom ficarmos com as ótimas lembranças das versões dos saudosos Gordon Parks e John Singleton. Se a sociedade mudou durante todo esse tempo, e em alguns casos a mudança foi benéfica (como a que coloca esse novo produto numa zona antiquada e perniciosa), algo que não mudou foi a busca pela qualidade e pela coerência na análise fílmica, e o filme dirigido por Tim Story consegue ir além das inúmeras incorreções que comete, entregando um produto repleto de infelizes soluções narrativas e estéticas que só ajudam a derrubá-lo mais rápido, fazendo com que a experiência se ancore em carisma, tanto dos atores envolvidos quanto dos personagens, que apresentados anteriormente, seriam presenças descoladas de um outra época, escorregando hoje da ironia para a grosseria gratuita e a escatologia de pensamento.

No que concerne o carisma, Richard Roundtree, Samuel L. Jackson e Jessie Usher são três gerações de uma família que há 50 anos vem lutando contra o crime de forma pouco ortodoxa, mas sempre eficaz. O trio de atores demora a estar junto, mas sua presença em cena é magnética o suficiente para que perguntemos porque o filme só os reúne no terço final, tendo em vista que as melhores sequências se dão a partir desse encontro. Roundtree não sentiu o passar dos anos nem perdeu a conexão com as câmeras, que o procuram quando ele entra; Jackson está em um ano recheado de sua imagem, não demonstrando qualquer sinal de desgaste; o jovem Usher é uma promessa clara de talento a ser lapidado que consegue transpor as falas complicadas que precisa trocar com seus companheiros de elenco de forma natural, mesmo quando elas são claras demonstrações de desconhecimento da realidade - ou apenas criminosas.

O machismo, o sexismo, algumas doses de homofobia, compõem o quadro de tiradas "engraçadas" da produção, que sai do escopo da ironia gradativamente para abraçar um lugar do incentivo a diminuição das pautas identitárias de maneira estranhamente natural até para personagens politicamente incorretos, vindos de um universo onde tipos machistas eram naturalizados, mas que não conversam com o nosso tempo. Os momentos onde tais diálogos poderiam ser discutidos em cena parecem abafados de maneira desrespeitosa, e o filme caminha a sair do constrangedor e passar para o revoltante durante sua projeção. Pra completar o quadro, as duas personagens femininas não tem espaço o suficiente para colocar discursos contrários e criar um contraponto, parecendo mais veículos de reafirmação de códigos arcaicos, mesmo trajando uma postura moderna, que desce pelo ralo quando o roteiro não cria possibilidades reais para elas.

Dentro do seu próprio universo, Shaft parece deslocado, com sua trama repleta de clichês requentados e gastos, sem qualquer charme ou senso de novidade mínima. São um amontoado de situações velhas, com motivações velhas, indo para lugares velhos, um jogo em círculos que esgota o seu interesse muito rápido e não adiciona nada ao gênero ou a própria franquia. A parte técnica do filme igualmente não funciona a maior parte do tempo, com perseguições sem graça, um 'chroma key' automobilístico vergonhoso para um produto que nasceu da crueza de recursos típicos da 'blaxploitation', uma regravação da clássica canção sem inspiração, montagem preguiçosa que não dá o ritmo necessário a um filme que deveria tê-lo, que reforça um esgotamento de um momento no gênero de muita ambição, com Chad Stahelski e David Leitch promovendo mudanças em muitas áreas do cinema calcado na adrenalina, que oxigenou os filmes por dentro e por fora.

A ideia para essa junção e revitalização de um movimento cinematográfico essencialmente negro nascido nos anos 1970 seria uma ideia ambiciosa, mas que tinha tudo pra dar errado, o que acabou por acontecer. Ano passado no entanto, Spike Lee passeou levemente por esse lugar em pontos chave de Infiltrado na Klan, mostrando que a ideia de atualização do clã Shaft não deveria obrigatoriamente render um produto tão anacrônico. Tim Story não demonstra qualquer habilidade quando exigido e joga fora uma ideia que tinha possibilidades promissoras em mãos adequadas, e também vê passar na sua frente um trio disposto a brilhar (ainda que Jackson seja o foco de seus problemas maiores por tudo que pronuncia, o ator demonstra que apenas cumpriu com um roteiro ruim, e poderia ter rendido outro direcionamento). Nem o encontro de avô, pai e filho salvaria o outro encontro em cena, da ignorância com a falta de talento. 

Comentários (2)

jorge lucas | domingo, 14 de Julho de 2019 - 13:16 | Responder

Resumindo: você gostaria que o Shaft fosse convertido para os tempos atuais e que o filme fosse recheado de progressismo e representatividade para "desconstruir" o jeito brucutu do personagem principal. Já que não houve isso, o filme não presta. Não, não, Shaft é um filmaço com personagens extremamente carismáticos (tá, a inclusão do avô na história não convence, mas é perdoável)! Tão bom quanto o de 2000. Aconselho ver esse filme acompanhado de uma boa cerveja, a diversão é garantida. Cheers!

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