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Shiva Baby

(Shiva Baby, 2020)
7,4
Média
12 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A composição do caos

8,0

O longa-metragem de estreia da diretora e roteirista canadense Emma Seligman reverbera para todos os lados. Digo isso porque há nele uma mistura de experiências sensoriais que envolve o espectador. As diversas sensações fazem o filme caminhar entre a comédia ácida e o terror. Originalmente em formato de curta, o filme foi destaque em diversos festivais internacionais, com estreia no SXSW (2018), presença no Palm Springs ShortFest, no TIFF Next Wave Film Festival e no Woodstock Film Festival.

Shiva Baby (2020) conta a história da Danielle (Rachel Sennott), uma jovem bissexual fazendo faculdade, enfrentando os sentimentos de insegurança (profissional, sexual e outros) deste período. O filme acontece quase que exclusivamente no mesmo ambiente: uma casa onde ocorre um shivá em que ela vai acompanhando os pais.

Sendo ela de família judia, shivá é o período de sete dias de luto mantidos pela morte de uma pessoa próxima. Neste processo, diversas famílias judias se reúnem para comer e conversar sobre o falecido, como uma forma de confortar os familiares e honrar a partida do ente querido. No caso de Shiva Baby, acompanhamos a confraternização ao longo de um dia, os hábitos, as conversas e as relações da comunidade judaica.

O que parece, contudo, um evento discreto, movido pelo luto e pela solidariedade, acaba virando um confronto perturbador para a protagonista. Isso ocorre quando Danielle chega no shivá e se depara com sua ex-namorada e o seu sugar daddy (prática que vem se tornando cada vez mais conhecida, principalmente nos EUA, de homens mais velhos pagarem meninas mais jovens para obterem companhia em jantares, eventos e até práticas sexuais).

Essa situação constrangedora para a protagonista acaba tomando a atmosfera do filme e fazendo com que o próprio espectador compartilhe com Danielle a angústia e o desconforto de estar num ambiente sem saber como escapar da situação (muitos conhecem esse sentimento). Sempre acompanhando os percursos da Danielle, somos impregnados pelas suas emoções e seu nervosismo desde o encontro com os pais até o fim do evento.

Ao longo do shivá, movido por uma quantidade excessiva de pessoas e comida, observamos Danielle pouco falar, mas ser interrogada a todo tempo sobre o que estuda, com o que trabalha, quais são os planos para o futuro e para a vida amorosa. Vemos Danielle sobrecarregada de perguntas sem respostas, suas expressões faciais e linguagem corporal falam ansiedade, tensão, quase desespero.

O espectador é capaz de sentir o desconforto da protagonista também devido às frequentes escolhas de planos fechados no rosto da Danielle, com pouca profundidade de campo, bem como a composição de cenas emolduradas por pessoas, portas, janelas, enfim, obstáculos, como que enquadrando a protagonista numa espécie de enclausuramento.

Já a presença do som complementa a sensação física de aprisionamento a partir de uma trilha sonora intrigante que emerge nos momentos de tensão da personagem. Algumas vezes o desconforto psicológico se apresenta através dos zunidos que supomos serem escutados pela protagonista em estresse. Noutras vezes percebemos, ainda que fora de cena, o som do choro do bebê, o excesso de vozes, diálogos, julgamentos, muitas vezes atropelados e insistentes.

Há uma sensação asfixiante também no modo como os familiares e os convidados do shivá interagem com Danielle, sempre a tocando e abraçando repetidas vezes, de modo claramente desconfortável para a menina. O reflexo físico da sua inquietação ocorre, ao longo da narrativa, nos pequenos acidentes, contrapondo uma figura de Danielle inicialmente arrumada e, ao fim do evento, cansada, suja e mentalmente exausta.

O que vemos em Shiva Baby é menos sobre o evento e o que nele acontece, mas sobre aquilo que Danielle sente ao longo de todo o processo. Compreendemos, em certo ponto, a dissonância entre a banalidade da ocasião, dos encontros, da comida e aquilo de extraordinário e perturbador que a protagonista sente. Toda a orquestra sensível de Shiva Baby dialoga principalmente com o estado emocional em colapso de uma Danielle em conflito principalmente com ela mesma – e faz isso com maestria.

Segundo a própria diretora, os conflitos internos da protagonista falam sobre um período de amadurecimento enquanto mulher, confrontos com a própria sexualidade e sua dinâmica de poder. Percebemos isso em Danielle quando, diante das diversas inseguranças e impotências deste momento da sua vida, usa a sexualidade numa tentativa de poder e aprovação.

Ainda que Danielle busque a todo custo escapar de um diálogo com a ex ou com o seu sugar daddy, os confrontos acontecem. A troca de olhares estabelece, junto com os demais elementos sensoriais, a tensão entre estes personagens. No instante das conversas, percebemos uma carga emocional gradativamente ocupar as falas, o tom intempestivo ir se apresentando de modo sorrateiro.

Para fugir das muitas situações constrangedoras, Danielle se ocupa da mesa de comida, do colocar e retirar alimentos do prato apenas para ganhar tempo consigo mesma, longe dos interrogatórios. Por repetidas vezes,vemos pães, tortas, bolos e biscoitos no prato da protagonista, noutras percebemos o excesso de alimentos funcionar como um incentivo sensorial para a representação do desconforto e da sobrecarga de acontecimentos.

Shiva Baby é preciso e ao mesmo tempo feroz ao retratar, num pequeno espaço de tempo, conflitos entre família, tradição, sociedade e as pressões da jovem na faculdade e no mercado de trabalho. Ao fim do evento, compartilhamos com Danielle a exaustão e até um certo torpor, estimulados também pelos longos planos e pelo fato de tudo acontecer num mesmo local fechado.

Numa entrevista sobre o filme, Emma Seligman diz aproveitar diálogos e situações típicas das suas vivências com a comunidade judaica e seus familiares para compor os personagens e a narrativa. A presença de uma protagonista de gênero fluido é também uma preferência da diretora por inserir personagens mais plurais no cinema, sem que faça neste filme, contudo, um mergulho profundo no assunto.

A soma dos elementos da realidade da diretora e da ficção narrada contam, ao longo de um único evento, a experiência psicológica de uma jovem amadurecendo no momento presente. O excesso de informações, cobranças pessoais e desafios da jovem mulher no âmbito familiar e profissional ecoam em Shiva Baby numa psicológica e angustiante, ainda que risível, experiência sensorial do caos.

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