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Snuff, Vítimas do Prazer

(Snuff, Vítimas do Prazer, 1977)
6,0
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7 votos
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Críticas

Cineplayers

A metalinguagem escrotizacionista da BOCA DO LIXO

8,5

A cara de pau. A cara lisa. O óleo de peroba. O Claudio Cunha. Isto é Snuff, Vítimas do Prazer. O ajuntamento do escracho da cara de pau para se montar um projeto desta envergadura. Esperto e seboso, claro. Ora, porque um filme sobre os bastidores doutro, com intenção de morte real, poderia não ser canalha? Esta proposição é rebolada na fita. E vocês que se virem pra gostar disso.

Pra começar a sensibilidade do filme é dum tijolo. Já vem com uma abertura de um estupro realista. A ideia do cinema snuff. Com som e câmera incômodos até o talo na ação. A ideia de filmagem com óbito real funciona bem. A escuridão e a aflição que ela traz. O amadorismo e a sebosidade funcionam perfeitamente para o clima de “cinema verdade” canalha proposto. Detalhe que o som é só o barulho do projetor de película nessa abertura. No fim daquilo, dois malucos com sotaques pesadamente transversais tergiversam sobre a arte que viram e que querem reproduzir, afinal, cinema tem que matar de verdade pra prestar.

Exacerbação do cinismo e da canastrice. Que a BOCA DO LIXO ficara conhecida pela canastrice citada, sabemos, mas é uma beleza ver o Claudio Cunha levar isso adiante quando mete os estrangeiros – supostamente – na esculhambação e proferindo tanto inglês quanto português (só um deles é de fora) altamente macarrônicos. O que é joia. Encaixa no estratagema amadoresco que a obra discursa a termos de metalinguagem/produção de filme bagaceiro, e na maneira qual ela mesma assim existe.

Temos aqui uma mistura entre trama de suspense policial folhetinesca com pornochanchada. Encapsulando a ideia para pegar a carona na moda da lenda urbana dos filmes snuff, que continham cenas de fenecimento reais. Uma conversa exposta e divulgada nos anos 70 com direito a todo tipo de lenda na base do boca a boca e divulgações espertas outras, os diretores mais marotos decidiram se aproveitar do tema. E a parada começara no bambo quando fora lançado o filme norte-americano Slaughter (de Michael Findlay, 1972) com cenas convincentes de morticínio. Onde o produtor e distribuidor Alan Shackleton decidiu inserir um novo final expondo que a equipe teria matado a atriz nas filmagens. Isto somado ao marketing violento fizeram o sucesso anos depois no seu relançamento em 1976. Filme que seria rebatizado como Snuff (Snuff, 1976). Ah meu chapa, a partir disso várias obras seguiram a putaria de perto e imitaram o esquema com figuras tais quais Joe D’AmatoEmanuelle na América (Emanuelle in América, 1976) – e Ruggero Deodato com a já clássica fita Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980) que já possuía destroços reais de animais e trouxe à baila a possibilidade de mortes humanas reais, tanto na concatenação fílmica realista do morticínio citado, quanto através das táticas de marketing marotas do seu diretor escondendo o elenco após o lançamento e o escambau. Há vários outros casos, algumas lendas e alguns vídeos reais divulgados anos depois. Mas no Brasil do Cunhão, a intenção foi trabalhar assumidamente com a ideia mostrando os bastidores marginais daquele negócio, com direito aos vícios da BOCA e do seu esquema de produção. Por isso é uma maravilha sacar o trato nos bastidores duma fita marginal enquanto há uma estória escabrosa por traz do desejo de matança. Nisso a fita acerta bem. Na sua cara de pau oportunista.

Juntando a marotice oportunista do Claudio Cunha, tem-se presente sua inquietude por uma busca por um tema mais original daquilo que estaria sendo feito por seus camaradas. Um oportunismo? Sim, mas movido por uma busca por originalidade à brasileira. Para compor isto, o diretor chamara o Carlos Reichenbach para montar o roteiro junto com ele. Segundo o Nuno Cesar Abreu em seu excelente livro Boca do Lixo e Classes Populares – que analisa a BOCA em seu pensamento, passando por esqueleto, musculatura e esculhambação – Cunha se inspiraria numa “reportagem da revista Manchete sobre filmes clandestinos que mostravam mulheres sendo estupradas e assassinadas de verdade.” O cara queria surpreender na temática e meter a chibata na produção causando furor. Algo que conseguira, mediante os 4 milhões de expectadores que a fita conseguira. Esta é a luta não somente para produzir na BOCA, que tem sua própria membrana de existência, mas para fazer seu material por lá e com o autorismo que lhe é necessário. Na marra isto é conseguido.

E a produção interna como anda? A falta de escrúpulos caricatural dos produtores-personagens ao mesmo tempo tanto choca quanto tem graça pelo absurdo da coisa. Os malucos querem a todo custo matar uma mulher na marra e vender o material a um custo altíssimo por conta dos doentes que consomem este tipo de material. E querem fazer isto sem ninguém da equipe saber. Apenas pagando uma boa quantia para a produção do longa. A metalinguagem deliciosa de uma produção da BOCA. Edson – o diretor de fotografia interno e personagem intrigante – como espectador da marmota desconfiado com aquela esculhambação. Edson seria interpretado por Carlos Vereza, na melhor atuação da obra, provocando tanto o sentimento de desespero dum desempregado marginal do cinema, quanto raiva por entrar num projeto escuso demais. Ele que carrega os melhores momentos de tensão da obra. O retrato do trabalhador cinematográfico da época. Avacalhado e explorado. E hoje tá assim? Oura se não. Eu como documentarista reafirmo a desgraça do Edson. Só não participei de filme com finamento de vera.

A beleza grosseira do alopramento duma envergadura imagética dura. E a imagem? A proposição dum esverdeado em vários momentos. Velhice ou dificuldade de encontrar uma cópia em melhores condições? O aspecto lodoso de podre é perfeito para a temática de crime que abraça. A realidade imagética asquerosa e seca da urbanidade da BOCA. O verde lodo com a cara do estrago do tempo. Ação dos planos estáticos em contraste com a abertura em plano-sequência movimentado, obviamente, porque este último clamava pela atenção à ação de destroço físico real do estupro. No grosso temos acontecimentos da ação com o menor número de cortes possível. Básicos. Médios e de conjunto. Com poucos closes. Fechados no suposto erotismo paquerador barato, suposto porque a mera aparição de peitos e bundas não automatiza a existência do erotismo, mas, sim existe como oportunismo maroto da fita para cumprir a cota de nudez que a boca exigia. E tome cores fortes (alguns pontos altos da fita) como característica carnavalesca deliciosa de vários filmes da BOCA. A cafonice nas alturas. Há outros momentos de câmera na mão perambulando em procuras diversas e alguns falsos sustos. Tudo ensaboado numa despadronização interna do material. Fora o plano da abertura com uma intenção específica, o resto da fita planeja desenvolver tudo da forma mais aloprada e objetiva. Claro, estamos no cinema a toque de caixa da BOCA, e os mais diversos materiais eram desconjuntados mesmo, tanto que Cunha findara o orçamento e fora caçar grana pra conseguir terminar o projeto. A autoconsciência esculhambatória acaba por ser canalha em sua temática servindo à narrativa pelo que é proposto desde seu nascedouro. O filme funciona muito bem assim.

O principal problema da obra é sua longa duração com seu ritmo lento por demais. Muita embromação para a chegada da tal morte real prometida. Acaba por cansar além do necessário. Tanto que os bastidores da obra filmada no campo da diegese, antes divertiam em sua criação acabam-se por cansar pela repetição. Mas, quando começar a cansar, temos o terceiro ato sendo engendrado, que acaba valendo demais a pena em seu desfecho.

Tensão preparada na hora do tirambaço. A morte chega? Teima em chegar. E o filme viça com isso. Num primeiro, e suposto crucial, momento sabemos que aquela mulher vai morrer. E há todo um tensionamento de câmera e som para tal, numa montagem mais ligeira captando os rostos dos envolvidos até o tiro. O desespero duns e o espanto doutros com este desespero. Na verdade, era um tiro de festim. A falsa morte. O filme fresca com isso a nível de quase cansar, mas afinal, acabam matando a atriz com um tiro a posteriori. Isto até engata bem com quem proferiu o tiro. Ator principal da fita snuff filmada, e tirado dum manicômio. Muito doido. Onde no decorrer de tudo ele enlouquece cada vez mais. Após o desastre ele ainda foge e se regozija em êxtase doentio com os negativos da obra que ele rouba e destrói (momento altamente foda), estragando quaisquer possibilidades de lucro dos produtores. Sem falar no ótimo momento gore do último plano do material que derruba todos os presentes.

Snuff, Vítimas do Prazer acaba valendo bem demais por conta da lenda na qual trabalha em cima primordialmente, e por expor o modus operandi da BOCA DO LIXO vindo de quem a conhecia por dentro. Com direito a peitos, bundas, violência, charlatanice, pilantragem, cafonice, originalidade, autorismo forçoso, sensacionalismo e muita vontade e tesão pelo cinema. Do jeito que eu gosto. FILMÃO DA BOCA DO LIXO.

Crítica integrante do especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

Comentários (1)

Igor Guimarães | sábado, 31 de Outubro de 2020 - 05:22

o crítico mais cara de pau e mão de tijolo do cinema brasileiro. Grande filme!

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