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Críticas

Cineplayers

O horror mora ao lado.

9,0

Saber amargo o que se pode obter na viagem!
O mundo, hoje pequeno e quase sem remédio,
Hoje, ontem, amanhã, nos faz ver nossa imagem:
Sempre um oásis de horror num deserto de tédio!

- A Viagem, Charles Baudelaire


A estrofe acima - cujo último verso epigrafa a obra-prima contemporânea 2666, do chileno Roberto Bolaño – cai como uma luva no longa ficcional de estreia do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (idem, 2012). As múltiplas narrativas de sua obra compõem, ao longo de mais duas horas, um perturbador retrato da vida urbana – onde cada conjunto de paredes e teto isola um inferno particular que presenciamos diariamente através de sons constantes, estranhos e ignorados, e janelas e sacadas demarcando uma distância gigantesca entre seus indivíduos.

Dividido em atos separados por cartões-título, O Som ao Redor testemunha a lenta transformação, ao gosto do diretor desde o início da sua carreira, de rituais cotidianos em repetições grotescas. Não há um indivíduo seu que não esteja solitário, desesperado, na ânsia de comunicação e expressão dos desejos – só feita com a câmera e o espectador. Como o próprio nome já pode sugerir, a presença do som de fora do quadro é um dos elementos que fazem a obra de Kleber Mendonça Filho um esforço artístico tão desafiador: muito pouco é delegado ou subordinado às imagens além da expressão de angústia e distância.

Os sons, elementos estes que jamais podemos precisar com certeza, mas também nunca podemos desviar o sentido da audição deles, como ocorre com a visão, formam o principal elo daquele universo. As rimas sonoras criadas pelo diretor, trabalhadas em frequência e volume, criam um filme de atmosfera ao mesmo tempo imensa e opressora, mais próximo do que gostaríamos de estar e distante demais para que possamos nos envolver da forma dramatúrgica tradicional; no final, a cidade é uma grande prisão e todos nós estamos presos nela.

A vida desses personagens, entre eles uma dona de casa, um corretor de imóveis, seu tio, seu primo marginal e seu avô Francisco, dono de uma rua inteira, senhor feudal da cidade grande, guarda um desespero contido: o corretor não parece gostar do trabalho e tem um relacionamento distante e ao mesmo próximo com uma jovem. O primo vive causando problemas – mesmo rico, seu tédio o impele a roubar carros. A dona de casa passa os dias entre cuidar dos filhos, fumar maconha e se masturbar em segredo, e de sofrer de uma insônia crônica motivada pelo barulhento cachorro vizinho.

Esse desespero contido será ainda mais revelado quando chegam à rua Clodoaldo e seus homens, uma milícia de seguranças que oferece por algum custo a proteção da rua de marginais. Esse Brasil ficcional grande, aberto, filmado, bem-iluminado mas ao mesmo tempo tedioso, vazio, estéril, filmado em janela panorâmica (isto é, grande proporção de tela) só existe na casa dos ricos; as fotografias que abrem o filme, mostrando um Brasil ainda recente, do início do século passado, rural, dominado por coronéis e pelo racismo, mostram que a situação ainda não mudou muito – os donos dos imóveis são brancos, os empregados e funcionários são negros ou mestiços. Tudo corre em um desespero contido que jamais parece desaguar em lugar algum – a falta de catarse do filme é o que torna tudo mais desesperado nessa catarse de sons e situações solitárias.

Clodoaldo e seus homens, incluindo seu irmão, surgem como os “cobradores” – sua relação com a rua, que guarda um segredo sinistro, só será revelado no anticlimático final do filme. Enquanto isso eles instituem suas rotinas, seduzem os subordinados que já estavam lá, punem os marginais que ousam chegar perto dos ricos (só os negros e pobres – o rico marginal, apesar de ser ameaçado, jamais é punido). Eles são a ameaça e vingança que nunca veremos propriamente, mas testemunharemos o tempo todo. O grito dos esmagados, gritando do seu próprio jeito errático e distorcido.

Afinal, O Som ao Redor é um anti-terror. A ameaça é estendida em longos tempos diegéticos, em grandes espaços, em situações engraçadas no seu absurdo. Mas seu cerne, sua base fundamental, é uma longa jornada de horror que envolve espera, tédio, rotina e mais espera.

Seus personagens só levemente incomodados entre uma elipse e outra começam a tornar-se, aos nossos piscares de olhos e aos nossos incomodados ouvidos, os verdadeiros “monstros do conformismo” que são: bestas que brincam com o perigo, que agem de forma ao mesmo tempo condescendente e autoritária com seus empregados (que se transfiguram nos indivíduos que são apenas quando os patrões estão longe), que vestem roupas elegantes, que criaram aquele oásis macabro de concreto, uma verdadeira edificação megalômana e egoísta no meio de um país e um estado ainda  tão necessitados mesmo com toda a sua riqueza.

A cobrança de Clodoaldo é expor a fragilidade daquelas vidas – homens que se julgam deuses, deuses estes condenados a viver em sociedade, inertes de ação e de temperamento cinzento, que contemplam um mundo em plena entropia (como quando a dona de casa contempla um garoto de rua no telhado, mas nada faz) – e a de Kleber Mendonça Filho, filmá-las.

Sua maneira de filmar, com seus longos silêncios barulhentos, com sua dramaturgia desdramatizada, revela um domínio sem igual do ofício que diz sem jamais evidenciar – ao contrário da podridão generalizada e caricata de um Todd Solondz em Felicidade (Happiness, 1998) ou do minimalismo inflamado e impactante de um Sergio Bianchi em Cronicamente Inviável (idem, 2000), Kleber filma de forma sutil um filme grotesco e assustador. Com sua sensação constante de coisa errada que jamais se concretiza de fato, talvez o mais perturbador de O Som ao Redor seja o fato de se acostumar com ele, guardar aquelas personagens, relacionar sua realidade com a nossa; incômodo de propósito em suas intervenções pequenas e assustadoras, o filme é tão imersivo quanto desconfortável. O controle do tempo é essencial justamente para a criação de suspense e frustração – nada se concretiza em um mundo abandonado e sem respostas.

O filme de Mendonça – relacionado levemente em sua proposta com o mais recente filme de Biachi, Os Inquilinos – Os Incomodados que Se Mudem (idem, 2010) – mostra a aterradora visão de um Brasil antiquado com a máscara de moderno, trocando homens de confiança por milícia, donos de terra por donos de imóveis, escravos por subordinados. Supostamente mais tolerante, mais liberal, mais democrático – mas sob a égide do capitalismo selvagem, tão imperial e colonial quanto aquele que o precedeu.

Longe do panfletarismo antidireitista e mais perto da abordagem mais poética (uma poesia grotesca, solitária, desesperada, que grita, mas estamos talvez viciados demais para ouvir um grito silencioso), O Som ao Redor é muito provavelmente um dos filmes mais poderosos dos últimos tempos lançados no Brasil – sua matéria-prima estética traz abordagem pouco usual nos longas-metragens cada vez mais industrializados lançados por aqui. Seu teor de novidade, oriundo do universo dos curtas (Mendonça é um dos mais renomados diretores dessa modalidade dos últimos tempos em nosso país) lança as bases de um cinema sem medo de trabalhar com o rompimento da diegese normal, do compromisso de remar contra a maré da mise em scène engessada e de trabalhar a relação entre som e imagem de forma pouco óbvia e com enorme peso narrativo, além do roteiro mais interessado em ver onde tudo vai dar do que em julgar ou absolver. O Som ao Redor exprime as linhas de força de um cinema de resistência, com seu tom de urgência silencioso e contemplativo, que o espectador ri de nervoso, espera mas não ganha, quer ver, mas não tem certeza. A manipulação irônica necessária de um poema audiovisual.

Já inertes demais para gritar, nos resta terminar tudo em um estouro, um dos muitos ruídos que cortam a noite. Para o pior tipo de surdo, aquele que não quer ouvir, não há nada pior que os sons vizinhos. E Kleber cruelmente nos obriga, após a maré lenta e intensa de vozes e ruídos, a ficarmos com o nosso próprio silêncio.

Comentários (15)

Renata Correia Nunes | sexta-feira, 04 de Julho de 2014 - 10:24 | Responder

Gostei muito do filme. Toda vez que o cinema nacional se presta a fazer um trabalho sério e de qualidade, tem a minha atenção. Mas eu achei a direção um tanto irregular, ao mesmo tempo que faz um ótimo trabalho de leitura das cenas, com a perspectiva, o ritmo, também traz cenas gratuitas e que tornam o filme cansativo algumas vezes. Eu não gostei da mixagem de som, muitas vezes não consegui entender o que os atores falavam. Mas fora isso, o roteiro é demais, o estudo da classe média é o ponto forte do filme. Gratíssima surpresa.

Caio Henrique | sexta-feira, 04 de Julho de 2014 - 11:31 | Responder

O maior problema que eu vi no filme é aquela subtrama do filhinho de papai que busca no passado as recordações de sua infância(assim como sua namorada) na esperança de resgatar um tempo perdido. Se tivessem explorado mais a figura do "Dono de Engenho" talvez pudessem escapar desse romancezinho sem graça...

Caio Henrique | sexta-feira, 04 de Julho de 2014 - 11:45 | Responder

É interessante observar a forma como o Kleber começa o filme, remetendo à um passado de uma cultura com resquícios coloniais, apresentando por meio de imagens um povo de origem humilde e rural, entre empregados e empregadores e o salto que é dado para um presente onde imobiliárias substituíram os outrora chamados senhores do engenho. Nada realmente fora alterado, apenas substituído.

Léo Félix | sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015 - 01:35 | Responder

Vi ontem. Gostei bastante! Um excelente retrato da sociedade brasileira contemporânea. Porém, como disse a Renata ali embaixo, tb me incomodou bastante o áudio nos diálogos, que ficam bastante incompreensíveis em determinados momentos.

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