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Som do Silêncio, O

(Sound of Metal, 2020)
7,7
Média
111 votos
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Críticas

Cineplayers

O ruído do deslocado

8,0

2020 está perto do seu fim. Um grande alívio. O ano da pandemia também foi o ano do sofá, o ano das paredes, da solidão, de perdas irremediáveis. Muito por conta disso, os serviços de streaming nunca deixaram de trabalhar, muito pelo contrário, vimos diversas estreias diretamente lançadas nas plataformas mais conhecidas. O Som do Silêncio (2020) é mais uma delas.

Num ano em que passamos boa parte do tempo em alguma tela, buscando ouvir alguma referência de conforto para o caos, o longa-metragem de Darius Marder chega pesado nas mentes dos espectadores retirando uma das principais ferramentas sensoriais e referencias do ser humano: a audição.

Ruben, magistralmente vivido por Riz Ahmed, é um baterista em plena road tour com a sua banda de Heavy Metal capitaneada por ele e sua companheira, Lou (Olivia Cooke). Ambos parecem viver em sintonia total tanto no palco como fora. A sequência de abertura, por exemplo, focaliza na força e na potência expressiva do corpo de Ahmed para explorar a explosão necessária para dominar o seu instrumento.

Para que o som seja ouvido e processado, o mesmo depende da intensidade (ou nível de pressão sonora). Porém, imagina o drama desse efeito no cérebro de um músico? Sim, a audição para um músico está bem além de um processador de sinal. É muito mais do que isso. Os ouvidos dos músicos são antenas para o mundo. Entrada para tudo o que percebe-se de belo. Os músicos se apaixonam por sons e, a partir daí, entendem os outros sentidos.

A narrativa apresenta personagens dotados de fraquezas humanas evidentes e em plena descoberta sobre si mesmos. Tanto Lou como Ruben superam traumas para estar onde estão. A primeira com histórico suicida marcado pelos pulsos, e o segundo por adicção à heroína, abraçam o amor e o mesmo sonho. Durante quatro anos, dividem palcos, paletas, baquetas e a cama, até a chegada do silêncio. A deficiência auditiva do protagonista explode tão rápido quanto um show inesquecível. A sintonia fina do casal daria lugar ao infernal ruído do desconhecido.

Ruben, numa tentativa de escape de sua realidade – e, cá entre nós, encontro fatal com Jack de Nasce uma Estrela (A Star Is Born, 2018) –,  busca apelar para o abismo das drogas, mas sua companheira não aceita; apresenta-lhe, em contrapartida, uma comunidade de surdos coordenada por Joe (em inspirada forma vivido Paul Raci). Em princípio, o baterista é reticente em ficar longe da namorada, rejeita a proposta de permanecer na comunidade por conta da rigidez e da eminente separação com Lou, mas a sua situação não lhe deixa escolhas.

Os primeiros dias do protagonista com os seus novos companheiros são angustiantes. Marder não faz Ahmed correr desesperado como Leos Carax fizera com Denis Lavant em Sangue Ruim (Mauvais Sang, 1986), mas utiliza a premissa do permanente deslocado para registrar o processo de compreensão de seu novo eu. Alguns podem julgar tudo muito rápido, mas o domínio de edição do autor registra com agressividade os efeitos sonoros da queda e o aumento do som ao espectador, contrastando com a total surdez do protagonista. Dentro do processo de desconhecimento sobre o principal sentido na vida de um músico, não havia muito espaço para sofrer, aquela nova sociedade era vital para imediata ressocialização em comunidade do protagonista.

Num filme cheio de acertos, possivelmente um dos mais interessantes deles é quando Ruben começa a formar os seus primeiros laços com os seus novos comuns, não mais músicos, mas sim surdos. A noção de coletividade musical dominada pelo baterista passara a ser testada num outro ambiente, onde a música deixa de ser ouvida e passa a ser percebida.

Portanto, nesta dialética entre indivíduo e coletivo, ou ainda entre encontro e deslocamento, a narrativa escreve os seus rumos. Entre adaptar um sonho de vida e aceitar a realidade há um abismo. As invasões escondidas à central de comunicação do centro são um exemplo disso. Sempre que entra naquele quarto escondido, o personagem central tenta retomar algo que já não lhe pertence. O tom nostálgico é muito presente.

O filme, apesar de notoriamente dramático, nunca é apelativo, pelo contrário – educa o espectador enquanto desafia o seu protagonista. Aprendemos o tamanho do incômodo que pode ser desencontrar-se quando o pior parecia já haver passado, o barulho que significa a solidão de não pertencer mais ao que o definia. Viajamos no ensurdecedor silêncio de um personagem errante, mas que definitivamente não é doente.

Esse texto foi escrito em colaboração do Felipe Ferreira
Felipe Ferreira é músico, poeta, compositor e agente cultural radicado em Niterói - RJ.

Comentários (3)

Rodrigo Miranda de Andrade | terça-feira, 15 de Dezembro de 2020 - 09:09

Muito bom texto Igor! Gostei bastante do filme também. Uma grata surpresa de 2020.

Rodrigo Torres | terça-feira, 15 de Dezembro de 2020 - 19:33

Caraca, xará. Eu usei EXATAMENTE AS MESMAS PALAVRAS com o Igor hoje, hahahaha. É isso, grata surpresa. Inclusive, foi me surpreendendo ao longo do próprio filme.

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