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Sombra do Pai, A

(Sombra do Pai, A, 2018)
6,8
Média
9 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Perto do coração selvagem.

8,5
A situação de Gabriela Amaral Almeida me remete diretamente a de Kleber Mendonça Filho num cenário de construção de carreira. Com um número expressivo de curtas consagrados, sua trajetória faz muito mais sentido quando se abrange na totalidade. Simplesmente não tem como classificá-la a partir de Animal Cordial, como sugere a última e irresponsável listagem da ANCINE para cineastas e produtoras, que distribui a atribuir uma pontuação absurda a cineastas, desconsiderando o formato curta-metragem como linguagem cinematográfica. A história de Gabriela no cinema brasileiro não começou no mês passado, com o lançamento comercial de seu primeiro longa. Ela tem tanta sede que seu novo filme já está pronto e atesta a maturidade de Gabriela, voando ao mesmo tempo num céu confortável e expandindo seu olhar como tradutora de imagens e disseminadora de um movimento benéfico de revitalização de ferramentas de gênero no nosso cinema.

Em seu segundo longa, Gabriela parece muito mais à vontade para inclusive se referendar. Para quem a conhece, sua carreira passa em frente ao espectador e é possível traçar um paralelo entre esses filmes de épocas diferentes porém com suas interligações. A investigação da autora passa pela construção de gênero de maneira ampla, tanto através de sua assumida formação como cinéfila de cinema fantástico desde a infância, até os pontos onde ela elabora os padrões humanos de acordo com seu sexo, só para remodelar essas funções sociais que nossa genética moldou. Abrindo mão da sutileza abertamente, ela demarca seu território com destreza e com liberdade, permitindo esse gesto revisionista com sua própria narrativa particular. 

Repletos de perdas e decepções, os três personagens centrais do filme vivem em estágio de permanente dependência. Jorge perdeu a esposa e vive uma existência alijada. Dalva perdeu a mãe, mas pode estar vivendo sua orfandade descobrindo novas camadas de seu futuro. Cristina perdeu o amor próprio, e ao aceitar casar com um homem que não ama, se preocupa da sobrinha sozinha com o irmão. Quando essa estrutura tornar a rachar, a vida dos três estarão submersas na força de suas histórias em ligação ao extraordinário. 

Gabriela constrói esse roteiro simples de maneira bem sofisticada, criando três personagens que deveriam ser dissecados e que mostram uma clara evolução sobre a sua obra. Passeando entre um universo sutil e outro mais explícito, o filme se assume para discutir alienação parental, maus tratos, depressão, entrada na adolescência feminina, entre outros.

Cada um desses elementos é tratado como se metaforizasse formas de apresentar o cinema de gênero. Dalva é uma criança que ama filmes de terror, e que está assistindo durante o filme dois filmes específicos, Cemitério Maldito e A Noite dos Mortos Vivos, e tanto Mary Lambert quanto Romero são homenageados aqui através das tensões que partem da menina para compor seus pais. Contando com a ajuda de uma montadora tão especial quanto Karen Akerman, o filme joga com a imaginação para que criemos as possibilidades de narração de uma história universal, sendo apresentada com características essencialmente do nosso cinema e com as nossas referências. O trabalho fotográfico de Bárbara Alvarez (de Que Horas Ela Volta?) atinge um auge de elegância aliado às potencialidades de Gabriela, construindo uma variedade de imagens que nascem icônicas, como a da árvore escura.

Mais uma vez bebendo na fonte da recriação de um universo de horror dentro de um ambiente naturalizado como a chacoalhar as estruturas do que está literalmente inerte, Gabriela Amaral Almeida tem um universo em expansão pronto para ganhar maturidade imagética. Seu olhar intenso na vontade de reformular códigos utilizados no país apenas pelo (melo)drama e eventualmente pelo humor, já a diferencia de outros cineastas de qualquer gênero no país. Sua intenção aqui é racionalizar a fábula através de um reconhecido modus operandi de papéis da sociedade - filho cuida de pai/pai cuida de filho, misturando à carga emocional cargas igualmente reconhecidas do terror. É uma construção que está no próprio filme e vai além, constituindo também a formação do próprio cinema de Gabriela, que no futuro terá um quadro de alcance muito mais profundo, a julgar pelo caminho consciente que ela demonstra tomar.

Filme visto no Festival de Cinema de Brasília

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