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Soul

(Soul, 2020)
7,9
Média
93 votos
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Sua nota

Críticas

Usuários

Sob uma outra perspectiva

8,0

De diversas maneiras diferentes, Soul é um ponto importante na história da Pixar. Em um ano onde tudo foi estranho, estúdios se adaptaram e a Disney lançou o próprio serviço de streaming devido à pandemia que ainda assola o planeta, o filme deixou de ter um grande lançamento nos cinemas para bombar a grade da Disney Plus como sua principal estreia de Natal. E além de acertar novamente nos pontos onde outros grandes sucessos da empresa foram felizes, acaba se tornando também um símbolo de uma época difícil em que estamos vivendo no Brasil e no mundo.

Soul é a história de um professor de música que começa o filme recebendo a notícia de que será contratado pela escola, recebendo salário, décimo terceiro, férias e todos os direitos que qualquer mãe pobre sonharia para o filho em ascensão. Mas esse não é o de Joe. Destinado a ensinar crianças nem sempre interessadas, foi deixando de lado, por diversos motivos diferentes, o sonho de viver como músico, não apenas da música. Já com idade avançada e ainda sustentado pela mãe, recebe o convite de um ex-aluno para tocar com uma importante estrela. Ou seja, a chance de sua vida. Ele vai bem e é confirmado no show. De tão feliz, acaba se distraindo e caindo em um bueiro, resultando na sua inesperada morte antes da realização do seu objetivo de vida.

Parando para pensar um pouco, Soul é um filme de falsa simplicidade. Em sua estrutura, não há nada de outro planeta. Nem em seus personagens, e até os mundos criados de forma extremamente criativa são menores do que em outras obras. Há uma divisão narrativa entre o mundo dos vivos, mais precisamente em Nova York, e o das almas (e não dos mortos). São poucas locações, poucos personagens… (piadadetiozao) Só que não é bem assim que a banda toca. (/piadadetiozao)

Soul é um daqueles filmes cheios de camadas, lotado de pequenos significados que conforme vão aparecendo enriquecem bastante a obra. O primeiro ponto a ser destacado é a questão da nossa nova realidade. Em 2020, muitas pessoas perderam suas vidas de uma hora para a outra por causa do Covid. Outras sobreviveram e conseguiram encontrar um ressignificado à sua existência. Coincidentemente, Soul é sobre isso, então não poderia ter vindo em melhor momento. É um filme que dialoga sobre o modo como vivemos, o que construímos com os dias em branco que temos e o porquê vivemos. Mais para a frente detalho em spoilers algumas coisas que quero falar sobre isso.

Um segundo ponto que merece muito destaque é o fator representatividade, outra questão muito discutida em 2020. Soul é sobre música negra, com ídolos negros e com um protagonista negro. Então é um tema muito atual, com história relevante que não parece empurrada; ela simplesmente combina bem seus agentes. Soul é alma, é o gênero musical e são os protagonistas da trama. Tudo interligado assim.

Quando vi o trailer, pensei que o filme fosse usar e abusar mais da música em sua trama. Mas, na verdade, ela é importante para a história de Joe, e só para ele, não para a do filme, e como ele constrói isso é que esbarra na genialidade da Pixar em criar os seus mundos e narrativas. Quando Joe morre e a alma em tons de azul entra em cena, pensava que mais um protagonista negro seria usado como ferramenta inclusiva ao invés de ser verdadeiramente desenvolvido - algo que me incomoda muito em A Princesa e o Sapo, por exemplo.

Mas não é assim. O terceiro ponto relevante que merece destaque é a questão de como o pré e pós vidas são apresentados pelo longa. Ao invés de Joe sumir e dar lugar a um ser fofinho, habilmente a narrativa transita entre os dois planos para construir algo intrigante, divertido e criativo - isso até me causou surpresa, já que os trailers não estragaram todas as surpresas. Diferente de Viva - A Vida é uma Festa, aqui os mortos estão apenas deixando de existir com suas almas tendo pouco a fazer quando o corpo morre, em uma cena até bastante creepy, com sons que lembram o estalar de insetos daquelas raquetes elétricas de 1,99 coloridas.

É bacana como a Pixar constrói as almas jovens - sem forma, pois ainda não conheceram os seus corpos - e as diferenciam de almas já desencarnadas - que sustentam as formas de seus humanos. É aí que surge 22 na história, a vigésima segunda alma já criada no universo, mas que nunca encarnou por não achar graça na vida na Terra. Ela já teve inúmeros instrutores - almas que desencarnaram e ajudam as novas a encontrarem objetivos em suas vidas, algumas hilárias -, mas é apenas em sua interação com Joe que ela descobre alguns sentimentos antes intocados.

Também naquele universo estão os seres que controlam tudo, sempre unidimensionais, sem a tridimensionalidade a que as novas gerações estão acostumadas. Seriam eles uma metáfora para as antigas animações? Seus traços e cores são muito diferentes - e lindos. Isso cria uma rima temática interessante, além de haver uma mística enigmática em volta de suas aparências curiosas. A dinâmica com o gato também foi outro ponto inteligente do longa que os trailers não entregaram. Até mesmo as viajadas que as pessoas dão quando estão muito reclusas à sua vibe particular a Pixar pensou e deu uma forma de ilustrar. E tudo isso acontece enquanto Joe tenta voltar para o seu corpo e realizar o seu sonho e ajuda 22 a descobrir o seu propósito para finalmente encarnar.

De certa maneira, Soul resgata uma simplicidade incrível dos temas que aborda, mas sem banalizar. A vida é simples, a gente que complica.

Se você ainda não viu o filme, corra e vá. Mas se quiser continuar a leitura, agora é por sua conta em risco. Estamos na zona de spoilers.

Spoiler em um filme da Pixar? Sim, é possível. E isso que comprova a genialidade narrativa de Soul. É um filme que pega na nossa mão e conta toda a história de Joe, sem nos fazer perceber que, na verdade, a mensagem é outra. Não é sobre o objetivo de vida dele. Também não é sobre realizar seus sonhos. Tudo aquilo, na verdade, é sobre a simplicidade de se viver que todos deveriam valorizar. Isso colide forte com nossas próprias lembranças.

Conforme envelhecemos, somos o resultado daquilo que construímos em vida. Nem sempre ficamos satisfeitos com o resultado. Quando criança - e 22 é isso, apesar de ser uma das almas mais antigas que existem -, nos encantamos com pequenas coisas e aos poucos deixamos esse deslumbramento de lado. Damos atenção demais a mínimas ranhuras que nem deveriam ter importância. E isso vai nos consumindo. Muitas vezes, toda nossa energia é sugada pelo que está ao nosso redor e o filme é muito feliz em retratar isso nas almas perdidas, de aparência assustadora, diferente das almas ainda puras, em paz.

Joe também percebe isso. Como é bom viver, fazer aquilo que gostamos, sentir a água do mar, o vento, o tato… Sensações que só quando estamos vivos podemos sentir. O verdadeiro prazer. Tão cotidianas que só damos valor quando perdemos. No caso de 22, ela nunca tinha chegado a ter, por isso não conseguia enxergar a graça em estar viva. A forma como o filme aborda esse sentido, não necessariamente como um objetivo, mas sim estar pronto para viver, é lindo demais. Nenhum trailer entrega isso. É um final surpresa, que bate forte como um maremoto no casco de um navio velho.

Pessoalmente, me conectei muito com Soul. Engraçado que mesmo antes de 2020 sempre tentei viver assim, dando valor às pequenas coisas. Sempre mandando mensagens para amigos sumidos, pegando sol, sentindo prazer em olhar um céu azul. Na quarentena, amava ver o por do sol com pipas hoje sumidas no céu. Por que deixamos a vida nos afastar daquilo e daqueles que gostamos? Essa reclusão social fez muita gente pensar nesse tipo de situação também, então esse é o último motivo para Soul ser tão relevante. Ele é atual até dizer chega.

Sem prever a pandemia, a Pixar trouxe a mensagem certa na época certa. Estamos vivos e não sabemos o dia de amanhã. Ele vai passar e não vai voltar. Você está pronto para isso? Está vivendo como quer, dentro de suas condições? Por que perder tempo fazendo coisas que não quer? As pessoas não vão estar com a gente para sempre, também. Cazuza já disse, o tempo não para, e na humildade completo que não podemos voltar atrás.

Aproveitem a vida.
E vejam Soul.

Comentários (10)

Rodrigo Cunha | quinta-feira, 31 de Dezembro de 2020 - 03:47

Só uma observação: reduzi a nota de 9 para 8 por pura comparação com outras notas. Quando comecei a montar o top do ano (que será divulgado dia 4, como sempre fazemos), notei que tinha exagerado um pouco por preferir outros filmes que eu havia dado nota 8. Só isso.

João Pedro Duarte | sexta-feira, 01 de Janeiro de 2021 - 15:48

8 é uma nota justa. Rodrigo, esse ano não terá o top usuários do ano?

Rodrigo Cunha | sexta-feira, 01 de Janeiro de 2021 - 16:29

Vai ter sim, vou criar hoje!

Carlos Eduardo | sábado, 02 de Janeiro de 2021 - 08:09

Show de bola. Já vou preparar a lista.

Alexandre Koball | sexta-feira, 01 de Janeiro de 2021 - 16:17

Possivelmente o melhor filme da Pixar de todos os tempos. Melhor esperar uns dias pra ver se não é só hipérbole.

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