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Suspiria - A Dança do Medo

(Suspiria, 2018)
6,3
Usuários
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O olhar de Guadagdino sobre Suspiria é disperso, frio, e repleto de momentos de alto valor.

7,0
Não havemos de perder tempo perguntando o por que diabos realizar um remake de Suspiria, um clássico do terror italiano, pois essa pergunta já foi feita há mais de dez anos, quando as primeiras notícias de que uma nova versão do filme de Argento estaria em curso saíram. E então, o que no começo era expectativa fria, tornou-se uma curiosidade um pouco mais intensa a partir do lançamento do trailer, que mostrava claramente um distanciamento da lisergia visual do Suspiria original.

Naturalmente, podemos nos questionar por que diabos realizar um remake de Suspiria e se afastar da lisergia visual do original, sobrando então apenas a história, o único ponto fraco do filme do Argento (que é um filme tão genial que triunfa sobre esse “defeito”). Mas enfim, Luca Guadagdino, recém-saído de seu maior sucesso (Me Chame Pelo Seu Nome, 2017), encarou o desafio e embora o resultado não chegue aos pés de seu homônimo de 1977, esse novo Suspiria é um terror decente. Disperso, durante suas duas horas e meia, mas um bocado memorável em seus momentos chave.

A história acontece na dividida Berlim de 1977 e os ecos da Guerra Fria e da Segunda Guerra Mundial são evidentes. Susie (Dakota Johnson), uma jovem menonita de Ohio, parte para a cidade a fim de realizar uma audição para a prestigiada escola de dança Markos, localizada na parte ocidental da capital alemã. Por coincidência, uma vaga acabara de ser aberta após o desaparecimento de uma das estudantes (Patricia, interpretada por Chloë Grace Moretz). 

Ao contrário do que acontece no filme original, aqui o antro de bruxas é revelado ao espectador logo de cara. E mais: não apenas todo o staff da companhia Markos é composto por um grupo organizado de bruxas, como há uma disputa de poder em curso entre Madame Blanc (Tilda Swinton) e Helena Markos, com esta última sagrando-se vencedora após uma votação.

Em termos narrativos, o que mais distingue esse novo Suspiria da sua versão original é o entrelaçamento dos eventos da história com acontecimentos reais, como a cobertura da imprensa acerca do “Lufthansa Flight 181” (o sequestro de um avião de passageiros pela Frente Popular de Libertação da Palestina) ou a memória do holocausto. Embora o roteiro se esforce para estabelecer relação entre essas coisas com o lado sobrenatural do filme, tangenciando temas como culpa, violência, maternidade e até feminismo, a motivação para tal é confusa e a execução é, para dizer o mínimo, fraca.

Além disso, o filme é desnecessariamente dividido em seis atos mais um epílogo. Estruturalmente, peca pelo excesso: de elementos e acontecimentos na história, de rebuscamento, de temas e personagens periféricos, etc. Guadagnido (que certamente teve envolvimento chave no roteiro), por outro lado, faz um trabalho interessante na direção, optando por uma paleta com pouquíssimas cores, dotada de tons frios e escuros. Nota-se também a ausência total de jump scares. O diretor aposta alto que a criação duma atmosfera inquietante e opressiva, com a justaposição do antro de bruxas com a gélida Berlim pós-Segunda Guerra, seja suficiente para aterrorizar o espectador. 

Embora o filme seja lento e demasiadamente longo, existem três momentos chave que fazem a experiência valer a pena. As constantes sequências de sonho são um deleite visual à parte, uma espécie de versão naturalista da fita da Samara. A segunda sequência de dança da Susie, que sela o destino de uma das dançarinas, também é especialmente marcante, principalmente pela ausência de música, fazendo com que os ruídos e barulhos façam o papel da mesma, criando uma cena repleta de agonia e aflição. E finalmente, a derradeira sequência do filme, que dura praticamente todo o sexto ato. Caso o espectador esteja suficientemente envolvido e convencido pelo filme até ali, ela promete ser aterrorizante, pesada e inesquecível.

Por fim mas não menos importante, e isso parece ser uma constante em todos os filmes estrelados pela atriz, é impossível não se deliciar com a presença de Tilda Swinton, certamente a maior atriz do cinema de hoje, que aqui não interpreta apenas um, mas três personagens. As expressões e os movimentos de Swinton, em quaisquer de seus personagens aqui, são hipnotizantes e, além das três sequências já mencionadas, fazem com que essa nova versão de Suspiria, embora por motivos completamente distintos à obra-prima de Dario Argento (e em níveis muito, mas muito menores), valha bastante a pena.

Comentários (3)

Bernardo D.I. Brum | segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019 - 17:06 | Responder

Bakunin viu antes pois está residindo em Portugal. Nos cinemas brasileiros, só 28 de março.

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