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Críticas

Cineplayers

O triunfo da forma sobre o conteúdo.

10,0
Três anos após levar aos cinemas Prelúdio Para Matar, considerado por muitos a sua obra-prima e certamente o giallo cabal do cinema, Dario Argento lança Suspiria, afastando-se do giallo (sem abandoná-lo) para explorar uma mansão mal assombrada que guarda segredos terríveis. A dançarina Suzy Bannion desembarca em Freiburg, na Alemanha, a fim de admitir-se na academia de dança Tanz. A cidade, como que num presságio, recebe Suzy com uma chuva torrencial, e as portas fechadas aos gritos de “vá embora” deveriam ter sido suficientes para que Suzy desse meia volta para a América.

Mais do que a história de Suzy e da mansão que abriga a academia Tanz, Suspiria é um filme sobre o triunfo do cinema, onde Argento descarta, por desleixo, vontade própria ou incompetência – não importa – estruturas básicas de roteiro, verossimilhança e desenvolvimento aprofundado de personagens em prol das imagens, dos sons, da experiência. 

O estímulo aqui é lançar essa princesa frágil e esbugalhada numa mansão de horrores, e fazer o espectador de testemunha privilegiada desse pesadelo apoteótico embalado pelo aterrorizante rock progressivo do grupo italiano Goblin e pela fotografia ultra-expressiva e saturada de Luciano Tovoli. Orquestrado por Argento, esse terror conta ainda com uma cenografia especialmente marcante, que através de corredores asfixiantes e passagens secretas, leva os personagens para caminhos sem volta.

Ao encarnar de uma só vez os espíritos de Mario Bava, Alfred Hitchcock e Brian de Palma (e um bocado a mais de referências cinematográficas das mais diversas, indo de Alice no País das Maravilhas até Fellini), Argento não apenas realiza uma obra-prima absurda, mas resolve de uma vez por todas o conflito entre forma e conteúdo. Quando qualquer incauto desavisado reclamar da falta de substância em alguma obra cinematográfica especialmente potente, basta esfregar Suspiria na cara dele para fazê-lo enxergar que a substância de um filme PODE ser simplesmente a experiência dele, e não há como colocar valor nisso.

A cereja no topo disso tudo é que Suspiria não é apenas uma experiência estética poderosa, mas um puta filme de terror, que a despeito de efeitos especiais que provavelmente já eram ultrapassados em 1977 e de atuações caricatas (propositalmente, talvez; impossível não notar a semelhança evidente entre as sequências de fuga de Suspiria e Branca de Neve e os Sete Anões, por exemplo), consegue mesmo nos dias de hoje assustar, aterrorizar e inquietar o espectador.

Não tenha dúvida: das primeiras sequências que exploram o exterior de Freiburg sob uma escuridão interrompida apenas por breves pontos de luz vermelhas e verdes, passando pela cena espetacular dos primeiros assassinatos até os inesquecíveis créditos finais, que creditam o mestre Mario Bava (ainda muito subestimado em territórios onde o cinema e a academia andam juntos) e mostram os dizeres “You have been watching Suspiria” (a própria literalidade da experiência!), esse filme é uma obra profundamente relevante e significativa de um artesão como poucos do cinema, em plena forma. Uma forma quase irretocável, que durou mais de vinte anos e que, ainda hoje, consegue mostrar qualidade tremenda em obras um pouco mais modestas.

Comentários (3)

Leonardo Ferreira Sampaio | terça-feira, 27 de Novembro de 2018 - 10:48 | Responder

Ótima critica. Não sou um dos maiores fás do Argento, mas esse filme realmente tem uma energia só dele, que cria uma experiencia foda mesmo. Mesmo não dando uma nota muito alta pra ele algo dele ficou comigo depois, algo que não vi em nenhum outro filme. Embora as atuações e uns probleminhas de roteiro me tiram, mesmo com toda essa sensorialidade. Mas muito legal a comparação com Branca de Neve, talvez reveja e quem sabe gosto mais ainda.

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