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Sweet Sweetback's Baadasssss Song

(Sweet Sweetback's Baadasssss Song, 1971)
7,1
Média
44 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

“Este filme é dedicado a todos os Irmãos e Irmãs que não suportam mais o Homem”

8,5

É com essa escritura no fotograma direta e na lata que Melvin Van Peebles inicia sua obra mais conhecida e relevante, que com seu contexto marginal, narrativa fragmentada e pulante, sua trilha sonora soul-funk gravada por um então desconhecido Earth Wind and Fire e sua forma única de abordar personagens causou um abalo em todo o cinema underground e independente. Além disso, foi o responsável direto, ao lado de Shaft, por dar o pontapé inicial no movimento blaxploitation, que tornaria famosos diretores como Gordon Parks e Parks Jr, Jack Hill e Larry Cohen, atores como Richard Roundtree, Fred Williamson e Pam Grier e compositores de trilha sonoras como os geniais Isaac Hayes e Curtis Mayfield.

Antes de ter a sua influência reconhecida e homenageada pelo mainstream em Jackie Brown, de Quentin Tarantino, onde uma atriz exploitation era protagonista em um filme com vários atores do alto escalão, o cinema blaxploitation foi uma das principais forças motrizes na reconfiguração da figura do negro na sociedade americana. E o explosivo filme de Van Peebles traçou as diretrizes de uma década de filmes direcionados para públicos específicos com sua fúria desgovernada e indignada. Segundo o diretor, sua intenção era fazer um filme para as pessoas do terceiro mundo, que ao mesmo tempo tivesse instrução (ou seja, reflexão de valores), mas também entretenimento.

Não à toa que muitas das tramas se parecessem: um negro destemido como vingador das minorias discriminadas. Van Peebles faz de Sweetback um literal “marginal herói”, que acusado de assassinato, jamais coopera com a polícia do distrito, mas sim com cafetões, prostitutas, motoqueiros e os Panteras Negras. O tom ao mesmo tempo sexual e sexista da obra hoje em dia é um tanto cômico, mas fica clara a intenção dos longas do gênero de provocarem controvérsia e revoltar as ligas de moralidade com filmes que falassem abertamente sobre sexualidade, entorpecentes e estilos de vida fora do mundinho WASP (branco, anglo-saxão e protestante).

Obra de narrativa fragmentada, Sweet Swetback é cíclico como uma música funk: sem grade desencadeamento dramático, Van Peebles organizou uma série de episódios relacionados entre si, mas sem um crescimento emocional constante. São vários os picos, todo ditado em um ritmo quase errático, que aproveitou da inexperiência da equipe técnica para improvisar – o filme tem experimentos com efeitos visuais diretamente na película que resultam em brincadeiras quase psicodélicas com as cores, jump cuts a rodo, zooms desconfortáveis, fusões e sobreposições inesperadas, entre outros elementos que foram descritos pelo diretor como se pensados à serviço da música que compôs para o Earth, Wind and Fire tocar. Segundo o mesmo, “a maioria dos diretores olha para um filme em termos de imagem e história ou vice-versa. Efeitos e música são considerados em segundo lugar. Poucos olham um filme com o som considerado como uma terceira dimensão criativa. Então eu calculei o cenário de uma forma que o som pudesse ser usado como parte integral do filme.”

Era rebelde tanto no conteúdo, quanto na forma: Peebles fez um filme para públicos específicos que jamais obedece a narrativa clássica e entalhada em pedra do cinema tipicamente classiscista. Mesmo no título, a palavra “badass”, uma gíria para valentão, é grafada como “baadassss”, provavelmente emulando o modo de falar do jovem negro urbano. Tudo o que “O Homem” representa, o diretor faz questão de ser contra.

Feito na cara, no suor e na coragem, e acima de tudo, na vontade, com um orçamento merreca de 500.000 dólares, filmado em 19 dias, praticamente sem apoio ou segurança nenhuma, com um papel principal inicialmente pensado para o comediante Bill Cosby, mas depois assumido pelo próprio diretor (é dito que Cosby ajudou com alguns trocados), Sweet Sweetback foi envolto nas mais cabulosas histórias de produção – como a quase total inexperiência musical de Van Peebles, o que dificultou bastante a composição da trilha, brigas com Hell’s Angels que havia contratado como figurantes (que acabou com a gangue intimidada pelos rifles que a equipe carregava consigo, já que filmavam em locações reais sem seguranças) ou ainda o caso em que, em uma das muitas cenas de sexo, o diretor teria contraído gonorréia – o que visivelmente não o desanimou, já que o mesmo buscou uma compensação trabalhista no sindicato dos atores por “se machucar” no trabalho e, com o dinheiro, comprou mais película.

Mais do que mera curiosidade, o fato serve pra reforçar o espírito contracultural, que atendia menos aos apelos humanistas de Luther King e mais à revolução violenta de Malcolm X. Ao contrário de tantos outros exploitations que eram verdadeiros gritos desesperados contra a bagunça que estava o mundo – como O Massacre da Serra Elétrica, Aniversário Macabro e Holocausto Canibal – Van Peebles dá um grito de guerra, que encara a ação social do indivíduo dominado pela cultura WASP contra a mesma como algo necessário e imediato.

No final das contas, o diretor não conseguiu seu intento social em grande escala, mas foi profundamente relevante em seu posto de autor dos marginais estadunidenses, influenciando gerações de cineastas independentes que, crescendo com o exploitation, também viriam a dar seus gritos futuramente – seja com a carga ideológica de um Spike Lee ou o formalismo mutante e anti-convencional de Tarantino, ou a independência por opção de Robert Rodriguez – todos devem, em certo nível, à ousadia de um jovem com pouco dinheiro, poucas possibilidades, mas com muito a dizer. Não à toa que continua sendo, mesmo nos dias de hoje, raivoso e incisivo como poucas obras dentro da história do cinema.

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