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Thor: Amor e Trovão

(Thor: Love and Thunder, 2022)
6,3
Média
27 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Entre a inventividade e a repetição

7,0

Em Nova Asgard, uma comunidade de refugiados fantásticos-alienígenas no planeta Terra, turistas são atraídos por peças de baixo orçamento sobre deuses e super-heróis e por relíquias históricas como os estilhaços de Mjölnir, outrora o martelo do poderoso Thor. Uma cultura foi criada desse intercâmbio entre divindades um dia tidas como mitológicas e a humanidade local. Rei Valquíria (Tessa Thompson) governa no sentido de recuperar uma sensação de pertencimento e lar entre os habitantes do lugar, mas o próprio futuro de seu povo é colocado em risco pelos eventos de Thor: Amor e Trovão (Thor: Love and Thunder, 2022).

Com Thor: Ragnarok (idem, 2017), o diretor Taika Waititi trouxe uma abordagem completamente diferente do que tinha sido feito com os personagens do núcleo asgardiado do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, no inglês) até então. Menos régios e suntuosos e mais cômicos e contemporâneos, os avanços de Waititi nesse eixo da franquia mais ambiciosa de Hollywood foram recebidos de forma bem divisiva. Ragnarok não escapava de elaborar o artificial e o farsesco – elementos tão comuns das histórias em quadrinhos, mas reiteradamente excluídos do MCU.

Em seu segundo filme para a saga, Waititi repete essa aproximação mais lúdica do mundo de Thor e é muito feliz nisso. Sua fantasia tem uma característica que poderíamos julgar lamentavelmente superada pela indústria: ela conta com a dissimulação da direção de arte, do figurino, da maquiagem, das cores práticas e da iluminação no lugar do fotorrealismo das imagens gráficas. Nesse sentido, Amor e Trovão se assemelha a obras como as clássicas séries de Jornada nas Estrelas, que, até os anos 1990, aproveitavam-se dos elementos do gênero para experimentar com os artifícios da forma.

Esse aspecto, aliado à maneira como Amor e Trovão sustenta-se muito bem como uma aventura espacial cheia de intertextualidades e releituras de narrativas pré-existentes, faz-me pensar como Waititi seria talvez o diretor ideal para um novo Jornada nas Estrelas, uma figura capaz de dar sentido a uma franquia que tenta se reerguer mas que sofreu muito com a absoluta falta de imaginação de J.J. Abrams. Esse devaneio esconde também uma crítica a Amor e Trovão, em particular, e aos filmes da Marvel de forma geral. Demasiadamente presos a consolidar a aparentemente eterna continuidade da marca, as possibilidades estéticas e narrativas desses filmes (e agora também séries de televisão) são muito restritas e dificulta que eles se apresentem como grandes filmes em si mesmos. Isso não é um pedido nostálgico por um cinema antes do mercado (pois, ainda que algumas economias sejam especialmente nocivas ao meio, não reconheço um cinema separado da economia), mas apenas um reconhecimento das limitações criativas evidentes, e muito visíveis, dos filmes da Marvel.

Assim, ainda que Waititi seja imensamente inventivo, falta um tema para o seu filme, algum fio condutor narrativo que esteja além da observação episódica desses personagens. E por isso me parece que os seus talentos para o cinema massivo seriam melhor utilizados em algum estúdio vizinho. Essa falta de um destino maior para o filme que não esteja tão vinculado ao fato de que terá outro desses depois dele (e, acredite, o novo personagem deixou este leitor de quadrinhos bem entusiasmado para o futuro) afeta muitíssimo qualquer construção de um arco para Jane Foster (Natalie Portman), que deveria ser a grande estrela de Amor e Trovão, mas se torna uma coadjuvante de primeiro escalão para mais uma história de Odinson (Chris Hemsworth).

A infelicidade é que Jane Foster, uma personagem de Thor anterior às intervenções de Waititi, já era bastante mal aproveitada antes e, ainda que Amor e Trovão dê uma nova dimensão a ela, o filme falha em colocar essa personagem no seu centro narrativo e afetivo. Seu protagonismo no arco dos quadrinhos de onde a sua história foi adaptada, escrita por Jason Aaron, é matizado pela aventura do Thor de Hemsworth, um personagem que já deu o que tinha que dar nessa interpretação, mas que segue como um dos mais duradouros de toda a franquia.

É interessante como amarras de mercado são impostas sobre esses personagens em todas as mídias em que eles aparecem, dos quadrinhos ao cinema, mas o risco econômico muito maior deste que daquele parece deixá-las mais à vista. Enquanto Aaron teve o tempo necessário para construir uma história original, dotada de sentido próprio, quase um épico mensal, Waititi parece ter feito o que pôde com a sua encomenda. Inventividade e repetição, artifício e comercialização, no entanto, ainda são contradições pertinentes de se verem encenadas, e Waititi percorre bem essa corda limítrofe, desequilibrando-se constantemente, como haveria de ser.

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