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Titane

(Titane, 2021)
6,8
Média
17 votos
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Críticas

Cineplayers

Por que você sempre quer ir embora?

8,0

Depois de incríveis 28 anos uma mulher volta a vencer o prêmio mais importante do Festival de Cannes. Em 1993, Jane Campion mostrava ao mundo um drama de época vivido por uma pianista muda e sua filha em busca de um novo rumo para suas vidas. É uma mera – e triste – coincidência mas parece que tivemos de esperar realmente dois longos séculos, desde o XIX com O Piano (The Piano, 1993) até finalmente conhecermos Alexa em Titane (Titane, 2021), num filme que é absolutamente do nosso tempo, mas consegue extrapolá-lo, com uma força capaz de sacudir as estruturas do certame mais tradicional do circuito.

O longa começa dentro de um carro em velocidade. Alexa, ainda criança, discute agressivamente com seu pai, este perde o controle abruptamente, e o dois terminam protagonizando um terrível acidente, que termina num tremendo choque de cabeça da filha. O impacto é tão violento ao ponto de não deixar os médicos com outra opção além de realizar uma cirurgia nas partes internas da cabeça da menina, e protegê-la com uma enorme placa metálica, que a acompanharia por toda sua vida.

Julia Ducournau escolhe essa cena inicial, como uma síntese de tudo o que sua protagonista viverá. Assim como em Grave (Raw, 2016), as relações familiares vão temperar a possibilidade e, por conseguinte a veracidade da atitude de suas protagonistas, levando-as a transitar livremente no terreno do absurdo. A partir do acidente e da colocação do metal sobre si, parece que a protagonista desenvolve uma relação de maior proximidade com a máquina, do que com o humano. A diretora francesa vai além de Crash – Estranhos Prazeres (Crash, 1996) de David Cronenberg, que vê nos acidentes de carro uma possibilidade de fetiche, e maior erotismo na relação sexual humana, mas Alexa parece apenas enxergar prazer ao lado do metal, o demais parece-lhe absolutamente convencional, desprezível.

Tudo o que podia ser o maior pesadelo de qualquer um, parece empoderá-la e não a desfigura como uma cicatriz qualquer, faz-lhe única, a viver num sonho. Deparamo-nos com uma mulher que não pode ser parada, que vive de acordo com seu instinto, não segue uma linha social clara e demarcada, atua de acordo com o que lhe parece importante ser feito em determinada situação. Ducornau parte em vários pedaços metálicos esta linha tão demarcada no cinema comercial entre racional contra emocional, e evidentemente distorce a oposição entre humano e máquina, e os magnetiza eternamente.

Com o desenrolar narrativo da obra, somos apresentados às mais diversas facetas da personagem principal. Os fatos acontecem com velocidade, intensidade e sensualidade, naturais por exemplo do cinema da também francesa Claire Denis. Pode-se dizer que ambas buscam conversar com seu público através da provocação, do choque. Quebram a fronteira do fantástico a partir do que é menos aceito especialmente no sexo e no prazer. No caso da realizadora mais experiente, em filmes como Desejo e Obsessão (Trouble Every Day, 2001) opta por uma concepção completamente alínea, e com espaços amplos para conexões, em contrapartida, Ducornau escreve suas densas camadas narrativas com as mãos sujas seja de sangue e graxa as linhas do seu próprio “Novo Extremismo Francês” de forma linear.

O desafio proposto aqui não está na forma de narrar, mas especificamente no conteúdo. Quando vemos a câmera acompanhar as escolhas e os movimentos tão orgânicos de personagens como Vincent (Vincent Lindon), entendemos que não há qualquer possiblidade ao limite, e é exatamente isto que se deve aceitar e, por fim, aos mais fortes, até mesmo desfrutar.

De certa forma, pode-se analisar que as mudanças vividas pelos personagens durante o longa ocorrem de forma tão rápida que deslizam um pouco os caminhos dos motores, e deixam os mais desavisados sem saber muito bem o que pensar, ou mesmo se o que estão vendo é mesmo o que estão pensando. Por outro lado, imagino que seja exatamente essa a intenção, talvez sem a melhor execução, mas posta à prova, e afinal premiada.

Há um total desprendimento sobre a necessidade de estabelecer qualquer relação com o cotidiano. Ducornau, tal qual contemporâneos seus como Amat Escalante em A Região Selvagem (La Región Salvaje, 2016) escolhe expressar o onírico acima de tudo. Estamos diante do pesadelo do real, isto observa-se especialmente nas escolhas de cores, sejam elas colocadas sobre os espaços, ou mesmo nos carros. Alexa, desde que viveu seu terrível acidente com seu pai parece nunca haver despertado para as ordens e o que supostamente deve fazer. Talvez a única possibilidade de viver a vida em sua totalidade seja abrir-se ao metal que vive consigo acelerando suas sinapses sempre ao máximo.

É simplesmente impossível deixar que suas imagens marquem o seu cérebro. Um filme inovador, de leitura formidável de seu tempo, e que é capaz de apontar a um futuro, não só para a expectativas dos novos trabalhos da realizadora, mas do que o cinema poderá ver nas mãos sujas e pesadas das grandes diretoras que batalham para conseguir espaço. Torcemos para muito menos de 28 anos para novos pesadelos como este.

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