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Toy Story 4

(Toy Story 4, 2019)
7,9
Cineplayers
4 votos
8,2
Usuários
69 votos
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Críticas

Cineplayers

Um filme sobre narrativa e afeto

8,0

A animação de 1995 Toy Story - Um Mundo de Aventuras é, sem medo de ser superlativo, um dos filmes que mudaram a história do cinema como o conhecemos. O primeiro longa-metragem feito totalmente em computação gráfica deu início a um reinado que inaugurou uma nova categoria no Oscar, o Prêmio de Melhor Animação, e que faria até os estúdios mais tradicionais trocassem progressivamente duas dimensões por três, como é o caso da Disney. Em 2019, Toy Story é a marca registrada da Pixar, que graças a animações originais como Vida de Inseto, Procurando Nemo, Monstros S.A. e Os Incríveis se tornou um dos sinônimos de cinema de atuação da atualidade, sendo uma "casa de ideias" que para além do criador John Lasseter também revelou nomes como Brad Bird, Lee Unkrich, Andrew Stanton e Pete Docter. Toy Story 3 marcando toda uma época em 2010, celebrando 15 anos de evolução artística e tecnológica com um filme que marcou pela carga emocional envolvida.

Toy Story 4 é um filme que, ainda que abaixo de outros da franquia "menina dos olhos", é do tamanho do seu legado e também sobre a construção do mesmo, através da projeção de significância dada a um objeto a princípio igual a outros tantos: dessa vez, o principal desafio encarado por Woody, Buzz e o resto dos brinquedos de Bonnie (herdados de Andy) é de cuidar de Garfinho, construído a partir de materiais rudimentares encontrados na lixeira do jardim de infância. Ganhando vida após ter seu nome escrito em sua base, o novo brinquedo da infante levará os bonecos para longe de casa, onde encontrarão novos antagonistas e velhos conhecidos.

O estreante nos longa-metragens Josh Cooley não se distancia da responsabilidade e, após trabalhar anos como desenhista de storyboard e animador e ter seu primeiro grande crédito como um dos roteiristas de Divertida Mente (2015), faz de seu Toy Story 4 um filme tanto sobre aceitação quanto emancipação de seus personagens. Característica marcante dos filmes da Pixar, os complicados conflitos que seus personagens a princípio infantis enfrentam têm uma nova configuração na figura de Garfinho: o pequeno brinquedo inicialmente se vê apenas como material base, ou seja, "lixo", e durante o filme tem que aprender que agora não é apenas um amontoado de materiais, mas um indivíduo com forma e propósito, objeto de afeição de uma criança.

É esse sistema de afetos que guia seus principais personagens, bem como alguns coadjuvantes. O habilidoso Duke Caboom sente-se mal por nunca ter cumprido as expectativas de sua criança que o comprou por uma propaganda enganosa; Betty, de volta como uma habilidosa e valente habitante de parque, por sua vez, redescobriu sua função não como brinquedo da irmã de Woody ou peça de decoração de antiquário, mas como uma figura materna para outros brinquedos que perderam seu significado para seus donos - seu prelúdio, antes dos créditos, é especialmente emocionante, inclusive por ter uma rima visual com o seu final.

A principal antagonista de Woody dessa vez, que já enfrentou as cruéis invencionices de Sid, a ambição de ser peça de decoração do Mineiro e a distopia de Lotso, é a boneca vintage Gabby-Gabby, que diferente de outras figuras de conflito da série, veio com um defeito de fábrica em seu disco de voz que a impediu tanto de ser um item querido por uma criança ou desejado por um colecionador; habitando um armário de vidro na loja de antiguidades, evoca a imagem da típica bruxa má, tendo inclusive servos assustadores na figura de bonecos de ventríloquo - mas dessa vez, com um toque humanizado que a torna um tanto diferente da visão autocrática e até cruel do antagonista anterior Lotso: compramos seus motivos e mesmo não concordando entendemos suas atitudes como fruto de solidão e desespero.

E claro, é praticamente impossível falar de Toy Story sem falar de Woody, a complexa figura do boneco caubói que centraliza todos os acontecimentos da franquia desde seu início: se ele antes aprendeu a aceitar a dividir a atenção com Buzz, a desejar o amor temporário das crianças e não o vislumbre eterno dos museus e a aprender a fazer outras crianças felizes, dessa vez tem que aceitar que nem tudo é para sempre. Se no início o protagonista sente-se rejeitado por não ser mais objeto de atenção há algum tempo de Bonnie, vemos que sua curva dramática gira justamente ao redor de reconhecer-se finito e também aprender a compartilhar a estima e a felicidade que sempre recebeu com outros brinquedos que sempre aguardaram sua chance.

Toy Story 4 é um projeto que, assim como o capítulo anterior, também teve sua feitura questionada, mas que novamente consegue justificar a sua razão de ser ao revelar-se como mais um drama sobre aceitação das mudanças. Cooley faz de seu filme um "réquiem", com profundas bases no passado (como mostra a abertura), sobre não apenas aceitar transições mas também reconhecer o fim, que não apenas não significa algo necessariamente ruim mas também ressalta a significância do que veio antes. Surpreendente como a franquia consegue manter o nível constante, tendo uma autoconsciência da importância do jogo lúdico da brincadeira infantil e do cinema de animação como ferramenta de crianças e adultos para compreender desejos, angústias e conflitos, basicamente o que faz o mundo da Pixar gerar e lançar tantos projetos que dialogam com tantos e levaram o cinema de ação tão além, justamente sobre o extraordinário que surge a partir do ordinário a partir da subjetividade do afeto. Do tamanho da história da saga e do estúdio.

Comentários (1)

Matheus Gomes | segunda-feira, 24 de Junho de 2019 - 19:19 | Responder

Nitidamente inferior aos demais da franquia, mas não por não ser bom; ocorre que os três primeiros é que são excelentes. Este tem alguns pontos fracos fáceis de identificar - a começar pela baixa participação de quase todo o elenco de brinquedos - algo que não aconteceu no terceiro filme; segue, como dito na crítica, com uma vilã mais humanizada, o que a meu ver, afetou também a carga dramática do roteiro (o terceiro filme foi caprichoso em manter a tensão!), entre alguns outros pontos aqui e acolá. De qualquer forma, é um bom filme, o fator "carinho pela franquia" novamente nos faz ignorar alguns deslizes e apenas apreciar novamente Woody e seus amigos em mais uma grande aventura!

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