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Em Trânsito

(Transit, 2018)
7,7
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Críticas

Cineplayers

Cópias fieis.

10,0

Christian Petzold vem falando há algum tempo sobre a transitoriedade dos corpos, talvez sempre tenha falado sobre isso. Não apenas dos corpos, mas de tudo que os compõem, até (e às vezes principalmente) do que é abstrato a eles, e possam ser injustamente relegados ao não-corpóreo. O abandono, por exemplo. Essa entidade quase palpável e que denota desprendimento, não necessariamente sem sofrimento, mas necessário algumas vezes. Corpos que transitam não apenas de maneira física, mas também expressando uma gama de resoluções diretas expressas pelo ato de mover-se. Em seu novo filme, Em Trânsito, ele explicita essa característica inerente à sua autoralidade já no título, e faz aflorar signos anteriores de sua filmografia para atestar uma maturidade cuja estética apenas não se define - um lugar sobre a construção de uma identidade, inerente a si e também ao objeto filmado.

O arrojo com que Petzold sempre nutriu suas narrativas se dava na base da sugestão e da sutileza, e estava acoplado a roteiros de alvenaria muito engendrada, que tiravam do seu trabalho visual um cume - são em seus roteiros que ele constrói sua envergadura. Aqui não apenas essa prática é reiterada, como também lapidada. Imaginar que o mundo viveu à espera de uma segunda guerra que começa agora, e espelhar o início dos acontecimentos de mais de 70 anos atrás no hoje não é um ato de inteligência per se, mas propriamente uma maneira mordaz de nos arremessar para um passado que é literalmente hoje mesmo. Nada parece nem ligeiramente exagerado ou deslocado, o mundo que vivemos hoje reconstruiu algozes e vítimas ao nosso redor, e extraídos da própria realidade. A vilania não é uma tomada de partido, assim como a inocência, a humildade e a empatia; são todas inerentes aos seres humanos de qualquer época, e Petzold foi arguto em perceber que 1939 é o nosso tempo.

Acompanhando uma narrativa de aparente simplicidade, o autor aborda o que é caro ao seu cinema, incluindo esse espelhamento social macro e uma vertente psicanalítica das mais ricas e recorrentes da própria história da dramaturgia: o embate entre o ser e o não ser... e como ser algo que não somos, deliberadamente. Um sem número de filmes já falou sobre a perda da identidade, a apropriação da alheia e as implicações morais e factuais da mesma. O que Petzold propõe para refrescar essa discussão, indo além dos sinais trágicos que sempre acompanham esse apontamento, é o ato coletivo de transmutar a própria realidade em busca da saída para a barbárie, incluindo a psicológica. Cada um de seus personagens escolhe ir além de si mesmos, porque talvez esteja no outro a busca por uma felicidade fugaz. 

Mas abandonar faz parte da compleição humana tanto quanto ser bom ou mal. Num estado de eterna encruzilhada em que vivem, as escolhas são parte integrante do modus operandi. Nele, faz parte do jogo tanto operar a ação quanto sofrer; não a toa o protagonista Georg é indagado ainda no primeiro ato sobre quem esquece primeiro, o que deixa ou o que é deixado. Uma chave de compreensão está exatamente nessa cena, que detona no espectador a análise das atitudes que parecem inconsequentes dos tipos mostrados, quando na verdade não passam de espasmos de cada personalidade, todos capazes de reproduzir bem e mal no exterior e no interior. Às margens do medo, nenhuma atitude parecerá acertada o suficiente, ou dependendo do ponto de vista.

Ajudam Petzold na tarefa árdua de construir essa história de máscaras um elenco que compreende os relevos da história, e que expressam no rosto as marcas do mundo que precisa se adequar e transformar para sobreviver, principalmente Franz Rogowski, uma espécie de Joaquin Phoenix alemão, no que de mais positivo isso possa significar. Cabe nas costas dele o peso da representação que estado impõe e o corpo responde com repetição e apatia. São batalhas prestes a explodir em maneira literal mas que já entraram em curso no psicológico, e Petzold parte da adaptação dessa novela de Anna Seghers para mais uma vez dar voz à esse desejo de expandir nossos corpos até outros, mais uma vez desmistificando os duplos do qual todos nós estamos condenados a ser, e as reproduções que a sociedade volta a nos condenar de tempos em tempos. 

Comentários (1)

Paulo | sábado, 11 de Maio de 2019 - 21:20 | Responder

Ótimo texto, Francisco. É isso aí, o Franz é o duplo do Joaquim. Bem que os dois podiam estrelar uma adaptação do "William Wilson", o conto do Poe.

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