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Trilogia de Terror

(Trilogia de Terror, 1968)
7,2
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Começa na loucura, perpassa pela revolução dos defuntos e chega na morte dos olhos aloprados.

8,0

Antologia do terror nacional na pista. Temos aqui um exemplo crasso de variadas possibilidades invocadas que o cinema de horror brasileiro produzia. E num território conhecido como o desbravado interior do país. Nisso algumas grandes figuras participaram desta empreitada escrota, desde o produtor de futuros altos materiais da boca do lixo Antônio Polo Galante, aos grandes diretores José Mojica Marins (o mestre Zé do Caixão), Luís Sérgio Person e Ozualdo Candeias. Cada um com seu próprio curta saboroso da escrotice criando a conjuntura dum terroroso material montado por outro monstro tal qual o Sylvio Renoldi. Tudo isto ao sabor de um ruralismo terrorífico que é da cultura nacional. Uma beleza.

Este esquema busca invocar um tom de medo genuíno neste ambiente rural citado, dentro da proeminência de criação própria de cada autor. Com as obras denotando o significado do destroçamento proposto por cada um dos caras. Um conurbatório que vincula o caráter de terror/horror (tem ambos aqui) à cultura enraizada daquelas localidades com direito a introjeções sebosas, violentas, possessivas, coronelistas, estupradoras, lisérgicas, ritualísticas, estranhas, doentiamente sorridentes e... Cansou? Tem mais. Revolucionárias, cheguevarísticas, valentes, mortais, fantasmagóricas, políticas e acaralhadas. E ainda mais – saia daí não animal – escrotas, escapistas, exageradas, preto-brancosas, desesperadas, distorcidas, premoniciosas e os caralhos. Um troço delicioso.

Para cometer o avacalhacionismo da escrita sobre tal material eu, Ted Rafael Araujo Nogueira, o velho-novo cineastoso Ted Calango Cinematográfica, convoquei de forma nada gentil, mas com uma vontade da porra, duas peças das mais eminentes para comporem comigo sobre este material, que seriam eles o meu chapa Pedro Lubschinski (Procissão dos Mortos) e a companheira de Cineplayers Maria José Genuíno Barros (O Acordo). Eu claramente peguei o Pesadelo Macabro do Zé do Caixão. Marréclaro. Cada um dos vivos aí fizera um excerto crítico sobre os excertos da fita. Vamos a eles ora marrapaz.

 

O ACORDO (Ozualdo Candeias), por Maria José Genuíno Barros

O Acordo, escrito e dirigido por Ozualdo Candeias, é o primeiro filme de Trilogia de Terror (1968), idealizado por José Mojica Marins, mas destoa narrativamente dos outros dois: Pesadelo Macabro, dirigido por Mojica e A Procissão dos Mortos, de Luiz Sérgio Person. Em uma pequena vila uma mulher decide fazer um acordo com o Diabo para casar a filha e ascender socialmente, mas ele pede em troca uma donzela. Na verdade, nada no filme fica muito claro, em um exercício quase surrealista, marcado pela habitual exploração sexual feminina.

Assistente de direção de Mojica em À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964), Candeias estreou no terreno dos longas com A Margem (1967), um artifício simbólico vanguardista nem um pouco compreendido pela crítica da época. Em sua primeira incursão no horror, o diretor trouxe de sua obra prima a forma errática e, por vezes, aleatória, de contar a história. Não se sabe ao certo o que está acontecendo no filme, perguntas são lançadas sem respostas e a personagem da mãe é um fio condutor para lá de esquisito. O fator horrífico, como era feito de forma comum na época, recai sobre uma interpretação equivocada das religiões de matriz africana. O ritual inicial, dominado por mulheres, se contrapõe à brutalidade do mundo masculino, representado por fortes referências ao faroeste.

O Acordo é um filme poderoso mais pelo que esconde do que pelo que expõe. A direção cria opostos durante todo o filme, seja trabalhando com sombras, seja com personagens (médium/freiras, Diabo/Profeta). Mas nada nunca é explicado e o medo que a mãe sente do Diabo, que a persegue, vai se diluindo em um tom lúgubre, que acaba em uma loucura libertina incompreensível, mas deliciosa. Um terror rural imprevisível.     

“Pai acho que tem que começar tudo de novo”

 

A PROCISSÃO DOS MORTOS (Luiz Sérgio Person), por Pedro Lubschinski.

Eu acho fundamental que o curta que Luiz Sérgio Person comandou na Trilogia de Terror, esteja no meio dos segmentos comandados por Ozualdo Ribeiro Candeias e José Mojica Marins. Enquanto seu antecessor e seu sucessor são contos onde o terror está muito mais ligado ao pessoal, a invasão do íntimo - o enredo faustiano envolvendo o casamento forçado de uma jovem é o fio do choque de imagens bagunçadas do Candeias, enquanto no segmento do Mojica tudo que é íntimo é invadido, do corpo estuprado em um celeiro ao mundo onírico, nem a cova é lugar isento de violação -, A Procissão dos Mortos se interessa pelo horror coletivo, seu terror invade todo um recorte de sociedade.

Person trabalha a partir do medo que invade aquele lugar, aquelas pessoas. Não apenas o medo dos guerrilheiros à sombra de Che Guevara como figuras físicas, mas o medo da violência que eles representam, de como qualquer esperança de paz acaba nos tiros daquelas figuras fantasmagóricas - a mesa de bar que todos derrubam com bebidas e tudo ao som de metralhadora imitado por um bêbado ou Lima Duarte com o símbolo da paz pendurado no pescoço tendo o peito arrebentado a coronhadas. Ainda que o protagonista vá sozinho confrontar a ameaça, o terror apenas começa ali a se espalhar por todo aquele lugar, o que fica bem claro no garoto metralhando a câmera (e por consequência o espectador) ao final.

Que tudo comece nesse mesmo garoto caçando passarinhos, é bastante simbólico.

“Onde vai valente?

Eu vou pra linha de frente?”

 

PESADELO MACABRO (José Mojica Marins), por Ted Rafael Araujo Nogueira.

Zé. Do. Caixão. Dos três segmentos o que mais adentra no mais aviltoso clima escrotal do horror é o dele. Como sempre. Onde aplica sua metodologia imagética transcendentalistosa “de cum força”, como afirmamos no Ceará. De lapada. De cara. Nos créditos iniciais, com suas trucagens de sobreposição de imagens e sons desesperados o cara já impõe o que quer expor. Um horror mais tradicional no que tange ao gênero strictu sensu – se comparamos às outras figurações de Person e Candeias – metendo a distorção das figuras nos planos enquanto os curtos créditos terminam. Já entramos na epidemia do onírico. Aqui a parada é grosseira e objetiva. Um cidadão tem um pesadelo de ser enterrado vivo e assim ele o será. Pronto. Mojica brabo.  

E tem ritual de macumba, com Mojica e a sua visão de cultura, onde a difusão do macabro e perigoso era vendido no macumbal, com o usufruto de mulheres nuas. Padrão. Esta visão vinha de séculos no país e o diretor empregava seu tom grosso na questão, porém sem que o próprio ritual seja um culpabilizante primordial da situação, mas, sim um método de pesquisa e busca por salvação e descobrimento através do desespero quando procurado é, pelo cara dos pesadelos – interpenetrado pelo amigão do Mojica, Mário Lima, que sem saber a quem recorrer parte pra cima do curandeirismo, independentemente de onde o mesmo viesse. Um sincretismo da esculhambação num estratagema de um texto grosseiro e objetivo, fincado no popular. Naquilo que fosse considerado como maleficioso pelo povão. O Mojicão é acusado de várias fuleiragens e o fato dele ser um cara da massa, popularzão mesmo, é uma destas coisas. Seu cinema é no popularesco.

Deixando de lado os entretantos e indo para os finalmentes, um casamento estaria prestes a rolar e é claro que mais uma desgraça imensa iria surgir. De pronto marmotas e deformidades, com umas peças esquisitas a assombrar no real o casal prestes a consumar o casório. Uns embaçadores, os feiosos. Mojica era profissional em achar gente feia. Estes são contemplados pelo trabalho de fotografia e câmera do Giorgio Attili – árduo e contínuo colaboracionista de Mojica. Que mete escolhas dos planos dos rostos escabrosos rindo. Cada vez mais fechados, com um cerco a realmente se fechar. E vem o estupro. Violência contra a mulher. O choque. E numa senzala, desnecessário afirmar que ali era local de tratamento desumano. Objetificador. Tema recorrente do seu cinema. A mulher ser violentada como um mal absurdo, que causara a morte – até então – do futuro maridão e o trauma da primeira. A montagem é rápida no estupro, com cortes do rosto dela em desespero, para os risos e movimentos dos estupradores. Pesadelo dentro e fora dos oníricos.

Zé e o cemitério. Uma longa relação entre o criador e suas criaturas naquele funesto ambiente. A morte é tema primordial em seu cinema. E aqui uma brincadeira com a mesma. Enterrado vivo. Sem som. Desespero silencioso. Premonitório. A galera correndo no cemitério aos montes e cambaleantemente. Que exagero grotesco. Daqueles de riso nervoso. Mas, o final é a surpresa grotesca. Mário morre mesmo, pelo desespero de ser enterrado vivo. Encontrado com boca aos gritos que ninguém ouviu e com os olhos plenamente esbugalhados. Um fim desastroso. Como sempre. Que joia.  

“Olhe os bichinhos empalhados da mais alta qualidade”

Esta antologia pressupõe um significado de medo e dor primordiais do cinema. Do estupro, do satã, da morte, da violência. Os três pedaços vendem o seu horroroso a sua maneira. Sem a obrigação tácita de conjunto. Que se lasque isso. Antologia livre desenvolvida na mesma ambientação por escolha muito provavelmente de orçamento. E os caras fazem bem o trabalho. Ora, a graça mor duma antologia é chocar de diferentes maneiras. Aqui tenazmente a parada funciona. mas é totalmente sem encaixe? Em absoluto. Tem uma linha escrotíssima que pode-se perpassar ao final. Onde somos levados a uma montanha russa de sensações, inclusive pelas escolhas de montagem de Renoldi e no que tange à disposição dos três curtas, como também defendera a localização do filme do meio, o Pedro Lubschinski – vulgarmente conhecido com o Pepe Lub no baixo meretrício do horror. Candeias vai na lisergia do estranhismo, Person no radicalismo fantasmagórico revolucionário e o maior nome do horror nacional, Zé de Mojica, vai de pronto na formulação escrota da morte. Não há alisamento. A disposição te pega no material primeiro de forma a te carregar pelo interior dando a sensação de esquizofrenia, e quando o mesmo se finda te joga no revoltoso e ao som da metralhadora onde ao fim deste tu pega a morte pelo pesadelo. É a viagem para o infindável da morte. Por isso o encaixe dramático funciona, uma linha onde sensações se encontram em histórias completamente diferentes. Este é horror nacional que vive para nos apavorar, não somente pelo que sangra na tela, mas pelo que demonstra em conhecimento da vil realidade brasileira, e com todas as contradições das leituras. Chibata de porrada.

 Crítica integrante do especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

 

Comentários (1)

Pedro H. S. Lubschinski | sábado, 30 de Janeiro de 2021 - 08:23

CACETADA!!! Que material! parabéns ao Ted e a Maria por esse trabalho.

Esse segundo parágrafo da introdução é desde já das melhores coisas que vamos ler esse ano hahaha

ps: "o Pedro Lubschinski – vulgarmente conhecido com o Pepe Lub no baixo meretrício do horror." HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 30 de Janeiro de 2021 - 15:58

Meu chapa aqui só tem gente escrota do cinema. Operariado Marginal das fitas.

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