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Tron - O Legado

(Tron Legacy, 2010)
5,8
Média
341 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O monocromático visual cibernético

7,0

Esse aqui é um texto antigo com algumas assertivas novas. Um material empoeirado do 23/12/2010. O que estiver em itálico, é adendo meu em cima do material daquela época. Um experimento acerca do que eu pensava a época e o que invoco por agora.

Continuação de filme cult obscuro da Disney, Tron - Uma Odisséia Eletrônica (Tron, 1982), Tron - O Legado (Tron Legacy, 2010) trata de contar a história de um filho em busca do pai preso em um jogo, numa dimensão cibernética, após décadas de suposto abandono do segundo.

Em 1989 Kevin Flynn (Jeff Bridges) ficara preso em uma dimensão digital, conhecida como A Grade. Após os eventos do primeiro longa Flynn acredita que pode mudar a humanidade com suas descobertas acerca da tecnologia e sua ligação através do ciberespacismo. Ao tentar entrar de novo no jogo Flynn acaba aprisionado por 25 anos. O filho, Sam Flynn (Garrett Hedlund), após descobrir um porão de controle donde o pai havia entrado no jogo, acaba por ser aprisionado, e, ao adentrar na Grade, começa a busca por seu pai.

O roteiro trata de temas como cibernética empírica numa experiência do ser humano entre programas criados por ele. Montando uma viagem intrínseca à outra dimensão, logicamente, sem a filosofia envolvida dum Matrix (Matrix, 1999). Aliás o Tron aqui é filme de entretenimento somente. Não busca tergiversar introspecções outras. Apenas pincela alguns temas que servem mais como pano de fundo para um filme de ação/sci-fi dentro duma relação em busca de redenção entre pai e filho.

O que percebi em Tron foram certos elementos rebolados de forma objetiva, como a divinização de um ser devido a crença de alguns – uma religiosidade viciada –, e como um programa feito em busca da perfeição pode conter sempre falhas acopladas nele - a eterna busca por uma perfeição inexistente que leva quase a uma psicopatia pelo nada. Para exemplificar cito o programa Tron (Bruce Boxleitner) que acabara por lutar pelos usuários (os humanos como são chamados por lá), como fizera anteriormente, ao invés de prosseguir com sua caça aos mesmos, como deveria fazer diante da reprogramação pela qual passara, feita por CLU (um clone digital do Kevin Flynn de 1989). Outra questão abordada fora a condição de criador e criatura, que põe o pai Flynn com o poder de destruir sua invenção CLU e a existência do universo paralelo em si. Porém Flynn só o faz na esperança que algo saia daquelas fronteiras com o intuito de causar um aprendizado nos humanos e sem que haja um colapso total caso haja uma invasão de CLU no planeta, não sem uma ponta ainda de orgulho por tudo que aquele ciberespaço proporcionara. Se vêem aqui várias camadas expostas superficialmente buscando um encaixe do mais simples possível, que sirva de espaço preenchido entre as cenas de ação. Não alopra numa filosofia de boteco (ou nalguma sensacional que o seja) e busca somente se justificar para que a trama siga. O lance é que tudo isso causa interesse e, obviamente, fica assim o dessabor de não ter um adentramento mais vistoso nestas questões.

O visual de Tron - O Legado fora o carro-chefe da divulgação do filme. E é inevitável não falar de tal aspecto numa fita moldada através deste atributo. O diretor e os produtores foram conscientes ao enxergar que esta seara seria o principal elemento do longa, o que era previsível, mas o esquema foi tratado com cuidado suficiente. Uma maravilha. Planos bem trabalhados e montados expondo bem as nuances daquela ambiência com escolhas binárias de cores acerca do tratamento entre bem (cores frias) e mal (cores quentes) – um maniqueísmo maroto –, bem como em cenas abertas apostando no gigantismo daquele espaço, não sem aproximar os personagens daquele universo para uns desconhecido (Flynn filho) ou fechando mais ainda os planos invocando idade e introspecção doutros perante a guerra declarada daqueles que lá há muito tempo pertencem (Bridges, o Flynn pai). Aliados a efeitos especiais (Industrial Light & Magic) fodas que produzem cenas que proporcionam momentos memoráveis, como a corrida de motos e a perseguição final, com o tom de urgência correto dentro de um ambiente ainda frio pra cacete. A criação digital de CLU (um Jeff Bridges de 35 anos), ficara satisfatória e esquisita ao mesmo tempo. A artificialidade causa um distanciamento por um lado, mas serve como mote de diferenciação até psicológica dele para os outros personagens, onde o próprio é visto como caçador da perfeição e ainda moldado dentro de uma condição de artificialidade. Obviamente que porra nenhuma disso fora pensado pela produção (que tentaram fazer o melhor possível, acertando bem em alguns planos), mas funcionou acidentalmente para tal. Alguns cenários devem ser citados favoravelmente (nem tudo era totalmente digital), como o apartamento de Flynn e a Boate de Zuse. O figurino, assim como no filme anterior, aliado à maquiagem, são boas atrações ao filme que moldam, de forma até rebuscada, alguns personagens da trama.

A direção a cargo de Joseph Kosinski, um diretor de clipes que prima pelo aparato visual, foi uma decisão acertada, visto que o cara não tirara o brilho do material, mantendo um clima frio na narrativa e nos personagens, que encaixa na proposta. Os programas se mostram com alguns sentimentos sendo desenvolvidos, mas embrionários como se percebe, visto que foram criados pelos usuários e tratados como um avatar de cada em certos momentos. Por isso eles agem com suas respectivas funções, e quando não funcionam como deveriam, ou reformados são, ou postos para os jogos de guerra e, assim, destruídos. Aqui num momento que remete ao Matrix Reloaded (Matrix Reloaded, 2003) na justificativa de esquisitices que aconteceriam na matrix por contra de programas agindo fora de suas respectivas funcionalidades.

O que me impressionou tanto quanto o visual fora a trilha sonora composta pelo Daft Punk. Aqui ouvi uma trilha densa e encaixada com a obra em questão. Com todo o aparato da música eletrônica – que os ensejara em suas carreiras – em mãos, a dupla aproveitara o momento para expor uma faceta épica ao seu som dando a entender o que significa aquele universo, promovendo de dinamismo na ação ao controle emotivo de cenas outras. Um trabalho ajambrado genialmente e, assim, inesquecível.

O trabalho dos atores se mostra coeso e sem contra-indicações desde a atuação dupla do sempre excelente Jeff Bridges à interessante e esquizofrênica performance de Michael Sheen, que se diverte como Zuse, persona que relembra algumas facetas de David Bowie.

Primando mais pelo visual do que pela história, que também causa interesse, Tron – O Legado mostra-se como uma imersão visual de alta qualidade com imagem e som se adequando perfeitamente na proposta de nos nortear por um mundo estranho onde a tecnologia conseguira se apropriar em cores frias para contar como um filho busca expiação através do contato com pai perdido num universo de ciberespaço, em material voltado amplamente ao entretenimento.

23/12/2010 - 05/01/2022

Comentários (1)

Caio Santos | domingo, 09 de Janeiro de 2022 - 12:25

Gostei de proposta, seria bem interessante se outros criticos do site tambem retomassem textos antigos adicionando pensamentos novos

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 14 de Janeiro de 2022 - 14:09

O cinema muda por revisitação através dos olhares aos quais o embutimos. Serve para dar um novo significado e aloprar no debate.

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