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Última Ceia, A

(La Última Cena, 1976)
9,5
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Críticas

Cineplayers

Azúcar Cimarrón

10,0

Logo, é preciso remontar às raízes da negritude, aos diversos caminhos que nos levam a essas raízes, às suas garantias na sociedade colonial a fim de mostrar que, durante o período de sua existência, ela teria sido, na literatura e na arte, o equivalente moderno da marronagem cultural, movimento com que as massas de escravos e seus descendentes opuseram ao esforço de desculturização e de assimilação do Ocidente colonial.

     (DEPESTRE, René. Bonjour et adieu à la négritude.1980)

Durante o período colonial, todo o escravo rebelde ou fugitivo era conhecido como cimarrón – referência àquele tipo de porco selvagem, que mesmo domesticado, não consegue fugir de seu instinto livre. No Brasil, temiam, caçavam e eliminavam os quilombos, e os quilombolas; na parte hispânica do território americano, em especial aquelas regiões conhecidas como as ilhas do açúcar (Cuba, Porto Rico, República Dominicana, etc), a cimarronaje – ou em português, a marronagem – era sempre protagonista no pior dos pesadelos dos grandes senhores de engenho, principalmente depois da Revolta de Santo Domingo (1791-1804), que culminou na abolição da escravatura no território.

Tomás Gutiérrez Alea, aproxima-se de seu contemporâneo e parceiro de ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográfico) Sergio Giralcom La Trilogia de la Esclavitud –, tomando para si justamente esse momento da indústria açucareira cubana, repleta de incertezas sobre o sistema, novas demandas comerciais, maior exigência com a qualidade do produto, um novo século que trazia à tona reflexões iluministas em meio a um país que sustentava sua sociedade branca com os dogmas, e as mãos pesadas do catolicismo, tudo isso adocicado com um número cada vez maior de africanos escravizados.

Em A Última Ceia (La Última Cena, 1976), as altas temperaturas das caldeiras do engenho eram controladas pelo Duque de Casa Bayona (Nelson Villagra), este com sua imponente peruca branca ao estilo aristocrático francês, inaugura sua participação expressando angústia pela dificuldade em compreender sua realidade, e relacioná-la com os ensinamentos bíblicos, principalmente na sua função como mentor dos escravos de sua hacienda. Sua maior inquietude é perceber que os negros não compreendem seu destino, a cimorranaje para ele, apresenta-se simplesmente como um desconhecimento da palavra divina.

Este senso irônico de construção narrativa tão comum na obra de Alea, aqui atinge um nível de profundidade que abraça todo o construto da obra. Ao caminhar pela sua propriedade ao lado do Sacerdote espanhol (Silvano Rey), de seu administrador criollo Don Manuel (Luis Alberto García), e do técnico açucareiro francês Monsieur Doulé (José Antonio Rodríguez), aprendemos com o último sobre o processo de criação do açúcar, primeiro a garapa negra, e depois com um trabalho de purificação bem elaborada chega ao tão esperado, e valorizado cristal branco. Exatamente o que deveria ser feito com um escravo, passando pelo entendimento e prática da doutrina católica, até a assimilação de seu destino como escravo, e servidor de seu senhor.

O filme pretende emular os últimos cinco dias de Jesus Cristo em pleno ápice do regime de plantation cubano e, portanto, divide-se narrativamente em cinco partes, de Miércoles Santo até Domingo de la Resurreción. Todos os atos do aristocrata vão sempre buscar um compromisso com a postura ideal de um grande líder divino, comparara-se permanentemente com Jesus Cristo, e num ato de epifania, em plena semana santa, convoca um jantar, os seus convidados à Casa Grande serão 12 escravos.

O jantar se inicia num plano aberto que mostra o homem branco e mais seus escravos negros num banquete iluminado a velas. Não suficiente a referência visual à Última Ceia de Cristo e seus apóstolos, o Duque de Casa Bayona inaugura a refeição contando-lhe aos seus servos, justamente sobre o momento anterior ao falecimento de Jesus Cristo. A atmosfera sacra proposta pela inicial referência ao texto bíblico, somada à direção de arte de estilo Barroco, cores densas, presença forte de sombras, e uma mesa absolutamente farta, inicialmente espanta e causa desconforto aos servos.

O arcabouço pitoresco criado pelo protagonista sobre a sua própria figura começa a descontruir-se, quando o humor satírico já visto anteriormente em A Morte de um Burocrata (La Muerte de um Burócrata, 1966), ganha espaço na mesa com as reações dos personagens pretos aos dogmas católicos. Ao saberem da morte de Jesus, por exemplo, dizem rapidamente que isso não passará com o seu amo, ou ainda mais cômico, ao intrigar-se com a transformação do sangue e corpo de Cristo em vinho e pão, e a conseguinte incredibilidade sobre o gosto branco ao canibalismo espiritual sobre o filho de Deus.

Apesar dos primeiros minutos de muito ouvir o monólogo habilmente trabalhado por Villagra, figuras como Sebastián (Idelfonso Tamayo), Bangoche (Tito Junco) ou Antonio (Samuel Claxton) quebram a máscara do silenciamento, apresentam-se etnicamente ao amo, contam-lhe suas raízes, suas origens nobres, e chocam o aristocrata, que não consegue entender como um rei pode ter sido transformado em escravo. As permanentes relações entre o poder da aristocracia escravista e o poder da igreja católica centralizada na figura maioral do Conde, com o decorrer da longa sequência caminham ao absurdo diante da realidade vivida por todos ali. Os convidados mostram-se cada vez menos interessados nas palavras de seu amo, e mais na comida. A câmera que quando tem a voz do Conde em primeiro plano, dinamiza-se entre zooms ins e zooms outs para intensificar o seu discurso, distorce a sacralizada Última Ceia quando também mostra roubos de comida da mesa, ou ainda uma cuspida no rosto do grande senhor, e até mesmo uma dança, muito bem mediada pela trilha sonora de tambores e atabaques.

O evento que inicialmente demonstrava-se como um intento de “purificação” das almas negras por meio da humilhação do Duque diante de seus servos, tal qual Jesus fizera, para posteriormente ser exaltado, mistura-se com o surrealismo de Luis Buñuel, prendendo-os todos num mesmo ambiente, e numa sequência de 50 minutos, finalizada aos bailes, bebedeira, cochilo do amo, e com a reflexão dos negros sobre si mesmos, e o avistar de apenas uma possibilidade: a liberdade, por meio da cimarronaje. Permanecer-se negro, com cabeça de cerdo, e tão valioso como o pedaço do mais branco dos açúcares.

Imerso num contexto histórico, onde o mundo passara a revisitar as questões postas pelos intelectuais afro-caribenhos da Negritude dos anos 30, muito graças à explosão do Partido Black Panther, e da consequente popularidade do gênero Blaxploitation, Tomás Gutiérrez Alea, observa o seu vizinho, com os pés fincados na ilha de Cuba, e com a mente nas questões de seu continente, como já havia demonstrado, evidentemente com o aclamado Memórias do Subdesenvolvimento (Memórias del Subdesarollo, 1968), aprofunda-se filosoficamente na questão anticolonial em Una Pelea contra los Demonios (1972), com uma corajosa leitura do clássico de seu compatriota Fernando Ortiz, em A Última Ceia (La Última Cena, 1976) parece mergulhar na poesia negra caribenha de René Depestre e seus contemporâneos, olhando para cimarronaje como um ponto central da construção da sociedade cubana, permeada pelos ideias revolucionários dos inícios do ICAIC, e evidentemente do governo de Fidel Castro.

Ao dar voz a um personagem como Bangoche, e retirar-lhe a máscara da expectativa branca sobre um negro africano sentado em plena Ceia católica, numa fazenda açucareira cubana, e dar-lhe raízes africanas nobiliárquicas, tal qual Cacá Diegues com Ganga Zumba (Ganga Zumba, 1963), Alea pretende, no fundo, não emular os escritos bíblicos, mas sim propor uma possibilidade de resistência muito mais múltipla, e espelhada nas diversas realidades que os negros das Américas viveram

Escapa, portanto, de qualquer determinismo purista de análise, enxerga o que Depestres diz ser “o resultado etno-histórico de um doloroso processo de mestiçagem e de simbiose, que chegaria a formar etnias e culturas absolutamente novas na história mundial das civilizações” como algo muito mais rico, e louvável que a purificação do açúcar.

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