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Críticas

Cineplayers

A fé inabalável de Shyamalan.

8,0
Amado e odiado, Shyamalan é um ícone do cinema de virada de milênio, no final das contas. Filmes como A Vila, Sinais e principalmente O Sexto Sentido, seu primeiro sucesso, fazem parte do imaginário cinematográfico. Entre uma carreira com altos e baixos (os mais reconhecidos são os projetos menos autorais O Último Mestre do Ar e Depois da Terra), seu trabalho sempre pareceu unificado por uma temática: a fé.

Seja no menino que precisa que alguém acredite que ele vê fantasmas, na família unida por medo de invasores alienígenas ou no vilarejo alienado por uma crença em comum, todos eles exploraram glórias e perigos da crença em algo transcendental, além do ponto de vista comum da maioria. Corpo Fechado (2000) e Fragmentado (2016) compartilhavam especialmente dessa necessidade em comum de criar personas, seja como o acidente de trem moldava o heroísmo de David Dunn e a vilania de Elijah Price, ou como a vida de abusos fez Kevin Wendell Crumb, com suas múltiplas identidades, acreditar na necessidade de criar a personalidade da “Fera” para vingar os “quebrados”. Pensando por esse aspecto, a reviravolta do segundo ser uma sequência do primeiro até faz sentido.

Vidro, de 2018, é o momento onde essas duas histórias se entrelaçam. Na caçada por Crumb, que continua a raptar mulheres para alimentar a “Fera”, David Dunn, o homem que nunca se feriu, acaba sendo preso junto com seu alvo e levados para um hospício, onde sob os cuidados rígidos da Doutora Ellie Staple, acabam encontrando lá Price, o “Senhor Vidro”, homem de corpo frágil e mente genial, que de início parece estar fortemente sedado.

O novo filme é principalmente um filme de ambientação, de pura construção de mundo. Boa parte é dedicada a mostrar o cotidiano de Price, Dunn e Crumb e os questionamentos de Staple à crença que são superseres. É o maior trunfo mas também a parte mais desafiadora para o público em geral que não seja fanático pelo indiano: sabemos cada aspecto da psicologia dos personagens, o que sofreram para chegar até ali e compreendemos suas decisões em seguida. Seja na crença monstruosa da “Fera” que os sofredores são purificados ou na fé que Elijah deposita nas histórias em quadrinhos como uma forma de documentar aberrações invisibilizadas, a fé no algo além está lá. Mas também pode ser bem problemático para alguns pelo excesso de explicação dos diálogos, pelo ritmo vagaroso e, em um filme de duas horas, pelo menos um terço parecer ser um grande prólogo.

É interessante perceber como Shyamalan novamente aborda quadrinhos e sua mitologia dezoito anos depois de Corpo Fechado, em uma indústria completamente diferente (após a redefinição profunda no panorama promovida por Batman, Sony, Fox, MCU, DCEU e afins). Ele não tenta ser uma história em quadrinhos, emular sua linguagem, mas ir fundo nessa psicologia social que seres extraordinários aparecem para nós em obras culturais escapistas. Mesmo humanizados, pareciam ainda distantes.

Não é o caso de Vidro; Shyamalan emula características de quadrinhos e suas adaptações, como o uso forte da cor nos figurinos, onde os dois vilões e o herói vestem cores distintas dentro de uma paleta de cor similar, bem como seus entes queridos ou ex-vítimas, moldados quase como “coadjuvantes-espelho” aos protagonistas, afetados por eles para sempre, intimamente e socialmente. Também está presente nos cenários, em um hospício que, de início iluminado classicamente, por vezes adquire colorações psicodélicas sem explicação satisfatória - como nos quadrinhos. Porém, seus superseres estão internados em hospícios, submetidos a torturas, contemplando vidas de impotência, crescendo em raiva ou retidão frente ao mundo onde não se encaixa. 

O filme carrega nas tintas entre a fé absoluta que Samuel L. Jackson imprime no olhar fantasioso e apaixonado do protagonista e sua principal barreira, o olhar cético e pragmático da sociedade científica que Sarah Paulson encarna como a Doutora Staple. Como seu personagem-título, é uma batalha a ser conquistada na mente, entre a crença e a explicação. É um filme de superseres lento, onde discute-se a fé na transcendência o tempo todo e retira-se a absoluta certeza da integridade ou corrupção dos atos de seus personagens. Quase uma heresia para o cinema industrial bem-humorado, anfetamínico e bem delineado feito atualmente.

Mas seria então Vidro uma crítica ao cinema de super-heróis, assim como Deadpool o parodiou e Logan o revisou? Talvez, superficialmente. Mas nos atentemos à modulação de gênero e escolha de tema: não é para ser uma ação/aventura de super-heróis, mas um horror sobre super-heróis. 

É aí que mora toda a diferença onde o diretor guia a história de suspense a conta-gotas, resumindo os conflitos a um mínimo e sempre desenrolando-os com consequências graves, severas e irreversíveis. A trilha sonora “cortante” de West-Dylan Thordson, cheio de cordas e agudos, só aumenta a sensação geral de agressão lenta contínua, assim como o filme. 

Por isso, o filme sobre a mitologia na vida real é também como a mitologia “retalha o véu” para nos explicar os mecanismos do real. Através de sacrifícios rituais, de reviravoltas mirabolantes, de demonstrações vulgares de poder: se o espectador de Shyamalan não acreditar, seu cinema está perdido. Fã de Spielberg em sua formação, o diretor parece acreditar que o absurdo não deve ser vendido, imposto, mas conquistado, revelado, como acontece, por exemplo, em Contatos Imediatos de Terceiro Grau.

Nesse sentido, as variações de identidade interpretadas por James McAvoy em uma simples mudança de tom ou contração de músculo podem “roubar” o espetáculo de maneira pirotécnica, bem como o estoicismo “durão” à lá cowboy de David Dunn, suas reações mínimas, poucas palavras e dureza de sobra. Mas nenhum deles justifica a trama como o personagem de Samuel L. Jackson, calado enquanto é tratado por “Elijah” e falante quando se assume como o Senhor Vidro. Talvez seja a encarnação mais bruta, implacável e irredutível de fé em seu cinema. 

Em Vidro, Shyamalan novamente procura arrancar o sobrenatural do normal, o extraordinário do ordinário. Alguns podem interpretar como uma fábula moral sobre o extraordinário em cada um, mas antes, é sobre a crença na transgressão e na sua materialização. As cenas que dirige sempre miram nessa filosofia, nos cenários comuns sendo convertidos pelo ponto de vista de seus protagonistas e como contagiam a câmera.

No mundo de Shyamalan, esses encontros entre mundos são avós estranhos, plantas assassinas, mulheres perdidas com essências mágicas - um elemento familiar, outro elemento incomum. Com um final tão melancólico (sobre esses mundos serem irreconciliáveis) quanto esperançoso (ser visto é ser reconhecido como o outro), Vidro fecha a trilogia de forma dependente, sim, mas coerente como nunca com sua visão de mundo.

Comentários (7)

Robson Oliveira | quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019 - 12:22 | Responder

Só aumentou minhas expectativas em relação ao filme! Amo o estilo Shyamalan.

Robson Oliveira | sexta-feira, 19 de Abril de 2019 - 22:11 | Responder

Excelente filme, confesso ficar extremamente frustrado com os momentos finais, mas ainda sim tive uma experiência incrível ao apreciar essa obra-prima. Puta filmaço que merecia pelo menos mais 1.

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