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Críticas

Cineplayers

A sádica morte do western spaguetti pelas mãos de um de seus criadores.

9,0

Atenção: O texto a seguir discute aspectos importantes de trama. Recomenda-se que tenha assistido ao filme antes de prosseguir com a leitura.

O Vingador Silencioso (Grande silenzio, Il, 1968) é uma obra cabalística: trata-se da morte do western spaguetti justamente pelas mãos de um dos nomes que o fizeram nascer, sob uma trilha sonora bastante familiar (não minta: você não precisou puxar o nome de Ennio Morricone para saber que ele assinou) e em um contexto em que o subgênero já não vingava muito. O cenário não é tomado por tonalidades quentes; ainda que a técnica do Eastmancolor se faça presente em suas cores mortas (uma das principais características daqueles filmes italianos, a fotografia), a neve toma conta – se outrora todo aquele ambiente poeirento, cheio de montanhas, construía a visão de uma terra selvagem em um sentido mais histórico do homem e sua relação com a violência como forma de conseguir seus objetivos, a neve (mais à frente irei discutir melhor) no chamativo filme de Corbucci acrescenta um tom de melancolia, propondo algo mais intimista pelo constante uso do branco. Era uma vez no Oeste (C'era una Volta il West, 1968) e Pat Garrett & Billy The Kid (idem, 1973) cantaram o fim de um momento histórico e de um gênero, mas vale lembrar que O Vingador Silencioso é uma leitura mais voltada para o estilo, para as raízes estabelecidas na Itália, utilizando o contexto histórico dos EUA como superfície para algo mais pessoal – ou seja, é um trabalho que visa representar o trágico fim de um estilo tipicamente italiano; pura desculpa para Sergio Corbucci imprimir sua visão da coisa. Ao considerarmos que a torta imagem do herói do western spaguetti foi cativada em Django (idem, 1966), fica melhor compreensível essa relação simbólica de Corbucci com seu outro filme – sua grande obra-prima.

A desconstrução não ocorre apenas pelo cenário. Reparem na arma utilizada por Jean-Louis Trintignant sob a pele do justiceiro mudo; automática, sem permissões para a imagem de estilo que boa parte das figuras esboçou durante clássicos momentos de tiroteio; porque a imagem exposta por Trintignant é quase como se fosse a de um mensageiro da morte, que está ali não para mostrar o quão bom é em manejar armas de fogo, mas apenas para realizar seu automático e quase impessoal trabalho de tirar vidas. Mas O Vingador Silencioso (cujo roteiro foi escrito a oito mãos) é tão sacana que, não contente em utilizar um personagem subversivo dentro de um cenário subversivo, o coloca em próprio processo de desconstrução. Algo doentio, diga-se de passagem. Não existe espaço algum para o sentimento de esperança; é tudo tão direto, frio, que a narrativa cria uma atmosfera de densa tensão. Aquela imagem extraída na cena de abertura, nos créditos iniciais, com o justiceiro mudo sobre seu cavalo, que afunda as patas na grossa camada de gelo, já nos deixa em alerta para o que vem a seguir. E citar Morricone mais uma vez é obrigação; a coisa deve muito a ele – é um desafio assistir e não se arrepiar com a ambientação proposta pelo diretor, sob a companhia da música-tema.

O espetáculo de horrores é composto principalmente pelo que há de mais sujo que o western spaguetti sempre se comprometeu: desvirtuamento de valores éticos convencionais e a violência como algo inerente ao homem (Klaus Kinski, maravilhoso, expondo por palavras o tipo de homem que o Loco é, quando o Xerife é executado por suas mãos). E o aditivo do branco, o elemento que intensifica tudo. Sergio Corbucci descobriu que somar o branco da neve à condição de morte da qual todos os personagens compartilham (algo que parece ter inspirado Joaquín Luis Romero Marchent no chocante Condenados a Viver [Condenados a vivir, 1972]) daria a ele a carga psicológica precisa para narrar a morte do velho herói do Oeste – ou ao menos como passamos a conhecê-lo. O sangue manchando a neve cria um efeito incrível de fragilidade carnal, uma vulnerabilidade que está nos olhos e, sobretudo, no silêncio do justiceiro – dolorosa a cena em que pegam sua mão para colocar no fogo; notem em todo o cuidado de direção ao exprimir a agonia do personagem, tentando gritar, mas impossibilitado de realizar tal ato (momento sádico que termina por ser tonar mais árduo que o próprio fogo em si; as feições do Trintignant, se contorcendo, anulam qualquer necessidade de palavra).

O Vingador Silencioso é uma tragédia. É explícita a necessidade de utilizar o sofrimento para fins catárticos: o amor que é construído do nada, somente para ser terminado por meio de um banho de sangue, e a representativa morte do protagonista. Klaus Kinski, ao final, mata o justiceiro silencioso, e chora. A câmera enquadrada nos olhos de Kinski é uma coisa belíssima, pois transfere a pessoalidade de Sergio Corbucci para o olhar do homem responsável por matar o “herói” clássico, quase que um momento de abstração em relação à própria narrativa: ele atira, sem hesitar, sob o contexto mais imoral possível; mas ainda assim sente, pois sabe que aquela imagem acabou-se assim, como um lixo (sem voz, sem mãos, desarmado, impotente), e jamais voltará – é o reconhecimento de um antagonista em relação à importância icônica de seu inimigo numa relação de completude. Peguem personagens memoráveis como Django e Blonde, e mate-os; sob a ótica do Cinema, não são homens, mas sim símbolos – algo poderoso. É construído um funeral; sem o calor da vida (suja, errante, mas ainda vida), apenas o frio da morte de um grande símbolo, segundo um de seus criadores.

Comentários (28)

Josiel Oliveira | terça-feira, 07 de Abril de 2015 - 12:57 | Responder

Acho justo limpar a discussão (apesar das pérolas impagáveis)

Bernardo D.I. Brum | terça-feira, 07 de Abril de 2015 - 14:32 | Responder

Pena que não usou os dotes e talentos para aprender sobre educação, respeito e humildade.

Dr. Julio Silva | terça-feira, 07 de Abril de 2015 - 15:22 | Responder

Crítica muito boa essa. Pena que o foco da atenção não seja o escrito do Victor, mas sim o destempero do Mutley gaúcho: Estrelinha, Estrelinha, Estrelinha. Nada daquele risinho no entanto, somente a soberba toma o lugar daquele resmungo rancoroso que o personagem original (muito mais simpático) soltava em direção a um Dick Vigarista azedo (geralmente acompanhado de expressões pouco inteligíveis e nada elogiosas).😈

Marcelo Cardoso Queiroz | terça-feira, 07 de Abril de 2015 - 17:36 | Responder

Sinceramente, sou novo por aqui, já escrevi quase dez comentários e não fico de mimimi por pouca coisa. Tem uns aqui que pela foto de perfil nem parece ter a idade que tem, tamanha é a infantilidade rs

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