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Críticas

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"O que aconteceu com Shyamalan?"

7,0
Acompanhar a derrocada de Shyamalan para mim sempre foi como ouvir uma notória piada e não compreendê-la. Parte da dificuldade em entender porque tantas pessoas em tão pouco tempo voltaram-se contra o diretor se relaciona com a gigantesca alienação a respeito do que constitui o cinema de Shyamalan para começo de conversa. Para que eu chegasse a um conceito basilar claro a respeito do que o diretor busca articular em seus filmes, eu fiz apenas duas coisas, 1. assisti a seus filmes e 2. observei-os.

Não é necessário observar nem com muita força para saber que o cinema de Shyamalan não é definido pelo suspense, nem pelo plot twist. Dispostos na mesa, todos os filmes de Shyamalan, e com isso quero dizer todos os filmes feitos de 1992 a 2008, e este A Visita (The Visit, 2015) (deixando de fora O Último Dobrador de Ar, por tratar-se de uma adaptação, muito mal feita em todos os sentidos, inclusive, e Depois da Terra, pois não vi e não pretendo ver), possuem estruturalmente ao menos duas coisas em comum: 1. a narrativa ocorre em microssomo, isto é, concentra-se em dois ou três personagens, muito embora outras pessoas transitem pelo mesmo universo dramático e 2. existe sempre a relação entre dois universos distintos, que constituem-se como dois universos expressos dentro da narrativa e ao mesmo tempo como dois níveis de leitura do próprio filme.

Com “nível de leitura” quero dizer somente que existem duas possibilidades imediatas para interpretação de qual é, no nível mais básico, o assunto de determinado filme de Shyamalan. Defendo que um nível não deve sobrepujar-se ao outro, mas a maneira pela qual enxergamos determinados filmes podem dizer muito a respeito do direcionamento do nosso olhar para o que acontece na história. Desde a primeira vez em que assisti O Sexto Sentido, por exemplo, eu não enxerguei o filme de outra maneira que não assim: é um filme sobre uma mãe e um filho aproximando-se. Para mim, os fantasmas são apenas mais um elemento nessa história, assim como há outros tantos.

Eu consigo ter essa visão apesar de saber que o filme alcançou o status que alcançou (e consequentemente garantiu ao seu diretor um grande status também) por causa dos fantasmas e do plot twist. Mas o rebuliço em torno de um filme geralmente não é o seu tópico principal. A conversa que você tem a respeito de um filme não deve ser dirigida pelas reações e clamores gerais – ela pode ser iniciada por você mesmo. A maluquice em torno da derrocada do Shyamalan, para mim, é que a conversa em torno desse fenômeno de queda me é inteligível. O que se diz a respeito dos filmes e o que se defende a respeito dos fracassos seguidos de fracassos do diretor me são ideias estranhas, com zero ressonância pessoal de acordo com aquilo que eu interpretei de cada um de seus filmes.

Com o passar dos anos, o fracasso passou a dominar a pauta de discussão a cada novo lançamento do diretor e eu acredito que isso gerou uma deturpação do direcionamento do olhar de todos nós: bastava muito pouco para atestar que o filme havia falhado e que Shyamalan já havia se tornado uma piada. O diretor poderia lançar um filme exatamente como O Iluminado (The Shining, 1980), de Kubrick (num exercício hipotético em que Kubrick não houvesse lançado o filme em 1980) e mesmo assim o filme seria destroçado pela crítica, escarniçado pelo público geral, tornando-se um tremendo fracasso de bilheteria. Os motivos: porque Jack Nicholson fala de um jeito engraçado e conversa sozinho, porque Shirley Durvall está péssima no papel, porque o menino é meio esquisito. Questões total periféricas à centralidade do filme, mas que arrastam-no para o léu do fracasso.

A graça do exemplo hipotético é que O Iluminado foi, de fato, escrachado no seu lançamento. Muito mal falado pela crítica, muito mal falado por Stephen King, chegou a concorrer a uns prêmios Framboesa. Mas hoje é um cult tenebroso absoluto, tido pela crítica geral como um dos grandes filmes do diretor de Nascido para Matar e Laranja Mecânica. É, portanto, muito fácil deixar-se tragar pelo rebuliço coletivo na hora de observar e analisar um filme e a nossa postura enquanto consumidores de cinema deve ser a de sempre passar por cima desse coletivo, afim de extrair do filme as experiências e impressões que de fato reverberam em cada um de nós, sejam em níveis intelectuais, emocionais e etc.

E a minha impressão a respeito do cinema de M. Night Shyamalan é essa: o fracasso artístico que muitos defendem ter acometido sua carreira não é real. Há oscilações que permeiam sua obra, e de fato ele não parece tão afiado hoje como quando no começo de sua carreira, e também há pelo menos um filme muito ruim (a adaptação do desenho Avatar; repito que não vi Depois da Terra). Mas sua filmografia até Fim dos Tempos é extremamente sofisticada, não conformista e valiosa. Essa é a minha impressão.

De qualquer forma, não pude evitar ficar contente quando correu a notícia de que seu mais novo filme, A Visita, traria novo fôlego à sua carreira. Significaria que a possibilidade do diretor voltar ao menos um pouco às graças do público seria mais real, e minha teoria é que isso traria fôlego artístico aos seus trabalhos futuros. Porém, a impressão de que A Visita é uma retomada ao cinema que lhe trouxe fama no final dos anos 1990 parece dissipar-se cada vez mais. Na medida em que chegam  novos comentários, mais e mais pessoas exibem argumentos no sentido de justificar que o filme é vicioso, sem graça e muito pouco assustador.

A mãe de Becca e Tyler recebe um contato de seus pais pedindo para que conheçam os netos. Becca e Tyler concordam em viajar até o pequeno sítio de seus avós, enquanto a mãe passeia em um cruzeiro com seu namorado. Becca, a irmã mais velha, fascinada por documentários, resolve registrar todos os momentos da viagem, filmando inclusive depoimentos de cada sujeito na história, afim de montar um documentário coeso a respeito da briga envolvendo sua mãe e seus avós.

Num primeiro momento, os avós de Becca e Tyler parecem carinhosos, prendados, a manifestação perfeita do que avós do interior deveriam ser. Logo na primeira noite, porém, o comportamento absurdo dos avós já começa a ser escancarado. Ao ouvirem barulhos vindo do corredor, os netos ignoram o toque de recolher dado pelo avô (nove e meia da noite), e ao abrirem a porta para averiguar, veem a avó completamente nua, de costas, arranhando violentamente a parede oposta.

A partir de então, Becca e Tyler são confrontados com os mais estranhos comportamentos por parte dos avós. Ao questioná-los, porém, os avós mostram justificativas perfeitamente plausíveis para cada um deles. Cada vez mais amedrontados, os dois ponderam se interrompem a viagem da mãe com o namorado (Tyler chega a comentar, ao ver um vídeo da mãe dançando no cruzeiro, “eu nunca a vi tão feliz”), ou toleram os estranhamentos com os avós, já que tudo não parece nada além dos efeitos da solidão e da velhice aflingindo o casal idoso.

A filmagem ocorre diegeticamente, isto é, tudo que vemos no filme é fruto da gravação direta que algum personagem do filme faz. Isso acontece porque Becca está gravando um documentário sobre sua visita à casa dos avós, mas existe o interesse de Shyamalan em trabalhar com as imagens diegeticamente pois seu filme busca trabalhar com o conflito entre verdade e ficção. Investir de diegese as imagens captadas para o filme significa atribuí-las o status de realidade.

Esse recurso não é utilizado para que a tensão do filme se potencialize, mas para que se tenha valor simbólico diante da linha discursiva da história: afinal, qual é o mistério que permeia A Visita? Os avós estão possuídos, ou de fato estão apenas velhos e doentes? Becca e Tyler, de posse de suas câmeras de filmagem, dispõem-se à investigar mais profundamente essa questão. Não se trata mais de descobrir o motivo da briga entre mãe e avós, mas de lançar luz sobre as esquisitices que constantemente cercam a semana em que vivem como hóspedes numa casa repleta de maluquices.

É em razão desse processo de investigação que A Visita é todo filmado diegeticamente: a ferramenta estética do cinema para a averiguação/investigação de fatos geralmente é o documentário (isso não é regra). O instinto documental das crianças é o combustível que transforma o filme em uma narrativa de propulsão, ao invés de um desencadeamento desconexo de cenas de suspense. Cada ação tem consequência. A cada vez que as crianças chegam perto da verdade, mais ela se reconfigura em uma condição plausível e inofensiva, apenas para se transformar posteriormente em algum outro mistério ainda mais escabroso.

Portanto, a diegese cinematográfica aqui acontece com o propósito de criar significado e intensidade para as ações da narrativa e dos personagens. Ela não é um recurso atmosférico como ocorre com a imensa maioria dos filmes que se utilizam desse tipo de estratégia. Ela tem caráter limitador em A Visita, assim como nesses outros filmes, mas a tentativa de Shyalaman de reconfigurar seu significado é clara.

Finalmente, se o filme se desenvolve e se ergue enquanto narrativa através do impulso de seus personagens, é deles que precisamos falar. O que a maior parte dos filmes que se utilizam do esquema found footage tem em comum? Pensando em [REC] (idem, 2007), Cloverfield - Monstro (Cloverfield, 2008), Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007) e A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), eu consigo enxergar pelo menos duas coisas. O propósito da utilização do esquema found footage é o mesmo – potencialização atmosférica. O objetivo é investir o espectador na ação ao lado dos personagens. É um recurso honesto, que abre mão de possibilidades da linguagem cinematográfica (principalmente da montagem), para ganhar essa presença. Tratam-se de bons filmes, que conseguem causar medo e tensão, pelo menos em mim, portanto a escolha pelas imagens captadas em diegese provavelmente foi adequada.

Porém, todos eles sofrem de um outro problema estrutural: péssimos personagens. A questão não é apenas que os filmes ocorrem numa lógica semi-slasher, um personagem morrendo atrás do outro. A questão é que, filme após filme ficou cada vez mais claro e estabelecido criar e desenvolver personagens nos filmes found footage é, por algum motivo, muito mais difícil. Os personagens são, nesses trabalhos, aspectos tangenciais ao principal: a reflexão e trabalho do medo com relação à presença.

Mas o cinema de Shyamalan é todo construído em cima de personagens e suas relações afetivas, emocionais, físicas e espirituais. Sua obra é calcada no melodrama, em proporções exatamente iguais ao suspense, ouso dizer. O interesse do seu olhar, em termos de personagens, é o de identificar a doença numa relação, para então curá-la.

Em A Visita há algumas coisas que devem ser observadas. Existe um passado em relação ao filme e também em relação aos personagens principais (Becca e Tyler): a mãe fugiu de casa brigada com os avós. Alguma coisa muito terrível aconteceu determinando que não houvesse contato entre netos e avós durante mais de treze anos. Além disso, o pai abandonou a família para fugir com uma garota bem mais nova. Desde então, a mãe está fragilizada emocionalmente e as crianças desenvolveram certos TOCs: Becca não suporta olhar-se no espelho, provavelmente em razão da baixa autoestima pelo abandono; além disso, a garota despreza tanto o pai, e promete nunca filmar a imagem dele; Tyler é obsessivo em relação à limpeza, e acredita que o pai fugiu porque ele mostrou fraqueza em um jogo de futebol, provavelmente por isso tente compensar tanto com toda a coisa de ser rapper.

Eis então as doenças: a visita dos netos aos avós ocorre exclusivamente em razão de dois acontecimentos traumáticos específicos, que afetaram permanentemente o equilíbrio emocional dessa família. Ao investigarem a briga da mãe com os avós, os filhos se veem incapazes de lidarem com essa questão sem trazer à tona o abandono do pai e como isto afetou cada um dos dois.

Nesse momento A Visita torna-se legitimamente um Shyamalan. Se o que eu defendi no começo é que todo filme do diretor acontece na relação entre dois universos distintos, quais são os universos de A Visita?

Após refletir sobre o filme, entendo que esses dois universos são o da ficção e o da verdade, assim definidos muito preguiçosamente. A ficção diz respeito àquilo que o filme tem de gênero. São as questões que aproximam A Visita ao terror. Dizem respeito ao susto, ao medo, à tensão, e estão manifestadas claramente nas figuras da avó e do avô. A essas questões temos acesso através das imagens captadas por Becca e Tyler de suas câmeras, ora colocadas sob uma mesa ou armário, ora segura pelas mãos de uma das crianças. A verdade diz respeito ao que o filme constrói enquanto personagens e relações de personagens. É a bagagem emocional do filme, aproximando-o do melodrama (que não é tanto um gênero, no cinema, quanto uma filosofia), acessada pelas imagens registrada pelas crianças, é verdade, mas principalmente pelo que elas dizem e trazem como experiência de vida antecedente à história.

Os planos da ficção e da verdade ocorrem simultaneamente, acessados enquanto dispositivos dramáticos pelo diretor a qualquer momento, conforme necessidade da história. Mas é muito importante ressaltar que é através do confronto tenebroso com o plano da ficção, que as crianças podem transgredir as suas limitações do plano da verdade.

Essa relação de simultaneidade e dependência mútua acontece em todos os filmes de Shyamalan. Como exemplo, a cena mais clara nesse sentido de todos os seus filmes seja a do ataque de asma em Sinais. Após invadirem a casa dos Hess, os alienigénas conseguem romper a entrada do porão, onde se encontram os personagens. Merrill (interpretado por Joaquim Phoenix), consegue erguer a porta novamente, prendendo-a com sacos de terra. Ele senta, exausto, e passeia com a lanterna pelo porão enquanto a música de suspense se agrava. O espectador tem certeza que ele vai encontrar algo muito, muito ruim. Ele finalmente encontra Morgan, deitado no colo do pai, tendo um ataque de asma. Morgan é salvo porque Graham sussurra em seu ouvido: “acredite, acredite”, restaurando sua fé. A resolução do “conflito dramático” de Sinais (Graham sofrento de luto, perdendo sua fé) ocorre através do acossamento do “conflito do mistério” (a invasão alienígena).

A partir daqui, há spoilers. Pare de ler imediatamente se não deseja ter detalhes da trama revelados pelo texto.

No clímax de A Visita ocorre inclusive a manifestação simultânea desses dois planos. Os segrendos que cercavam os avós e a casa são completamente expostos pela história, e as crianças devem enfrentar corajosamente seus piores medos para poderem de alguma forma escapar. Os avós estão mortos, assassinados por um casal de sociopatas completamente malucos, que tomaram-lhes o lugar de avós das crianças e agora, no último dia da visita, estão pronto para assassiná-las. Com um pedaço de espelho, Becca consegue matar a velhinha. Paralizado pelo medo, tal qual ficou no jogo de futebol, Tyler desperta furiosamente no momento em que o velho estava prestes a matar sua irmã, aplicando-lhe um golpe de futebol americano, ganhando tempo suficiente para ele e a irmã pudessem correr para for a da casa, em direção aos braços da mãe. Um momento que seria carregado de emoção, interrompida pela intrusão irônica e afetada de uma música de ópera, que quebra com a dramaticidade e revela, o que já é claro desde o começo: o filme todo é o próprio documentário de Becca.

Por essa razão que, mesmo sendo um found footage, Shyamalan permite trilha sonora no filme. Uma desculpa esdrúxula, certamente, mas plausível dentro dos parâmetros estabelecidos pela história. O filme se encerra com a imagem de Becca e Tyler, ainda bebês, nos braços do pai. Becca rompe com sua promessa pois os traumas do passado de sua família reconfiguraram-se em meras recordações, e todos eles estão prontos finalmente para seguirem em frente.

Trata-se, enfim, de uma reconciliação de Shyamalan com as questões que o próprio estabeleceu como essenciais ao seu cinema. A execução não ocorre com a apuração de seus primeiros trabalhos, mas A Visita é repleto de estranhamentos, de um bom terror e da carga dramática que, na minha opinião, fez com que o diretor tivesse a filmografia que tem hoje. É muito mais ligado ao terror do que propriamente ao suspense, mas é natural que os dois gêneros se confundam e se intercalem, algo que ocorreu também em Fim dos Tempos. Esperamos que a partir de agora, M. Night Shyamalan não se embaralhe mais com os filmes de estúdio, concentrando seus esforços em filmes mais baratos, porém com mais personalidade.

Comentários (11)

Vinícius Aranha | quarta-feira, 02 de Dezembro de 2015 - 23:57 | Responder

Também curti pra caralho. E o humor tá mesmo na essência do filme, justamente pra testar o limite do ridículo do próprio gênero que aos poucos vai envolvendo os personagens e suas redenções (as tiradas metalinguísticas do começo são ponto-chave). Além do que de qualquer jeito os experimentos que ele faz com ponto de vista e construção de suspense aqui são bem fortes. A cena do esconde-esconde é genial.

Declieux Crispim | quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015 - 08:55 | Responder

A crítica é muito bem construída e pertinente, mas discordo de muitos aspectos. Para mim, não há derrocada na carreira de Shyamalan. Seu único escorregão foi em A Dama na Água, que apesar de todas as falhas não é ruim. O Último Mestre do Ar e Depois da Terra são bons. Fim dos Tempos é um dos melhores e A Vila é uma obra-prima.

Gian Luca | segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015 - 21:27 | Responder

Crítica linda! Eu interpretei a obra primeiramente como uma espécie de metáfora dos medos e traumas que as crianças precisam superar para seguirem com suas vidas. Assim, elas teriam que simbolicamente (nesse caso literalmente) matar os avós, e com isso o passado traumático que eles representam. Nesse caso, elas conseguem seguir em frente com a mãe, que também acaba superando o passado.

Luiz Phillipe Lameirão Côrtes | sábado, 09 de Janeiro de 2016 - 02:17 | Responder

Mais um filme desse cara que não me disse muita coisa. Acho "A vila" um espetáculo, maravilhoso, me fez repensar Shyamalan como um monstro, (eu havia detestado "Sexto sentido" e afins), mas todos os demais filmes dele que fui vendo em seguida me trouxeram de volta à visão inicial sobre o diretor. Fraco. Mesmo tendo o belíssimo "A vila" no currículo.

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