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Críticas

Cineplayers

Imersão condicional.

7,5

A imersão é condição fundamental em A Vizinhança do Tigre, a começar por seu processo de produção: o corte final compreende 94 minutos selecionados em mais de 130 horas de material, registradas ao longo de quatro anos em uma aproximação autoral estabelecida pelo cineasta Affonso Uchoa com quatro jovens moradores do bairro Nacional, em Contagem, cidade periférica da grande Belo Horizonte. Mas não é a imersão do cineasta neste ambiente – anterior ao processo de filmagem - que realmente atinge reverberação em tela, no que o filme apresenta através da sua narrativa - pois, ao contrário do que se pode imaginar, este processo da realização não é ressaltado pelas imagens ou pela montagem. A imersão proposta, como consequência deste processo, é propriamente a imersão do olhar, da relação entre objeto – os jovens que habitam periferias das grandes cidades – e espectador, em um ambiente constituído lentamente através de ações cotidianas próprias àquele local, condicionado por uma violência que jamais emergirá em tela, mas que circunda todos os corpos e espaços.

Com esta proposta, A Vizinhança do Tigre parece desviar da catalogação híbrida entre documentário e ficção que dialoga diretamente com tantos outros filmes da cinematografia brasileira recente, e que se propõem a observar o cotidiano com mediação discreta da câmera e da composição visual. A combinação de olhares de Uchoa e dos garotos ocorre no processo de produção e não será exposta novamente em tela. Ao contrário: deste processo, restará um exercício de representação pelo qual estes jovens reescreverão sua realidade para conceder a ela uma possibilidade de leitura, apostando na caracterização das próprias idiossincrasias. É da força deste exercício que nascem os principais méritos do filme, em especial a sustentação do tempo e sua dilatação para representar o contato destes personagens, inserindo-se no cotidiano dos jovens com uma completa anulação do extra-campo, pouco evocando o que orbita em torno da periferia (ou melhor, o espaço em torno do qual ela orbita).

Se algo chama atenção nestas opções, é principalmente a maneira com a qual a miséria é trabalhada pelo filme sem precisar ressaltar contrastes evidentes  – e, ao menos até seu fragmento final, também sem apontar pontos de fuga como prováveis soluções para a problemática -, preferindo agir especialmente sobre uma ideia de desejo material pelo que, nas condições dispostas, jamais será permitido ao filme projetar em tela. Há alguns momentos simbólicos neste sentido, que evidenciam a situação de pobreza filmada com o peso representativo do vazio, principalmente durante as dinâmicas e brincadeiras estabelecidas entre os garotos, nas quais reinventam brinquedos com outros objetos, acompanham músicas ensaiando com instrumentos simulados no ar e maquiam uns aos outros com liquid paper; um desejo latente pelo que escapa às possibilidades daquele espaço, mas que habita o imaginário destes jovens, restando ao filme menos lamentar as ausências que registrar como os personagens lidam com elas – e com os desejos projetados a partir delas.

Em tempos de fortes discussões sobre as condições da juventude nas periferias brasileiras, de manifestações e quebra de tabus sobre a compreensão do desejo de reinserção destes jovens, é intrigante deparar-se com um filme como A Vizinhança do Tigre. Ao mesmo tempo em que a representação deste cotidiano estimula a reflexão sobre a relação entre homem e meio, comportamento e condição, também conflita estereotipias e convicções das leituras produzidas de fora destes ambientes. Pela riqueza e natural complexidade do tema, o material carrega um peso que ao final parece difícil de ser plenamente expressado ou resolvido pelo filme – e o ponto de fuga que se estabelece além do horizonte para o jovem que resolve resistir à violência da realidade gera um desconforto, uma sensação de insuficiência no que se conclui da montagem geral destes conflitos. Nas imagens que encerram o longa, porém, com um grupo de jovens transitando sobre skates por uma ladeira asfaltada, a cidade que antes não víamos passa a crescer em representatividade no quadro e provocar um atrito que não apresenta outros rumos à discussão, mas nos retira do transe proposto pela imersão para nos conduzir de volta à tensão entre corpos e espaços que acompanhamos diariamente nos telejornais.

Visto durante a 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes 

Comentários (9)

Ravel Macedo | quarta-feira, 05 de Fevereiro de 2014 - 12:50 | Responder

parece que ele produziu vários filmes que tiveram em Tiradentes

Vinícius Aranha | quarta-feira, 05 de Fevereiro de 2014 - 14:04 | Responder

http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/cinema/2014/01/30/noticia_cinema,150971/thiago-macedo-correa-destaca-se-pela-quantidade-de-obras-com-sua-assin.shtml

Lucas Maciel | quarta-feira, 05 de Fevereiro de 2014 - 14:40 | Responder

Thiago sabe muito de cinema, boa sorte pra ele nessa empreitada.

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