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Watchmen - O Filme

(Watchmen, 2009)
7,5
Média
787 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Watchmen na grosseria fetichista brutal com a sutileza dum facão

9,0

Baseado na Graphic Novel revolucionária homônima de 1987 (roteiro do prestigiado Alan Moore e arte de outro monstro do calibre de Dave Gibbons) transpõe-se como uma grande e imponente obra crítica à política norte-americana doutrora com os anseios ideológicos partiuculares de seus personagens, além de conter uma motivada construção fetichista imagética circular ao redor dos mesmos, montando uma obra cínica, amoral e absolutamente escrota. 

A história desenrola-se a partir de uma investigação de Walter Kovacs/Rorschach na busca por um suposto assassino de mascarados que, segundo ele, estaria caçando todos os antigos vigilantes, e passa a encontrar-se com uma cada vez mais intrincada rede de espionagem internacional que o leva a um destino de combate sem precedentes, que transformaria a condição política e social de todo o planeta.

O período retratado seria um recorte a partir de fins da década de 30 ao ano de 1985 (que a priori os produtores tinham o infeliz plano trazer o filme para o século 21 e estragar todo o arcabouço contextual – principalmente nos trâmites da Guerra Fria e sua corrida bélica – de Moore), com alguns intervalos intercalados, o filme discorre suas ações diante de todo um mosaico político buscando uma transposição por imponência visual. Bem a carapuça do Snyder e sua gama construtivesca de exageros escusos e tantas vezes sensacionais.

A conotação política deve ser levada em consideração como crítica ao american way of life e suas concepções do que seria o americanismo alienante no que tange ao governo se utilizar de um poder quase absoluto - Dr. Manhattan - para vencer uma guerra com a completa rendição do Vietnã, e como a população do país reage de maneira positiva quando necessita dos vigilantes e quando são motivados e excluí-los da sociedade. Isto sem a necessidade de quaisquer proselitismos que o valham. A fita passa por sobre isso de forma grossa mesmo, seja no coitadismo sonhador do Coruja ao tom de sacanagem pessimista e abusiva dum Comediante - coisa bem chupada das HQs que o Snyder manteve e aumentara.

Mesmo sendo um grande fã da HQ, não sou a favor do xiitismo exacerbado de muitos quanto a esta adaptação, porque deve ser levada em consideração as diferenças entre as duas mídias, e uma transposição total seria dificilmente viável (o fato da obra dialogar com teorias fractais e toda a mesma ser simétrica em sua composição geral de quadros em algumas sequências - o filme, corretamente, somente cita e homenageia elementos como esses) de uma obra tão abrangente e complexa quanto Watchmen. Exatamente por isso que as escolhas visuais abusivas do Snyder servem tão bem para apresentação e avacalho mais do que a construção verborrágica dos diálogos.

Visualmente arrebatador. Com uma fotografia chapada foda (Larry Fong, companheiro já habitual do diretor) expondo diversos elementos de perspectiva de fundo que funcionam como um mosaico histórico daqueles recortes de tempo além da exposição física quase erótica de seus personagens; somada ao exímio trabalho de Zack Snyder com suas habituais escolhas em câmera lenta, principalmente, na cena de abertura (fantástica e, sem dúvida, uma das melhores partes do filme). A direção de arte impressiona por um misto de realismo do período com elementos de uma tecnologia energética modificada pela presença do Doutor Manhattan de maneira perfeccionista e arrebatadora. Um esquema dialético entre o tom de abuso e sujeira dos anos 80 e a tecnologia retroativa do que se pensava naquela década nas conjecturas dali em diante. Tudo acabando por se encaixar bem, num mosaico que se ajunta no absurdo debatendo com a perspactiva de uma proximidade realista, mas sempre estuprada pelo fetiche.

Uma das preocupações iniciais quando se tentaria transpor a obra ao cinema (além da dificuldade da direção de arte e de um roteiro inteligente e enxuto – a saber, Terry Gilliam tinha a intenção de dirigir a obra no início dos anos 90, porém foi persuadido por Alan Moore a não fazê-lo, Paul Greengrass também fora cogitado no fim dos anos 90) seriam os efeitos visuais para, por exemplo, se compor o próprio doutor Manhattan e não só pintando-o de azul como um membro do blue man group. Os efeitos mostram-se impecáveis em todas as suas cenas, onde produzem impacto de maneira seca (além da construção do próprio Dr. M.) principalmente na explosão ao fim do filme. Tudo a cargo pela afeição da direção pelo arremate visual.

O elenco produz um belo espetáculo apesar de uma escorregada aqui e ali (a inexpressiva Malin Akerman como Laurie Jupiter/Espectral II). Billy Crudup como Dr. Manhattan/Jon Osterman consegue sintetizar bem o lado humano inicial de Osterman e compõe bem o tom de voz supostamente imparcial e expressão ideais à frieza crescente de Manhattan. Patrick Wilson (Dan Dreiberg/Coruja II) faz um burocrático coruja sem contraindicações com até alguma qualidade no derrotismo habitual de seu personagem. Inicialmente ao ver o filme no cinema pela primeira vez em 2009 (e como fã confesso da HQ) decepcionei-me primeiramente com o filme e muito em parte por culpa da figura do Ozzymandias (Matthew Goode) que não me parecera convincente devido ao caráter de tour de fource que acreditei que deveria ser empregado, porém após uma segunda leitura comecei a me interessar pela interpretação do mesmo onde deparei-me com a mesma citação a alguns valores sociais e culturais na HQ, mas de maneira mais escrachada no filme (como no caso da homossexualidade do mesmo, que no filme é praticamente exposta), com direito até uma brincadeira em frente a boate Studio 54, tornando um personagem mais afetado e grandiloquente, por fim, mais interessante. Jackie Earle Haley brilha como Walter Kovacs/Rorschach desde a entonação vocal aos trejeitos doentios e as belas cenas de luta, porém impressiona mesmo nas feições de paranoia e desespero quando está sem máscara em suas sequências na prisão e em seu aterrador final. O mais brilhante, porém, e um dos que menos aparecem em cena, seria Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / Comediante) que o ator toma conta de cena com todo o seu personagem de caráter amoral, sarcástico e repulsivo onde acredita que o mundo é, tão somente, uma grande piada de mau gosto e somente teria sentido uma existência nele como uma paródia do mesmo.

O roteiro a cargo de David Hayter e Alex Tse procura manter uma proximidade possível com a obra original, que somada a direção de Snyder, produzem momentos antológicos (como a abertura) reverenciando a obra de Moore, mas tomando devidas e acertadas liberdades principalmente na mudança drástica do final do longa. Snyder não é um cara de sutilezas e acreditou que para a adaptação seria necessário acrescentar um tom mais pesado e agressivo nas situações propostas, o que mostra a sua visão sobre as diferenças entre as mídias. A ultraviolência pareceu-me necessária e adequada perfeitamente ao filme visto que o choque da HQ em sua publicação original fora diverso, o mesmo não aconteceria hoje onde diante de espectadores bem menos chocáveis e sem o tal medo compreensível de uma guerra nuclear acreditada por muitos como iminente. E o Snyder trata a violência como estética de fabulação controversa tesuda, o que encaixa bem no cinismo proposto. O fato de não haver os contos do cargueiro negro foi uma decisão sábia para diminuir o tempo do filme. Quem assistir a versão integral poderá perceber que a inclusão desses contos não se encaixa na trama de maneira perfeitamente simbiótica como fora na HQ (porém quanto às cenas extras da versão do diretor, algumas somam de forma significativa a história - também, logicamente, para deleite dos fãs - como a cena da morte de Hollis Mason e a reação de Dan a esta notícia). Quanto a invasão e a grande batalha dentro da prisão demonstra uma certa vontade de angariar publico por parte dos produtores, bem feita e com uma música descartável. O final alvo de críticas pelos xiitas mantém-se coeso e assertivo, e tão bom quanto o original, muito pela verossimilhança do fato de que um ataque do Dr. Manhattan as grandes metrópoles mundiais acarretaria uma união dos países em prol do melhor para a humanidade, visto que todos pensando em outra destruição causada pelo azulão, assim iriam se preocupar com ele e não mais com a Guerra fria em voga e a quase eminente destruição global pelos mísseis. E também, convenhamos, uma lula gigante colou mais em tempos da década de oitenta (auge das crenças em ovnis), além do que teria de se ater a boa parte do roteiro para explicá-la.  E a investigação que motivara a morte do Comediante ao descobrir inicialmente os planos de Ozzymandias convenceu-me na realização de um final diferenciado, porque o presidente Nixon colocava os mascarados sob vigilância após a homologação da Lei Keene (que proibia a existência de vigilantes que não trabalhassem para o governo), e como o Comediante trabalhava pro governo ele descobrira primeiramente.

E o fetichismo citado? O Snyder parte para um caminho dialético onde ele abusa do fetichismo de suas figuras para expor as marmotas delas. Ou até tirar uma onda, como O Ozzymandias tendo os mamilos mostrados em sua armadura tal qual o Batman do George Clooney na obra Batman & Robin do saudoso Joel Schumacher. A intenção era frescar numa lógica circular onde o fetichismo existe por ele mesmo, o que justifica os planos em contra-plongées contemplativos de várias figuras onde as mesmas cometem todos os tipos de destroçamentos carnais (como no Vietnã com Manhattan e Comediante) denotando o aspecto de cinismo tácito da obra. Corpos em slow motion pela via da da violência e tesão compulsório. O tom foge do realismo original abarcado para rebocar tudo através do exagero tesudo rasgado no fetiche do diretor. E esta lógica circular funciona bem, principalmente onde o mais contemplado pelo fetiche é o grande escroto da obra, Ozzymandias. É a maneira demonstrada pela direção aplicada mais pela forma do que pelo o conteúdo. O vício pelo físico e pela força. Pelo poder. Claro, que tudo embalsamado por cenas de ação em abuso pra agradar os fãs, ou seja, existe o agrado mercadológico pela necessidade e pela apresentação da obra para novas gerações, e o caráter de demosntração física de atração pelos corpos. Em 300 (adaptado de obra homônima em quadrinhos do Frank Miller) o Snyder já manjava isso numa obra que abria um precedente claro para a questão mediante a existência dos espartanos com todos os seus códigos de conduta na questão da fisicalidade, no Watchmen ele subverte a sobriedade do Moore batendo no fetichismo por outra ponta. Por isso a sagacidade do exagero quando bem contemplada deve ser altamente enaltecida. Aloprou.

Ousado e ambicioso, um filme sério(mesmo com o sarro que abraça aqui e acolá) que paira como um exemplo pretensioso que deve ser enaltecido e não relegado. Watchmen pode ser o futuro Blade Runner, que não foi bem recebido na época e hoje é um cult, e o criticado aqui pode seguir o mesmo caminho, e mesmo que não seja lhe dada essa alcunha, o material deve ser respeitado pela coragem autoral diante de um grande projeto da, muitas vezes, mera fabriqueta de  sonhos infelizes de Hollywood.

Texto maroto saído diretamente de 2009. Com concordâncias, edições, remendos e discordâncias atuais para com a minha pessoa de 12 anos atrás.

Comentários (1)

André Oliveira de Araujo Ferreira | terça-feira, 23 de Fevereiro de 2021 - 11:10

Esse filme é um daqueles que a gente tem que se afastar muito da obra que serviu de base para apreciar. Eu particularmente gosto.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021 - 18:39

O Snyder se afasta e se aproxima da obra ao mesmo tempo. Uma parada dialética. Grosso modo ele mantém os fatos e réplica a sua maneira a ambientação e os diálogos. Expondo alguns elementos que antes eram discretos na obra original. Mas subverte elementos da gênese para impor o seu esquema de cinema. Pra mim é um é exemplo de reinvenção de material que equilibre adaptação e criação.

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