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Waves

(Waves, 2019)
7,7
Média
28 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma poderosa, emocionante e visceral experiência cinematográfica.

9,0

Uma das características que mais diferenciam filmes comuns de grandes obras cinematográficas é que, nessas últimas, nada é aleatório. Ao contrário de produções realizadas sem qualquer ambição artística, os filmes realmente memoráveis são aqueles em que tudo o que se vê na tela – e até mesmo fora dela – tem um propósito. Desde o título, passando pela paleta de cores e figurino dos personagens, chegando até os movimentos e ângulos de câmera, cada decisão visa desempenhar uma função narrativa. Tudo tem o objetivo de traduzir, em linguagem cinematográfica, a jornada emocional dos personagens ou simplesmente acrescentar novas dimensões à compreensão da história que o cineasta está contando.

Waves é um desses filmes. Praticamente ignorado à época de seu lançamento, apesar da recepção razoavelmente positiva da crítica, o novo trabalho de Trey Edward Shults – que vem se destacando como um nome promissor do atual cinema norte-americano – é claramente o resultado de inúmeras decisões conscientes e habilidosas do cineasta. Trata-se de um filme particularmente bem pensado, apresentando uma soma de pequenas e grandes escolhas narrativas que culminam em uma poderosa e impactante experiência cinematográfica, capaz de adentrar a epiderme do espectador e lá permanecer por um bom tempo.

Mesmo quem, por qualquer razão, desgoste do resultado final da obra não pode negar a ambição e a ousadia de Shults. Waves pode ser adjetivado de muitas maneiras, mas jamais de comum. Na verdade, o filme é o típico exemplo de que, em uma realização artística, o mais importante não é o que se está contando, mas o como. Analisado unicamente por sua sinopse, o filme de Shults poderia ser visto como uma história sem grandes atrativos sobre uma família norte-americana qualquer. No entanto, a abordagem empregada pelo cineasta afasta Waves do bando ao qual ele poderia ser comparado, com soluções narrativas que, se não inovadoras, são no mínimo arriscadas, demonstrando visão e coragem.

Desde os primeiros segundos de produção, o espectador percebe estar diante de um filme com algo a mais. Se esse tempero será de nosso gosto, ainda não sabemos, mas as cenas iniciais com a câmera em constante movimento, a edição acelerada e a trilha sonora intencionalmente incômoda de Trent Reznor e Atticus Ross já colocam a plateia em um estado de alerta e de certo desconforto, dando amostras do que está por vir. Porém, se em Ao Cair da Noite, seu filme anterior, Shults parecia mais apaixonado pela perfumaria estética do que pelo núcleo dramático da história, aqui os dois elementos entram em total sintonia, em um filme que explora possibilidades da linguagem cinematográfica sem deixar de lado a história e os personagens.

Se usei previamente a palavra “arriscado”, não foi à toa. A estrutura aplicada pelo cineasta em seu filme está longe de ser tradicional. Sem adentrar em spoilers (mas, se alguém não quiser saber absolutamente nada, melhor pular essas linhas), a obra é dividida em duas partes claramente distintas, não apenas em relação aos protagonistas, mas também em tom. De certa forma, portanto, são dois filmes em um só, porém complementares: e é o forte impacto da primeira metade, e as sensações de angústia e dor que ele provoca, que faz o tom de redenção e reencontro da segunda soar tão aliviante.

Em sua parte inicial, Waves é pura intensidade. O objetivo claro de Shults não é apenas contar a história do jovem Tyler, mas fazer com que o espectador se sinta na pele dele. Trata-se da jornada de uma queda, de alguém que poderia ter tudo, mas que, graças a escolhas erradas, descendeu ao inferno. A fotografia que aposta em cores extremamente vivas, beneficiada pela estética natural da Flórida, reforça a percepção sobre esse começo no qual tudo é mais bonito para o personagem, enquanto a razão de aspecto garante planos bastante amplos. É apenas no desenrolar da narrativa, quando o mundo de Tyler parece se limitar, que o filme passa a adotar cores mais escuras, enquanto a razão de aspecto se reduz gradualmente para simplesmente cortar as laterais da tela, confinando o protagonista em um quadrado que reflete toda a angústia pela qual ele passa. Por mais que o espectador não perceba diretamente essas soluções narrativas do cineasta, ele as sente de maneira clara, uma vez que a apreensão e a claustrofobia vão aumentando gradativamente até o acontecimento central que divide as duas partes do filme.

O que se viu, até aí, foi a desfragmentação não apenas de um personagem, mas de uma família. Shults joga o espectador em uma jornada tensa e aflitiva, sem concessões – com uma energia irrefreável que lembra muito o recente Joias Brutas, dos irmãos Safdie. Em vez de manter o tom de decadência, porém, o cineasta surpreende com uma segunda metade onde o foco está na reconstrução e na esperança. Adotando uma estética quase oposta à que havia seguido até então, Edward Shults faz o caminho inverso quando Emily assume o protagonismo: se antes o mundo se fechava em torno de Tyler, ele agora se abre diante de sua irmã. A razão de aspecto, por exemplo, inicia essa segunda parte fechada como havia concluído a primeira, limitada ao centro, mas vai se abrindo à medida em que ela descobre a força do amor, do perdão e, de certa maneira, a beleza da própria vida. Saem o nervosismo e a câmera inquieta, entram a calmaria e a plenitude.

E não são apenas a paleta de cores, a câmera e a razão de aspecto que guiam o espectador nessa poderosa jornada emocional. É impossível falar de Waves sem destacar o fundamental papel da trilha sonora de Reznor e Ross. Além de, conforme já mencionado, pontuar objetivamente o sentimento de tensão da primeira metade, utilizando distorções e alto volume, ela ajuda a fazer o espectador sentir, ao adotar tons mais calmos, a remontagem proposta na segunda. Como não bastasse, o filme inteiro é pontuado por trechos de músicas que ressaltam o estado de espírito dos personagens naquele momento da trama, potencializando os sentimentos.

Conduzido por dois jovens atores que precisam expressar uma variedade de emoções, Waves encontra seus protagonistas ideais em Kelvin Harrison Jr. e Taylor Russell. Enquanto o primeiro acerta ao transmitir um constante sentimento de inadequação, como sempre estivesse prestes a jogar por terra tudo o que tem, a segunda acrescenta camadas de doçura e graça a uma história, até então, desesperançosa em sua visão de mundo. E, se Sterling K. Brown mais uma vez demonstra todo o seu talento ao interpretar com profundidade um pai que é o oposto de seu Randall Pearson de This is Us, Lucas Hedges e Alexa Demie acrescentam camadas de complexidade a personagens que poderiam soar unidimensionais – e não deixa de ser curioso ver Demie em um filme que, tanto conceitual quanto esteticamente, lembra bastante a série Euphoria, da HBO, da qual também participa.

Claro que, em um filme com escolhas narrativas tão ousadas, nem tudo dá certo. Os excessos estilísticos de Shults podem incomodar espectadores mais sensíveis, por exemplo. Além disso, sentimos a falta de uma conclusão propriamente dita para a primeira parte: por mais que a segunda metade lide com as consequências do que ocorreu anteriormente, o cineasta opta por praticamente excluir Tyler do filme a partir de então, o que acaba por deixar uma lacuna na história. Por outro lado, a questão racial, exceto por uma cena, é acertadamente deixada de lado, evitando um possível desvio de foco que outro cineasta com menos confiança provavelmente teria abraçado.

No entanto, os poucos deslizes não afetam o forte impacto emocional alcançado por Waves. Se a primeira metade não nos permite respirar, a segunda traz esperança. É um filme, do início ao fim, hipnotizante, visceral, contado de maneira intensa e cuidadosamente pensada por Trey Edward Shults. Um conto sobre escolhas, tanto aquelas que podem nos levar ao fundo do poço quanto aquelas que, por fim, são capazes de nos fazer sair dele. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre as incertezas da vida, essa mesma que nos surpreende com a sua inconstância e com acontecimentos e sentimentos que, como ondas, vêm e vão, sem parar.

Comentários (3)

Igor Guimarães | segunda-feira, 11 de Maio de 2020 - 06:41

Tava querendo muito ver esse, o teu texto me empolgou ainda mais!

Augusto Barbosa | quarta-feira, 13 de Maio de 2020 - 14:14

O personagem de Hedges é o típico "subplot character" (aquele cuja experiência espelha a da protagonista de alguma forma, o que ajuda esta a enxergar melhor seus próprios problemas e, com isso, enfrentá-los) e toda aquela sequência com o pai dele serve de gatilho para a personagem de Russell reformular sua postura com a família e tomar a iniciativa de tentar ajudar a reconstruí-la. Para mim, é a parte emocionalmente mais impactante do filme, quando ela se abre tanto com o pai quanto com a madrasta, justamente por tudo que ela viu entre Hedges e o pai (que, por si só, diga-se, já é um plot forte).

Fora que Russell é de uma doçura desconcertante. Aliás, desempenho de elenco fantástico, Harrison absurdo também.

Esperava pouco também, um indie afetado e tals (e os primeiros minutos até sinalizam isso mesmo), mas fui nocauteado.

Silvio Pilau | quarta-feira, 13 de Maio de 2020 - 14:41

"Nocauteado" é uma boa palavra pra descrever o sentimento ao final do filme. É emocionalmente desgastante, parece que saímos cansados quando acaba.

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