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X-Men: Fênix Negra

(Dark Phoenix, 2019)
5,4
Média
39 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um desacerto que deixa saudades

4,0

Se a ideia de um universo expandido que engloba diferentes franquias, repetindo o mesmo conjunto de personagens e tomando o cinema por um período de décadas, hoje nos parece já concretizada, devemos algum reconhecimento por isso a X-Men: o Filme (2000), o princípio da mais duradoura franquia de super-heróis até hoje. Quando Novos Mutantes, com lançamento previsto para 2020, encerrá-la, teremos 20 anos de um universo cinematográfico relativamente coerente, quase o dobro do tempo do mais bem-sucedido MCU.

Embora não tenham sido estrategicamente planejados como parte de uma franquia dessa extensão (e talvez justamente por isso), os filmes de X-men foram capazes de se reinventar através de sucessivas reconfigurações do gênero de super-herói em Hollywood: produziram uma franquia derivada de um personagem conhecido (e muito querido), um filme de prólogo, investiram em alguns projetos consideravelmente experimentais tanto no cinema quanto na televisão e voltaram às suas origens para criar um dos mais elaborados reboots da história do cinema. Por todo esse caminho, tropeçou também em um bom número de fracassos de público e crítica, mas se justificou como um conjunto bem o bastante para manter um padrão recente de um lançamento por ano e duas séries na televisão.

Que lugar, então, Fênix Negra, o primeiro grande lançamento após a compra da Fox pela Disney (e, consequentemente, um dos últimos da franquia), ocupa nesse conjunto? O filme é dirigido por Simon Kinberg, roteirista de X-Men: O Confronto Final, e funciona como uma recriação de parte da trama desse outro filme, em que Jean Grey (então Famke Janssen, agora Sophie Turner) volta à vida como a “Fênix Negra”, um ser de poder imensurável e destrutivo, incorporado em Jean. Enquanto O confronto final é incapaz de trabalhar um desenvolvimento da personagem diante de uma trama excessiva (o filme mistura narrativamente a história de Fênix com a descoberta da “cura” mutante e a introdução de personagens como Kitty Pryde, Colossus, Anjo e Fera), esta nova tentativa, embora tenha a Fênix Negra como motivo principal do filme, não tem melhor êxito.

Para um filme com uma protagonista tão bem definida (e que tem alguma pretensão de tratar essa personagem com complexidade), Jean Grey desaparece dentro de uma repetição de eventos esperados (o reencontro com o passado, a perda de controle) e ideias replicadas (por exemplo, a do perigo de traumas reprimidos). No texto do filme, muito se fala sobre Jean: o Professor Xavier (James McAvoy) tem sua própria conclusão paternal sobre a personagem, de que Raven (Jennifer Lawrence) e Hank (Nicholas Hoult) discordam, e até a péssima vilã (Jessica Chastain) tem uma coisa ou outra pra dizer sobre ela. Apesar dos bons esforços de Sophie Turner, no entanto, a personagem é muito pouco construída a partir de si mesma.

É mais interessante ao filme, parece, fazer de Jean Grey/Fênix Negra um acessório para a ação ou mesmo para a construção de outros personagens (como Xavier e Raven). Vinculada a uma trama óbvia, mal-trabalhada e simplista de invasão alienígena (bem melhor articulada, recentemente, em Capitã Marvel), cabe a Jean a função menor de conduzir os X-men até os verdadeiros vilões da trama para depois concluir o seu arco de redenção. É irônico, mas não surpreendente, que a personagem esteja desacordada pela maior parte do terceiro ato do filme e que o fato de que Xavier não pode mais entrar em sua mente, enquanto ela pode entrar na mente dele, termine por favorecer a construção do personagem dele no lugar do dela.

Como a última aparição dos X-men nos cinemas como nos acostumamos a vê-los (e, acredito, sua última aparição por um bom tempo, pois eu não apostaria em planos imediatos da Disney para os personagens), Fênix Negra demonstra também algo que, em todos os seus tropeços anteriores, nunca antes apareceu nos filmes da franquia: uma renúncia às possibilidades do universo criado (e consolidado em duas décadas). Há um visível desinteresse do filme por si mesmo, uma abdicação diante de filme maiores do gênero e uma apatia em disputar o seu próprio lugar dentre esses outros.

Apesar disso, são perceptíveis ainda as particularidades que fizeram de X-men uma franquia com sua própria marca, em que a comunhão dos personagens e os laços que nós estabelecemos com eles nesse tempo são mais valorizados do que a estrutura de produção, uma escolha criativa tão carismática quanto frágil. Em 2019, Fênix negra nos coloca diante de um modo de concepção do gênero que já está 20 anos fora do seu tempo, mas que, à frente do mundo já resolvido e sem tolerância para erros da Disney nos cinemas, também deixará saudades.

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