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Zero em Comportamento

(Zéro de Conduite: Jeunes Diables au Collège, 1933)
7,7
Média
68 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Rebeldia na mais pura forma

10,0

Tal qual um furacão que passa rápido e deixa os resquícios de sua rota por um bom tempo, Jean Vigo passou brevemente pela história do cinema, realizando um total quatro filmes e morrendo aos 29 anos de tuberculose, logo após concluir sua última obra, o aclamado O Atalante, deixando um legado sem precedentes para a cinematografia mundial. Em seu primeiro filme de ficção, Zero em Comportamento já se via uma grande potência dessa forma de expressão em apenas quarenta e um minutos de pura expressão lírica cinematográfica.

Zero em Comportamento funde uma ambientação realista e rústica com pura experimentação visual, pioneiro em se utilizar dos conceitos da montagem soviética, mais notadamente de Dziga Vertov (o diretor de fotografia do filme de Vigo, Boris Kaufman, é irmão do famoso teórico-cineasta russo), como se já observava em seu primeiro filme, o documentário À Propósito de Nice. No todo, a obsessão de Vigo residia menos em localizar o espectador espacialmente dentro do quadro e mais, através dos cortes secos e da manipulação temporal, criar toda a atmosfera de um dos primeiros filmes genuinamente rebeldes do cinema.

Não à toa, filmes contraculturais que fascinariam gerações posteriores, como Os Incompreendidos, de François Truffaut, e Se…, de Lindsay Anderson, são homenagens declaradas a esta obra-prima de Vigo. No primeiro “filme de escola” marcante da história cinematográfica, o realizador mostrou seu lado polêmico e provocador: um tanto quanto autobiográfico (órfão de pai, abandonado pela mãe e provocado por colegas, o mesmo estudou em várias instituições de ensino, jamais conseguindo se adaptar a qualquer uma delas), Zero em Comportamento ficou nove anos banido na França, só alcançando sua aura de “culto” anos depois da morte do diretor.

Com o objetivo de colocar o dedo na ferida a qualquer custo, esse filme, apesar de em matéria de narrativa ser estruturalmente simples, é incrivelmente explícito e ousado na sua época ao desenhar a relação entre as crianças – caos, expressão e lirismo em estado puro  - e os dirigentes e professores adultos, homens rígidos, truculentos e afetados. Não à toa, o reitor da escola é um personagem destacado e caricatural – uma criança pequena vestida como adulto, com uma barba postiça e voz fina, que ao mesmo tempo ridículo e ameaçador, deboche que exibia bem o desprezo do francês pela autoridade.

Não é acaso que, quase vinte anos depois de O Nascimento de uma Nação instituir a maior parte das regras cinematográficas para narração, o desajustado Zero em Comportamento ameaça contar uma história para então não contá-la - a de maus tratos é interrompida a todo momento por gags visuais que, no fragmento seguinte, serão calados por alguma repressão.

Mas antes de ser um filme crítico sobre a repressão, é um filme com um ímpeto libertador gigantesco, como mostra seu terço final. Os alunos, que fumavam cigarros às escondidas, tendo que obedecer às regras sobre horários de dormir, comer e estudar, logo armam uma rebelião que surge espontaneamente na história, onde vemos um dos primeiros usos da câmera lenta para reforçar detalhes, impressões e sentimentos. As penas de travesseiro voam, pernas nuas correm para lá e para cá, as crianças riem por desobedecer a ordem de uma sociedade que ela jamais pediram para serem inseridas. O movimento mais alargado do filme, a anarquia pura da não-inserção. É o momento que Vigo destrói o espaço e dilata o tempo; a liberdade praticamente primitiva…

Violento e agressivo, o filme termina à base de entulhos arremessados na cara de figuras acadêmicas e políticas por infantes que mal sabem ler direito – e então mergulha no desconhecido, no final aberto, cantando enlouquecido. Término tão explosivo, mas tão natural dado o jogo de opostos que acontece durante o filme, mostrando que autor de sensibilidade única era Jean Vigo – rústico e belo, cru e poético. Fora de lugar, fora da arbitrariedade, fora da narração. Justamente como a infância.

Comentários (4)

Luís F. Beloto Cabral | terça-feira, 10 de Novembro de 2020 - 19:10

Coincidentemente vi pela primeira vez ontem. Gosto muito desse encontro entre féerie e luta de classes no cinema do Vigo, quase um Vertov misturado com Meliès. Belo texto Brum!

CitizenKadu | quinta-feira, 12 de Novembro de 2020 - 20:29

Esse filme e "Atalante" são tão diferentes; esse lembra muito mais o anarquismo francês que andou de mãos dadas com o realismo poético francês(como em René Clair e "A Nós a Liberdade"),sendo que a maioria vinha do surrealismo e do dadaísmo, o anarquismo violento que Lindsay Anderson chamou de volta em "If..." para criticar de forma alegórica o extremismo da rígida educação inglesa na época(como em "The Wall" do PInk Floyd).
"Atalante" já o realismo poético per si, muito mais poético do que real, um experimento sensorial sobre sexo e liberdade. Grande diretor, vale a pena ver a filmografia dele.

Luís F. Beloto Cabral | sexta-feira, 13 de Novembro de 2020 - 18:05

Eu diria que essa verve política ainda continua (mais indiretamente, é verdade) no Atalante, porque este ainda é uma trama sobre pessoas errantes e marginalizadas literalmente à margem da cifilização urbana, parisiense (vide, principalmente, o marujo interpretado pelo Michel Simon). É de fato um ensaio sobre sexo e liberdade, mas é significativo que ele se realize num lugar específico e com pessoas específicas dessa tessitura social.

Josiel Oliveira | terça-feira, 24 de Novembro de 2020 - 21:41

Tava arrastando faz tempo pra ver esse filme.
Vi por causa dessa crítica (ou melhor, por causa da nota da crítica, eu só fui ler agora rs).
Valeu Brum, agradecido demais!
Pqp, que paulada bixo! kkkk
Quero uma camiseta com o poster desse filme pra próxima vez que for quebrar vidro de banco ou botar fogo no Carrefour em protesto! rsrs

Josiel Oliveira | terça-feira, 24 de Novembro de 2020 - 21:45

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